Da vida na aldeia, parte quarenta

Vila Nova de Famalicão, Janeiro de 2017.

Da vida na aldeia, parte trinta e nove

São Miguel, Açores - Julho de 2016.

Da literatura, parte dezoito

O Segredo de Joe Gould, Joseph Mitchell (Dom Quixote, 2017).


Há livros que nos compram pela capa, já eu, no que respeita ao O Segredo de Joe Gould adquiri-o pelo prefácio de António Lobo Antunes. Saber, pela boca de um dos melhores escritores portugueses, que se trata de um livro magistral foi decisivo. E sim, este livro é tudo aquilo que Lobo Antunes lhe acrescenta e muito mais. Talvez não exagere, até, quando sublinho que dentre tantos livros que já li, nenhum se iguala ao retrato traçado por Joseph Mitchell.
As duas crónicas que compõem este livro foram publicadas originalmente na revista The New Yorker, na secção Perfis, onde míticas figuras da cidade nova-iorquina marcaram presença. Joe Gould é uma dessas figuras, um excêntrico boémio originário de uma importante família do Massachusetts que, após o término dos estudos em Harvard, se dedicou a uma vida de deambulação pelas ruas da "cidade que nunca dorme". De burguês a vagabundo, Gould irá dedicar todo o seu percurso à escrita de uma obra magnânima: História Oral do Nosso Tempo. Esta narrativa, que tanto me fez rir pelo detalhe das situações hilariantes levadas a cabo por Gould, é também um livro de raciocínio claro e pretensioso acerca da mente humana e do nosso papel na sociedade. O Professor Gaivota, que tem tanto de louco como de génio, sem um único dólar no bolso, mantém durante décadas uma campanha em torno da única arte em que acredita: a literatura. Sem constrangimentos, demonstra apenas aquilo que é, sem ser necessário recorrer a dogmas e imposições societários. Por ele não fui capaz de sentir pena, ainda que as condições em que escolheu viver sejam assombrosas, por ele sinto uma inveja clara, uma inveja boa, pela liberdade de escolha e pela autenticidade. Pela luta objectiva dos princípios pelos quais se orientava. Tal como dita Lobo Antunes: Seja qual for o preço que por ele deste (o livro), é uma pechincha comparado com o que vais receber.

Da literatura, parte dezassete

Filho de Deus, Cormac McCarthy (Relógio D'Água, 2014)


Esta obra do genial Cormac McCarthy, envolta numa crueza atroz, revela a história de Lester Ballard, um ignorante e solitário homem, que deambula pelas montanhas do estado do Tennessee. Afastado, à força, das terras que supostamente lhe pertenciam, sem um tecto fixo que o abrigue ou uma ocupação que o distraia, deixa na sua passagem um rasto de horror através dos assassínios em série que pratica. Sem qualquer tipo de filtro, o premiado autor americano, descreve com tamanha verdade e realismo o percurso de Ballard que, enquanto leitores, somos transportados para a linha da frente da acção. De uma violência de emoções inexplicável. Tudo aquilo a que McCarthy já habituou os seus apreciadores.

Da vida na aldeia, parte trinta e oito

Vila Nova de Famalicão, Abril de 2017.

Diário, parte oito

A senhora, esboçando um sorriso, disse-me acerca de Vergílio Ferreira:
- Como existencialista, ele questiona. E em cada capítulo da sua história é possível abrir uma janela. Por isso, quando ele nos fala da morte, só nos quer alertar para o que é a vida.

Da vida na aldeia, parte trinta e sete

Vila Nova de Famalicão, Abril de 2017.

Da vida na aldeia, parte trinta e seis

Póvoa de Varzim, Janeiro de 2017.

Da vida na aldeia, parte trinta e cinco

Fafe, Janeiro de 2017.

Da literatura, parte dezasseis

Eu sou a Árvore, Possidónio Cachapa (Companhia das Letras, 2016)


Até Junho do ano passado, por altura da saída deste livro no mercado, desconhecia o autor Possidónio Cachapa. O design da capa, num primeiro contacto, comprou-me de imediato. As aparências, neste caso particular, não enganaram e a imagem que lhe dá corpo faz jus ao conteúdo.
Eu sou a Árvore podia servir de argumento ao filme The Tree of Life de Terrence Mallick, tal são as coincidências a nível da narrativa e da construção das próprias personagens. E, ainda que o citado filme seja de uma sensibilidade atroz, ainda que por altura do seu visionamento me tenha marcado imenso, os livros transportam em si uma maior competência no que respeita à memória. Dentre tantos e tantos livros que tenho lido e relido, esta foi talvez uma das histórias mais tristes e melancólicas pela qual passei os olhos. Até me é difícil descrever o que senti página após página, tamanha angústia me percorreu. A escrita de Cachapa é simples, demasiado simples até e, ainda assim, capaz de penetrar no poros da pele, passar por entre a epiderme, a derme e, posteriormente a hipoderme e, devagarinho, atravessar as veias e incluir-se na corrente sanguínea.
A história, tal como a técnica, é elementar: um conto que vai desde os tempos da ditadura até à abertura das portas da liberdade. Uma família citadina lisboeta composta por cinco elementos que, por vontade do patriarca, se desloca à força para um monte alentejano, tendo como objectivo primordial o cultivo da terra como forma de subsistência. Ali, longe de um mundo à qual, na sua maioria, sentem não pertencer, a felicidade é primordialmente posta em causa. E é nesta busca incessante pelo bem-estar, nesta euforia desabitada pelo contentamento, que o autor dá voz a todos os protagonistas desta trama. Não se tendo limitado a descrevê-los e colocá-los nos diversos cenários, Possidónio deu-lhes corpo e o dom da palavra. É por isso que tudo neste livro é tão real, tão verdadeiro, é como assistir à peça da Terrence Mallick contada através da voz de um alentejano. E nós, enquanto leitores, somos forçados a sentir tudo na primeira pessoa, mesmo sem querer, somos obrigados a isso. Sadicamente aceitamos de boa vontade a amargura, abrimos-lhe os braços e aconchegamo-la no nosso peito. E ela ali permanece, parágrafo após parágrafo, folha após folha. Uma fusão entre os membros que constituem um tronco e as raízes que suportam os caules. Uma simbiose perfeita entre o Homem e a Natureza.

Da literatura, parte quinze

Lembramo-nos tantas vezes do outro mundo, aquele em que não vivemos. E é sempre melhor ou pior do que este que nos calhou. Nunca corresponde inteiramente ao real. Somos tantas vezes Alice, na nossa própria memória, como um dia fomos menino ou menina. É a nossa maneira de insistirmos em ser humanos.


in Eu sou a Árvore de Possidónio Cachapa (Companhia das Letras, 2016).

Da literatura, parte catorze

A casa estava de novo cheia e isso deixava-o contente. Mas, ao mesmo tempo, o conjunto de memórias, de tudo o que tinha vivido, de tudo o que tinha perdido por não ter compreendido que cuidar não é só pôr comida na mesa, dia após dia. Ou que para tomar conta dos outros, às vezes temos de parar, abrir-lhes apenas os braços e ficar ali, sem fazer nada. Só a deixar que as nossas mãos acariciem as suas; a tocar os cabelos fininhos e macios de criança antes que eles espessem e nos digam que já não precisam das nossas mãos. Rir com eles. Ser amado e amar. Só isso. Ou não deixar que a necessidade de abrir o ventre da terra, ciclicamente, se torne numa obsessão. O vício que tudo cega. A terra dá e a terra tira. Porque a terra espera também o dia em que será vencedora sobre o corpo físico do homem. Nela entrará a sua carne ou pousarão as suas cinzas.


in Eu sou a Árvore de Possidónio Cachapa (Companhia das Letras, 2016).

Da vida na aldeia, parte trinta e quatro

Vila Nova de Famalicão, Março de 2017.

Da vida na aldeia, parte trinta e três

Vila Nova de Famalicão, Março de 2017.

Diário, parte sete

António Lobo Antunes.


Não é uma questão de escolha ou preferência, é um facto. António Lobo Antunes será sempre o meu Mestre. Ainda adolescente, sem obras a assinalar na minha humilde biblioteca, li Memória de Elefante e pasmei. Depois, Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno. E por ali fiquei, li-o, reli-o. Ri, chorei. Fui sendo, ao longo dos anos, desafiada a ler obras cada mais complexas mas, ainda assim, mais descomplicadas, verdadeiras. Foi através da sua figura de esquerda, sem filtros, através da sua consciência acerca das pessoas e da vida que o defendi acerrimamente sempre que me defrontava com alguém que dizia que não conseguia ler os seus livros. Demasiado difíceis, como se a língua portuguesa fosse algo simplório. Defrontei-me, até, em pleno campo de batalha quando alguém, da equipa inimiga, me afirmava que preferia Saramago a Lobo Antunes. Tamanho ultraje, impensável.
A este homem devo muito. Demasiado. Não bastava me ter presenteado com aquilo que hoje consigo definir como Literatura, como também me deu a conhecer autores como Cormac McCarthy, Lev Tolstói, Joseph Conrad e, mais recentemente, Joseph Mitchell. Foi ele que, na sua espontaneidade, me demonstrou que as palavras não bastam, que as obras primas são compostas muito para além das letras que compõem os textos. Foi ele que me transmitiu a rudeza do espírito, a claridade do pensamento, a liberdade de escolha.

Foi ele, o António, o militar, o médico psiquiatra, o escritor, a quem mais devo. E há dividas, neste departamento infindável que é a Arte, utopicamente impossíveis de saldar. É A Ordem Natural das Coisas. 

Da literatura, parte treze

Poemas Escolhidos de Alberto Caeiro, Fernando Pessoa (Assírio e Alvim, 2014)


De todos os heterónimos de Fernando Pessoa, para mim, Alberto Caeiro é especial. A sua forma de estar na vida, a sua tranquilidade e simplicidade, a devoção à natureza renegando ao pensamento, a entrega às sensações, à liberdade e à autenticidade, fazem dele, sem sombra de dúvidas, o Mestre. Só ele soube ver, com olhos de gente, o mundo rural e transportar, através de palavras que compõem os seus poemas, a natureza que tanto amava. Assim é O Guardador de Rebanhos e tantos outros poemas que compõem este pequeno livro maravilhoso. Um verdadeiro elogio aos lugarejos portugueses e ao verde que os rodeia.

Da literatura, parte doze

Montedor, José Rentes de Carvalho (Quetzal, 2014)


O primeiro livro de Rentes de Carvalho decorre numa aldeia de Trás-os-Montes numa época em que, durante o Estado Novo, a crença num amanhã promissor, especialmente por parte dos jovens, era remota. Traçando um fiel retrato do Portugal rural da altura, a história deste romance é contada através das vivências de um rapaz que, após o término dos estudos, se vê sem objectivos. Vivendo à sombra dos seus sonhos e das suas mirabolantes fantasias, o presente e o futuro fundem-se, ambos sem esperança. Escrito com uma simplicidade tocante, perante uma população, também ela, descomplicada, o Montedor apela à reflexão. À meditação acerca de uma sociedade à qual, todos nós, pertencemos num passado tão recente. De uma lucidez admirável.

Da vida na aldeia, parte trinta e dois

Vila Nova de Famalicão, Janeiro de 2017.

Todas as árvores caminham sobre o Tempo, sobre a passagem das estações, porque nenhum outro movimento lhes resta. Existem, simplesmente, dividindo-se entre o corpo visível que se estende à luz e o corpo inferior que vive de forma encoberta.
Os seus frutos, contudo, são esperanças perdidas, Verão após Verão. Imagens do desejo de poder ser mais do que braços a estender-se ao céu, ao vento, à impiedade dos pássaros. Da vontade que todo o corpo, o poderoso corpo, pudesse sair da terra, com duas pernas móveis, e a fizesse estremecer de medo quando uma delas voltasse a pousar na superfície.
«Toma os meus frutos, com os meus filhos dentro, que são eu, na forma primitiva, e faz de mim um ser que corre», pedem as árvores aos deuses, na sua súplica.
Mas estes ficam calados no silêncio compadecido que os deuses guardam para os homens e árvores. O calar forçado de quem sabe que a cada um de nós cabe apenas o seu destino. Os deuses apenas passam a mão sobre os grandes corpos vegetais, enviando-lhes a chuva manda que os dessedenta e reconforta.
Sob o chão húmido de cada árvore vivem milhares de sementes que nunca subirão à superfície. Guardam-se em potência para um tempo que talvez possa chegar. Para os dias em que todas as coisas poderão nascer e prosperar lado a lado, quais irmãs. O momento em que sobre a Terra viverão apenas as plantas do mundo.
E, então, do Espaço que nunca atingirão, será possível ver apenas as águas e uma mancha imensa, verde e acolchoada.

A terra de todas as árvores.


in Eu sou a Árvore de Possidónio Cachapa (Companhia das Letras, 2016).