Da literatura, parte vinte e um

«Nada é para mim doce sem ti.»
Milton era cego como o capitão marítimo, um poeta inglês que perdeu a visão na velhice. Compunha os seus poemas na escuridão e a filha escrevia-os por ele. Assim, abençoamos as mãos dela, mas esperamos que tivessem uma vida para além dos poemas, esperamos que fossem capazes de segurar algo mais quente e macio do que uma caneta esguia. Algumas palavras podem eventualmente mudar o mundo, podem confortar-nos e secar as nossas lágrimas. Algumas palavras são balas, outras são notas de um violino. Outras conseguem derreter o gelo em volta do coração, e até é possível enviar palavras como equipas de salvamento quando os dias são difíceis e talvez não estejamos nem vivos nem mortos. Contudo, as palavras não são suficientes e perdemo-nos e morremos nas charnecas da vida se não tivermos nada a que nos agarrar além de uma caneta.


in Paraíso e Inferno de Jón Kalman Stefánsson (Cavalo de Ferro, 2013)

Da vida na aldeia, parte quarenta e cinco

Porto, Junho de 2017.

Da literatura, parte vinte

(...) o Inferno é ter braços mas ninguém a quem abraçar. O ar tremeu como se algo grande tivesse sido rasgado, depois um som de algo a partir ouviu-se quando o sol caiu e aterrou na Terra. As pessoas estão vivas, têm os seus momentos, os seus beijos, risos, os seus abraços, palavras de encorajamento, as suas alegrias e tristezas, cada vida é um universo que então colapsa e não deixa nada para trás, expecto alguns objectos que adquirem um poder de atracção através da morte dos seus proprietários, tornam-se importantes, por vezes sagrados, como se pedaços da vida que nos deixou tivessem sido transferidos para a chávena de café, a serra, o pente, o cachecol. Mas tudo acaba por se desvanecer, as recordações desaparecem algum tempo depois e tudo morre. Onde havia outrora vida e luz, existe a escuridão e o esquecimento.


in Paraíso e Inferno de Jón Kalman Stefánsson (Cavalo de Ferro, 2013)

Da literatura, parte dezanove

A nossa existência é uma busca imparável por uma solução, pelo que nos conforta aquilo que nos traz felicidade, afasta todas as coisas más. Alguns percorrem uma estrada longa e sinuosa e talvez não encontrem absolutamente nada, excepto para algum tipo de objectivo, um género de libertação ou alívio na própria busca, os restantes admiram a sua tenacidade mas têm problemas suficientes ao simplesmente existirem, por isso tomam elixires que curam tudo em vez de procurarem, perguntando continuamente qual é o caminho mais curto para a felicidade, e encontram a resposta em Deus, na ciência, na aguardente, no exilir chinês.


in Paraíso e Inferno de Jón Kalman Stefánsson (Cavalo de Ferro, 2013).

Da vida na aldeia, parte quarenta e quatro



Porto, Junho de 2017.

Da vida na aldeia, parte quarenta e três

Vila Nova de Cerveira, Junho de 2017.

Da vida na aldeia, parte quarenta

Vila Nova de Famalicão, Janeiro de 2017.

Da vida na aldeia, parte trinta e nove

São Miguel, Açores - Julho de 2016.

Da literatura, parte dezoito

O Segredo de Joe Gould, Joseph Mitchell (Dom Quixote, 2017).


Há livros que nos compram pela capa, já eu, no que respeita ao O Segredo de Joe Gould adquiri-o pelo prefácio de António Lobo Antunes. Saber, pela boca de um dos melhores escritores portugueses, que se trata de um livro magistral foi decisivo. E sim, este livro é tudo aquilo que Lobo Antunes lhe acrescenta e muito mais. Talvez não exagere, até, quando sublinho que dentre tantos livros que já li, nenhum se iguala ao retrato traçado por Joseph Mitchell.
As duas crónicas que compõem este livro foram publicadas originalmente na revista The New Yorker, na secção Perfis, onde míticas figuras da cidade nova-iorquina marcaram presença. Joe Gould é uma dessas figuras, um excêntrico boémio originário de uma importante família do Massachusetts que, após o término dos estudos em Harvard, se dedicou a uma vida de deambulação pelas ruas da "cidade que nunca dorme". De burguês a vagabundo, Gould irá dedicar todo o seu percurso à escrita de uma obra magnânima: História Oral do Nosso Tempo. Esta narrativa, que tanto me fez rir pelo detalhe das situações hilariantes levadas a cabo por Gould, é também um livro de raciocínio claro e pretensioso acerca da mente humana e do nosso papel na sociedade. O Professor Gaivota, que tem tanto de louco como de génio, sem um único dólar no bolso, mantém durante décadas uma campanha em torno da única arte em que acredita: a literatura. Sem constrangimentos, demonstra apenas aquilo que é, sem ser necessário recorrer a dogmas e imposições societários. Por ele não fui capaz de sentir pena, ainda que as condições em que escolheu viver sejam assombrosas, por ele sinto uma inveja clara, uma inveja boa, pela liberdade de escolha e pela autenticidade. Pela luta objectiva dos princípios pelos quais se orientava. Tal como dita Lobo Antunes: Seja qual for o preço que por ele deste (o livro), é uma pechincha comparado com o que vais receber.

Da literatura, parte dezassete

Filho de Deus, Cormac McCarthy (Relógio D'Água, 2014)


Esta obra do genial Cormac McCarthy, envolta numa crueza atroz, revela a história de Lester Ballard, um ignorante e solitário homem, que deambula pelas montanhas do estado do Tennessee. Afastado, à força, das terras que supostamente lhe pertenciam, sem um tecto fixo que o abrigue ou uma ocupação que o distraia, deixa na sua passagem um rasto de horror através dos assassínios em série que pratica. Sem qualquer tipo de filtro, o premiado autor americano, descreve com tamanha verdade e realismo o percurso de Ballard que, enquanto leitores, somos transportados para a linha da frente da acção. De uma violência de emoções inexplicável. Tudo aquilo a que McCarthy já habituou os seus apreciadores.

Da vida na aldeia, parte trinta e oito

Vila Nova de Famalicão, Abril de 2017.

Diário, parte oito

A senhora, esboçando um sorriso, disse-me acerca de Vergílio Ferreira:
- Como existencialista, ele questiona. E em cada capítulo da sua história é possível abrir uma janela. Por isso, quando ele nos fala da morte, só nos quer alertar para o que é a vida.

Da vida na aldeia, parte trinta e sete

Vila Nova de Famalicão, Abril de 2017.

Da vida na aldeia, parte trinta e seis

Póvoa de Varzim, Janeiro de 2017.

Da vida na aldeia, parte trinta e cinco

Fafe, Janeiro de 2017.

Da literatura, parte dezasseis

Eu sou a Árvore, Possidónio Cachapa (Companhia das Letras, 2016)


Até Junho do ano passado, por altura da saída deste livro no mercado, desconhecia o autor Possidónio Cachapa. O design da capa, num primeiro contacto, comprou-me de imediato. As aparências, neste caso particular, não enganaram e a imagem que lhe dá corpo faz jus ao conteúdo.
Eu sou a Árvore podia servir de argumento ao filme The Tree of Life de Terrence Mallick, tal são as coincidências a nível da narrativa e da construção das próprias personagens. E, ainda que o citado filme seja de uma sensibilidade atroz, ainda que por altura do seu visionamento me tenha marcado imenso, os livros transportam em si uma maior competência no que respeita à memória. Dentre tantos e tantos livros que tenho lido e relido, esta foi talvez uma das histórias mais tristes e melancólicas pela qual passei os olhos. Até me é difícil descrever o que senti página após página, tamanha angústia me percorreu. A escrita de Cachapa é simples, demasiado simples até e, ainda assim, capaz de penetrar no poros da pele, passar por entre a epiderme, a derme e, posteriormente a hipoderme e, devagarinho, atravessar as veias e incluir-se na corrente sanguínea.
A história, tal como a técnica, é elementar: um conto que vai desde os tempos da ditadura até à abertura das portas da liberdade. Uma família citadina lisboeta composta por cinco elementos que, por vontade do patriarca, se desloca à força para um monte alentejano, tendo como objectivo primordial o cultivo da terra como forma de subsistência. Ali, longe de um mundo à qual, na sua maioria, sentem não pertencer, a felicidade é primordialmente posta em causa. E é nesta busca incessante pelo bem-estar, nesta euforia desabitada pelo contentamento, que o autor dá voz a todos os protagonistas desta trama. Não se tendo limitado a descrevê-los e colocá-los nos diversos cenários, Possidónio deu-lhes corpo e o dom da palavra. É por isso que tudo neste livro é tão real, tão verdadeiro, é como assistir à peça da Terrence Mallick contada através da voz de um alentejano. E nós, enquanto leitores, somos forçados a sentir tudo na primeira pessoa, mesmo sem querer, somos obrigados a isso. Sadicamente aceitamos de boa vontade a amargura, abrimos-lhe os braços e aconchegamo-la no nosso peito. E ela ali permanece, parágrafo após parágrafo, folha após folha. Uma fusão entre os membros que constituem um tronco e as raízes que suportam os caules. Uma simbiose perfeita entre o Homem e a Natureza.

Da literatura, parte quinze

Lembramo-nos tantas vezes do outro mundo, aquele em que não vivemos. E é sempre melhor ou pior do que este que nos calhou. Nunca corresponde inteiramente ao real. Somos tantas vezes Alice, na nossa própria memória, como um dia fomos menino ou menina. É a nossa maneira de insistirmos em ser humanos.


in Eu sou a Árvore de Possidónio Cachapa (Companhia das Letras, 2016).