Da vida na aldeia, parte vinte e dois






Sometimes there's so much beauty in the world, I feel like I can't take it, and my heart is just going to cave in.

American Beauty - Sam Mendes, 1999.

Da vida na aldeia, parte vinte e um

Março de 2017.

Da vida na aldeia, parte vinte


Vila Nova de Foz Côa, Março de 2017.


Há dias em que escrever também me aborrece, há dias em que puxar pela cabeça, em vão, de forma a encontrar as palavras certas se revela uma missão impossível. Há dias assim, como a Primavera chuvosa que desabrocha lá fora, cinzentos e melancólicos, em que somente uma fotografia é capaz de falar por si. E é por isso que trabalho, que trabalhamos, com afinco em torno desta arte. É para dias assim, em que as imagens substituem as palavras, que nos debruçamos para encontrar a luz e cenários perfeitos. É por isto que vale a pena, ainda que nem sempre a Natureza colabore. É por isto, sim, para que uma simples fotografia se expresse por ela própria e seja capaz de, não sendo esse o seu objectivo primordial, contar histórias através de uma linguagem que se sobreponha às palavras.

Da vida na aldeia, parte dezanove

© Pedro Marques, Fevereiro de 2017.



Aqui estou, no alto desta serra ondulada, sentado, a contemplar um largo horizonte (...). Vivo a natureza integrado nela. De tal modo, que chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espectáculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito e do eterno.


in Diário, vols. I a IV de Miguel Torga (Dom Quixote, 1995)

Da literatura, parte seis

O Pintassilgo - Donna Tartt (Presença, 2014)


Há livros que não podem, nem devem, ser resumidos ou contextualizados, apenas, através da sua sinopse. Há obras que fazem juz à palavra Literatura, às quais é impossível atribuir apenas um ou dois adjectivos, ainda que os mesmos sejam o supremo da arte. O Pintassilgo, dentro das suas quase 900 páginas, basta apenas àqueles que têm a coragem de se embrenhar nas suas páginas. Chamem-lhe egoísmo: há livros que só podem ser compreendidos por aqueles que se perdem neles.


Que a vida - para além do mais que possa ser - é curta. Que o destino é cruel e talvez não aleatório. Que a Natureza (ou seja, a Morte) ganha sempre, mas isso não quer dizer que tenhamos de lhe baixar a cabeça e a bajular. Que, mesmo que talvez nem sempre nos sintamos contentes por estarmos aqui, a nossa tarefa é mergulhar, de qualquer maneira: passar a vau por ela, pela cloaca, com os olhos e o coração abertos. E no meio do nosso processo de morte, enquanto nos erguemos do orgânico e voltamos a afundar-nos ignominiosamente no orgânico, é uma glória e um privilégio amar aquilo que a Morte não toca.


São estas as últimas palavras que figuram no livro O Pintassilgo. São estas frases brilhantes que, dentre tantas outras, concluem a obra vencedora do Prémio Pulitzer. São estas sílabas, encavalitadas umas nas outras que, neste diamante em bruto que demorou mais de dez anos a ser escrito, me sabem a fim.

Da literatura, parte cinco

A água que não corre, empoça, apodrece e cheira mal. Mas também apodrece e cheira mal toda a vida que não flui. A nossa vida só é digna deste nome quando flui, quando está em movimento. Contudo, tanto por cobardia como por preguiça, ou até por inércia - embora quase sempre seja o medo o que mais nos paralisa -, todos tendemos a ficar quietos e, mais ainda, a nos encastelarmos. Encerrar-se num castelo é não só ficar quieto, mas também dificultar qualquer movimento futuro. Procuramos trabalhos que nos dêem garantias; casamentos que nos tranquilizem; ideias firmes e claras; partidos conservadores; ritos que nos devolvam uma sensação de continuidade... Buscamos casas protegidas; sistemas de saúde bem cobertos; investimentos com o mínimo risco; procuramos estar seguros de tudo... E é assim que o rio da nossa vida vai encontrando obstáculos no seu curso, até que um dia, sem aviso prévio, deixa de fluir. Respiramos, sim; mas, frequentemente, estamos mortos. Não sobrevivemos a nós mesmos: há «bio-logia», mas não há «bio-grafia».


in Biografia do silêncio de Pablo d'Ors (Paulinas, 2014)

Da literatura, parte quatro

Por isso, creio que para escrever, como para viver ou amar, não nos devemos pressionar, mas libertar-nos; não nos devemos reter, mas desprender-nos. A chave de quase tudo está na magnanimidade do desprendimento. O amor, a arte e a meditação, pelo menos estas três coisas, funcionam assim.
Quando digo que convém que estejamos soltos ou desprendidos, refiro-me à importância de confiar. Quanto maior confiança tivermos em alguém, tanto melhor podemos amá-lo; quanto mais o criador se entregar à obra, tanto mais ela lhe corresponderá. O amor - como a arte ou a meditação - é pura e simplesmente confiança. E prática, evidentemente, porque também a confiança de exercita.


in Biografia do silêncio de Pablo d'Ors (Paulinas, 2014)

Da vida na aldeia, parte dezasseis

Vila Nova de Famalicão - Janeiro de 2017.

Da vida na aldeia, parte quinze

Vila Nova de Famalicão - Janeiro de 2017.



Da coragem necessária para terminar as últimas 100 páginas de O Pintassilgo de Donna Tartt.

Da vida na aldeia, parte catorze

Vila Nova de Famalicão - Janeiro de 2017.

Diário, parte quatro

Se é para escrever que seja sem erros ortográficos e/ou de pontuação. Se é para fotografar que não baste, apenas, clicar no botão da câmara perante paisagens possantes. Na vida, não basta querer e gostar, há que trabalhar arduamente para que o resultado final seja digno de vénias. Há que sonhar, acreditar e concretizar. Na verdade, há que criar algo diferente, algo que se diferencie num mundo cada vez mais vulgar. Há que, embalada na onda da sensatez de Miguel Torga, ser autêntico. 

Da literatura, parte três

Qual é a nossa história? Tudo está no contar. As histórias são bússolas e arquitectura; navegamos por elas, construímos os nossos santuários e as nossas prisões com elas, e não ter uma história é estarmos perdidos na vastidão do mundo que se espalha em todas as direcções como a tundra árctica ou o mar de gelo. Amar alguém é pormo-nos no seu lugar, dizemos, que é pormo-nos na sua história, ou descobrimos como contar a nós próprios a sua história.


in Esta Distante Proximidade de Rebecca Solnit (Quetzal, 2015)


Quando o primeiro parágrafo de um livro dedicado às mães, e aos lobos, não poderia começar de outra forma.

Diário, parte três

Tenho a sensação de, por vezes, aprender mais sobre fotografia através da sétima arte ao invés de percorrer quilómetros com a câmara fotográfica às costas. Uma vénia a Alejandro G. Iñárritu e a Emmanuel Lubezki, este último director de fotografia. The Revenant é, sem dúvida, uma exposição fotográfica genial aos olhos dos apreciadores.

Da vida na aldeia, parte treze

Matosinhos, Porto - Janeiro de 2017.


Para o arquitecto da minha vida:

De quantos ofícios há no mundo, o mais belo e o mais trágico é o de criar arte. É ele o único onde um dia não pode ser igual ao que passou. O artista tem a condenação e o dom de nunca poder automatizar a mão, o gosto, os olhos, a enxada. Quando deixa de descobrir, de sofrer a dúvida, de caminhar na incerteza e no desespero - está perdido.


in Diário, vols. I a IV de Miguel Torga (Dom Quixote, 1995)

Diário, parte dois

Oitenta e muitos livros. Oitenta e muitos foram os livros que contei por ler na minha estante. Dentre tantas e tantas obras que vou adquirindo, deste vício terrível que é a literatura, estes são os tristes espécimes que aguardam a sua vez para serem folheados. Chega, basta, talvez esta seja uma boa hora para um compromisso penoso: não comprar mais livros, para além da colecção dos Diários de Miguel Torga e dos obrigatórios relativos à profissão, até que todos os outros me aconcheguem a alma.

Meses hilariantes se esperam.

Da vida na aldeia, parte doze

Pisco-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula), Vila Nova de Famalicão - Janeiro de 2017.

Da vida na aldeia, parte onze

Garça-branca-pequena (Egretta garzetta), Foz do Douro, Porto - Janeiro de 2017.

Não, eu não posso viver à beira-mar. Porque, das duas uma: ou me fico pasmado, parvo, de boca aberta diante deste Doiro de água, ou enlouqueço a sentir bater em mim angustiosa desta massa imensa. No primeiro caso, sinto-me morrer de imbecilidade; no segundo, estou sempre de mão no pulso a ver quando o coração se cansa.


in Diário, vols. I a IV de Miguel Torga (Dom Quixote, 1995) 

Diário, parte um

Orgulho-me da equipa que somos. Esbanjo arrogância, até, quando penso naquilo em que nos transformámos, naquilo que, diariamente, construímos. É por isso que, enquanto escrevo estas palavras, aqui, à beira do Douro, relembro com ternura a madrugada de há alguns dias atrás. 5h30 da manhã, o termómetro não marcava sequer temperaturas positivas e, nós, com tamanha incumbência e responsabilidade de fotografar aquele cenário, com aquela cor, rumámos até à beira do Atlântico com a tralha do costume. Ainda que o desconforto do frio fosse imenso, ainda que o pano de fundo com o qual a natureza nos presenteou não fosse, de todo, o ideal, no final do dia, enquanto exaustos seleccionavámos as imagens para posterior edição, senti um orgulho inexplicável. Orgulho-me muito da equipa que somos, interiorizei. Lado a lado, no mesmo espaço, com o mesmo horizonte, conseguimos captar olhares completamente diferentes. Não se trata, na realidade, de ser original, ser díspar, não, é apenas um grau de cumplicidade tal que somente as imagens conseguem contar a história. É este o poder dignificador da fotografia. Conseguirmos nos manter fiéis à visão que temos do mundo e, ainda assim, em dupla, mostrar a mesma perspectiva de formas distintas. É isto o amor, afinal.