Diário, parte trinta e um

Coimbra.


Se me perguntassem, no geral, à parte do amor pelo meu companheiro, família e amigos, à parte do cheiro do pão acabado de cozer, do de centeio da Serra da Estrela ou do de alfarroba barrado, ainda quentinho, com manteiga dos Açores e uma boa chávena de café com leite. À parte do cheiro do bolo de maçã e canela, acompanhado de chá vermelho. À parte de chegar a casa, ao final da tarde, acender um pau de incenso de jasmim ou alfazema e ligar a playlist Deep Focus. À parte dos Sábados e Domingos invernosos em que, com ele, nos aninhamos em frente à lareira com um livro no colo. À parte da fotografia, do caminhar de mãos dadas em dias solarengos pelo verde que, ainda, persiste na cidade. À parte de tudo isto, que aos olhos de muitos parece tão pouco mas que, a mim, me preenche de alegria e amor, à parte, agora, neste momento, basta-me apenas isto: sentar, cruzar as pernas, fechar os olhos e sentir a natureza. Desligar. Conseguir, sem ter a consciência disso mesmo, do silêncio. Não da ausência de som, mas do distanciamento do ruído que me transporta para a melodia do vento, das folhas das árvores que tilintam umas contra as outras, do chilrear dos pássaros e da água que, na sua rotina, vai descendo pelas montanhas.

Como um dia escreveu Miguel Torga em Cântico do Homem:

(...)

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Da vida na aldeia, parte setenta e dois

Foz do Douro.


Na orla do mar,
no rumor do vento,
onde esteve a linha
pura do teu rosto
ou só pensamento
– e mora, secreto,
intenso, solar,
todo o meu desejo –
aí vou colher
a rosa e a palma.
Onde a pedra é flor,
onde o corpo é alma.


Eugénio de Andrade.

Da vida na aldeia, parte setenta e um

Coimbra.



Se cada dia cai
dentro de cada noite
há um poço
onde a claridade está encerrada.

Temos de nos sentar no rebordo
do poço da sombra
e pescar a luz caída
com paciência.


Pablo Neruda.

Da Sétima Arte, parte oito

Expedition Happiness - Felix Starck, 2017.








Para ler mais... e sonhar. After all, routine is the enemy of progress, right?!

Da Sétima Arte, parte sete

The Shape of Water - Guillermo Del Toro, 2017.


If I told you about her, what would I say? That they lived happily ever after? I believe they did. That they were in love? That they remained in love? I'm sure that's true. But when I think of her - of Elisa - the only thing that comes to mind is a poem, whispered by someone in love, hundreds of years ago: "Unable to perceive the shape of you, I find you all around me. Your presence fills my eyes with your love, It humbles my heart, for you are everywhere."

Da vida na aldeia, parte setenta



Coimbra.


Todos nós já passámos, um dia ou outro, por esta experiência do ilimitado: no meio da floresta, ao determo-nos subitamente, imóveis, no meio de uma multidão em movimento, ao regressarmos a casa de autocarro a meio da noite, ao escutar as conversas dos amigos - de longe - sem realmente os escutar... De todas essas vezes, o silêncio apanhou-nos numa emboscada. Entre as palavras, entre as imagens habituais, entre as sensações familiares, existe um universo paralelo, uma calma absoluta e benéfica, cujo acesso é ciosamente guardado pelas sentinelas da concentração e da consciência plena. Porque - sejamos claros - o silêncio não tem nada, mas rigorosamente nada, que ver com a ausência de ruído!


in A Magia do Silêncio de Kankyo Tannier (Arena, 2018).

Diário, parte trinta

Estes episódios na companhia de gatos (ou cães) convidam-nos certamente a observar mais a natureza. Podemos receber dela mensagens de concentração, de vagar e de respeito pelos nossos ritmos naturais. E, para isso, alguns dias na floresta ou na montanha são muito salutares. O tempo muda, o silêncio começa a instalar-se e outra coisa aparece, sob a superfície.
Porém, quando os dias se sucedem no ritmo desenfreado da rotina diária, tal nem sempre é possível. Como fazer, então? Porque não estudarmos mais os nossos gatos, cães ou cavalos? E se não tiver a sorte de ter perto de si pequenos ou grandes companheiros de viagem, porque não ver reportagens, ler livros de etologia, estudar a vida dos animais que lhe agradam? Tenho na minha biblioteca umas boas três dezenas de obras sobre a vida animal, desde as abelhas aos lobos, passando pelos porcos e, acreditem, é fascinante! Para além do aspecto do conhecimento, os animais são intermediários, como guias que nos levam de volta à terra. Nas nossas cidades de betão, aceder ao mundo selvagem do cão ou do gato é um primeiro passo para o restabelecer do contacto: o nosso reencontro necessário e programado com a Natureza.

Ver um mundo num grão de areia,
E um paraíso numa flor selvagem, 
Segurar o infinito na palma da mão,
E a eternidade numa só hora. 


William Blake, Auguries of Innocence.


in A Magia do Silêncio de Kankyo Tannier (Arena, 2018).

Da vida da aldeia, parte sessenta e sete

Serra da Estrela.


Enquanto namorado, por vezes, anseio pelo silêncio. Gosto de falar e de ouvir, mas, na minha experiência, a verdadeira intimidade só se atinge quando ficamos em silêncio durante algum tempo. Numa relação amorosa, sem a ternura que se segue à paz e à quietude, é difícil sentir as subtilezas e chegar a uma compreensão mútua. A tagarelice e outros ruídos podem tornar-se autênticos mecanismos de defesa para evitar a verdade. Sim, quando tenho nos meus braços tudo aquilo por que anseio, as palavras são supérfluas. Os Depeche Mode já o disseram numa canção:

All I ever wanted,
All I ever needed,
Is here in my arms.


in Silêncio da Era do Ruído de Erling Kagge (Quetzal, 2017)

Da vida na aldeia, parte sessenta e cinco

Coimbra.


Tudo cresce de forma rápida e forte.
E, é evidente, cresce silenciosamente. Na nossa cultura obcecada pelo ruído, é muito mais fácil esquecer quantas das principais forças físicas de que dependemos são silenciosas - a gravidade, a electricidade, a luz, as marés, o rodopiar invisível e inaudível de todo o cosmos. A Terra roda, e  rapidamente. Roda sobre o seu próprio eixo a cerca de 1700 quilómetros por hora (no equador); faz a órbita em torno do Sol a 107 218 quilómetros por hora. E todo o sistema solar rodopia nesta galáxia a velocidades que nem sequer me atrevo a imaginar. A atmosfera da Terra roda juntamente com ela, motivo pelo qual não sentimos esse movimento. E tudo acontece silenciosamente.
O crescimento orgânico também é silencioso. As células dividem-se, a seiva flui, as bactérias multiplicam-se, a energia percorre, efervescente, toda a terra, mas sem um murmúrio. «A força que impele a flor através do verde rastilho» é silenciosa. O solo, esse revestimento superior mais superficial, é designado terra e o próprio planeta Terra. Tudo está vivo - a palpitar, a agitar-se, a movimentar-se. Os esporos fúngicos microscópicos crescem, levantam pavimentos e derrubam casas. Ouvimos os pavimentos a racharem e os sons dos edifícios - esses artefactos humanos são inevitavelmente ruidosos -, mas o próprio fungo cresce silenciosamente. Talvez sejamos sábios para recearmos o silêncio - é o terror que causa a destruição na maré do meio-dia.


in O Livro do Silêncio de Sara Maitland (Estrela Polar, 2011)

Diário, parte vinte e oito

Figueira da Foz.


Lembro-me de um período no final da adolescência, em que o meu espírito se embriagava com imagens de aventuras. É assim que vai ser quando eu crescer. Vou ali, faço isto, descubro aquilo, amo esta, e depois esta e esta e esta. Vou viver como vivem ou viveram as pessoas dos romances. Eu não sabia bem quais, só que a paixão e o perigo, o êxtase e o desespero (sobretudo o êxtase) estariam ao meu serviço. Porém... quem disse aquilo sobre «a pequenez da vida que arte exagera.»? Houve um momento, quando tinha vinte e muitos anos, em que reconheci que o meu espírito de aventura se extinguira há muito. Nunca faria aquelas coisas que a adolescência sonharia. Em vez disso aparava a relva, ia de férias, tinha a minha vida.
Mas o tempo... o tempo primeiro fixa-nos e depois confunde-nos. Pensávamos que estávamos a ser adultos quando estávamos a ser só prudentes. Imaginávamos que estávamos a ser responsáveis, mas estávamos só a ser cobardes. Aquilo a que chamávamos realismo acabava por ser uma maneira de evitar as coisas e não de as enfrentar. Tempo... deem-nos tempo suficiente e as nossas decisões mais fundamentadas parecerão instáveis e as nossas certezas, bizarras.


in O Sentido do Fim de Julian Barnes (Quetzal, 2011)

Diário, parte vinte e sete




This is a story of a guy who had a dream and that’s alright,
Don’t feel sorry, sorry this time again
He didn’t reach the 29 but he tried seven or eighty times
I would go there, go there and fight with him

Da vida na aldeia, parte sessenta e quatro

Figueira da Foz.

Da Sétima Arte, parte seis

The Crown - Peter Morgan, 2016.


Depois de House of Cards e The Walking Dead, talvez a melhor série que tenho acompanhado.

Diário, parte vinte e seis





Figueira da Foz.


Deste ano que termina, das palavras que, por enquanto, teimam em não despontar, somente relembro a música Enjoy the Silence dos Depeche Mode:

All I ever wanted
All I ever needed
Is here is my arms

Da vida na aldeia, parte sessenta e três

Vila Nova de Foz Côa.


Há algo de mágico e sobrenatural na paisagem dos montes, que enfeitiça a mente e os sentidos. Esquecemo-nos de tudo, esquecemo-nos do nosso próprio ser, deixamos de saber onde estamos.


in La Nouvelle Héloïse de Jean-Jacques Rosseau.