Da vida na aldeia, parte trinta e dois

Vila Nova de Famalicão, Janeiro de 2017.

Todas as árvores caminham sobre o Tempo, sobre a passagem das estações, porque nenhum outro movimento lhes resta. Existem, simplesmente, dividindo-se entre o corpo visível que se estende à luz e o corpo inferior que vive de forma encoberta.
Os seus frutos, contudo, são esperanças perdidas, Verão após Verão. Imagens do desejo de poder ser mais do que braços a estender-se ao céu, ao vento, à impiedade dos pássaros. Da vontade que todo o corpo, o poderoso corpo, pudesse sair da terra, com duas pernas móveis, e a fizesse estremecer de medo quando uma delas voltasse a pousar na superfície.
«Toma os meus frutos, com os meus filhos dentro, que são eu, na forma primitiva, e faz de mim um ser que corre», pedem as árvores aos deuses, na sua súplica.
Mas estes ficam calados no silêncio compadecido que os deuses guardam para os homens e árvores. O calar forçado de quem sabe que a cada um de nós cabe apenas o seu destino. Os deuses apenas passam a mão sobre os grandes corpos vegetais, enviando-lhes a chuva manda que os dessedenta e reconforta.
Sob o chão húmido de cada árvore vivem milhares de sementes que nunca subirão à superfície. Guardam-se em potência para um tempo que talvez possa chegar. Para os dias em que todas as coisas poderão nascer e prosperar lado a lado, quais irmãs. O momento em que sobre a Terra viverão apenas as plantas do mundo.
E, então, do Espaço que nunca atingirão, será possível ver apenas as águas e uma mancha imensa, verde e acolchoada.

A terra de todas as árvores.


in Eu sou a Árvore de Possidónio Cachapa (Companhia das Letras, 2016).

Da vida na aldeia, parte trinta e um

© Pedro Marques - Serra da Estrela, Dezembro de 2016.


Do direito à privacidade. Do direito à valorização do que existe e permanece. Do direito a viver de nós, para nós.

Da literatura, parte onze

Não foi difícil para ele aprender a lutar ferindo e dilacerando o adversário em sucessivas arremetidas rápidas de lobo. Era assim que tinham lutado os seus antepassados esquecidos. E estes despertavam a sua vida antiga dentro dele, e os velhos ardis que os antepassados tinham inscrito na hereditariedade da espécie eram os seus próprios ardis, tinham-no sido sempre. E quando, nas noites frias e silenciosas, levantava o focinho na direcção das estrelas e uivava demoradamente à maneira dos lobos, eram os seus próprios antepassados, mortos e reduzidos a pó, que levantavam o focinho na direcção das estrelas e uivavam através de séculos no seu uivo. E as suas cadências eram as deles, essas cadências que exprimiam a sua dor e o que para eles significavam o silêncio, o frio e a treva.

in O Apelo da Floresta de Jack London (Relógio D'Água, 2009).

Da literatura, parte dez


O Apelo da Floresta - Jack London (Relógio D'Água, 2009).


Este livro conta a história de Buck, descendente de um cruzamento entre um cão São Bernardo e uma cadela Collie. Imponente, vive uma vida confortável, subjugado a uma família rica. No entanto, é após o seu inesperado rapto que, vendido a "caçadores de ouro" das montanhas do Canadá, se irá ver obrigado a trabalhar como cão de trenó. Longe do seu mundo, longe do aconchego das pessoas civilizadas e da educação que outrora experimentou, Buck irá recorrer às suas mais profundas forças para conseguir viver no frio inóspito do Árctico. Aqui irá testemunhar o pior e o melhor dos outros, tanto os seus semelhantes como os Homens. Uma força da natureza que me transmitiu, de forma intensa, tanto desespero como determinação. Um apelo à verdade.

Porque, para mim, o poder da Literatura reside, em parte, na hipótese de conseguir, enquanto arte, mudar a vida das pessoas ou, pelo menos, alterar pequenas nuances da mesma. A Literatura, com "L" maiúsculo, não se resume ao entretenimento, amplifica-se para além da reflexão e do conhecimento. O Apelo da Floresta de Jack London é um bom exemplo disso, podendo ser lido de forma literal ou como uma alegoria que descreve aquilo que somos, enquanto seres humanos. Um pequeno livro que, para os olhares de incompreensão e horror, podia servir de guia justificativo no que concerne à obra de arte que tenho tatuada na pele. Porque longe, somos todos animais selvagens. Porque aqui, cá dentro, há um lobo em mim.

Diário, parte seis

- Sabe menina, sabe?! Se não sabe eu digo-lhe. Depois do cancro, depois de matar aquele bicho maldito, passei a ver não com os olhos... mas com o coração.

Da literatura, parte nove


O Mistério da Estrada de Sintra - Eça de Queirós e Ramalho Ortigão (Livros do Brasil, 2016)


Sendo considerada a primeira obra do género policial da literatura portuguesa, O Mistério da Estrada de Sintra foi escrito a duas mãos, por Eça de Queirós e pelo seu melhor amigo, Ramalho Ortigão. Tendo como pano de fundo a Serra de Sintra, duas personagens sem nome atribuído, um médico e um escritor, são raptados por um grupo de mascarados e levados para um apartamento onde descobrem um cadáver, vítima de um assassinato. O mistério acerca do corpo e dos acontecimentos por detrás de tamanha tragédia serão os pontos de partida desta intriga. De uma ampla originalidade para a época, a história é contada através das versões dos vários intervenientes da acção que, aos poucos, irão encaminhar o leitor para a resolução desta incógnita. Diferente de toda a obra conhecida de Eça, O Mistério da Estrada de Sintra, ainda que considerada por muitos críticos como o seu livro menor, é deveras fascinante e viciante. Um excelente ponto de partida para a descoberta de um dos melhores escritores portugueses de sempre.

Da literatura, parte oito






Contos de cães e maus lobos - Valter Hugo Mãe (Porto Editora, 2015)


Claro que teria de apressar-se. Todas as pessoas se apressam quando vão ao encontro da perfeição.

Da vida na aldeia, parte trinta

Vila Nova de Famalicão, Março de 2017.

Da vida na aldeia, parte vinte e nove

Vila Nova de Famalicão, Março de 2017.

Da literatura, parte sete

O Monte dos Vendavais - Emily Brönte (Relógio D'Água, 2016)


Cumprindo com o acordado, não comprar livros até folhear os oitenta e muitos exemplares por ler, há que retornar aos clássicos. Afinal, são estes, que completam a maior parte do espaço nas minhas estantes. A escolha não foi difícil, até porque a ânsia de retornar aos romances da época vitoriana era muita. Nesta minha descrença em ler escritoras femininas, são talvez as inglesas vividas naquele tempo que me incitam um maior prazer.
O Monte dos Vendavais de Emily Brönte, é uma obra fascinante. Passado nos últimos anos do século XVII, princípios do século XVIII, a narrativa desdobra-se no meio rural, num lugar remoto afastado da civilização. Com uma cativante e delicada escrita, contada através das memórias de uma governanta, a obra assenta na história de duas famílias que, após a vinda de um membro externo às mesmas, irão ver-se envolvidas numa perseguição doentia de vingança. Repleto de descrições ao bom tom do realismo, com personagens bem construídas e um equilíbrio atroz no que respeita à descoberta, passo a passo, do mistério que envolve a trama, este livro está ao mais alto nível da Literatura.

(Do desconsolo que é saber que a jovem Emily, infelizmente, não teve tempo de escrever mais nenhum livro.)

Da vida na aldeia, parte vinte e oito



© Pedro Marques - Póvoa de Varzim, Março de 2017.

Da vida na aldeia, parte vinte e sete





Póvoa de Varzim, Março de 2017.


Sempre considerei a fotografia um acto solitário. Na verdade, durante muito tempo, rumei montanha acima sem companhia, somente eu e a minha câmara fotográfica. Foi aí, longe da multidão, que assinalei o meu amor pela fotografia, foi aí, entre o silêncio, que percebi qual o meu lugar neste mundo tão denso da arte. Foi necessário atravessar este caminho para me reencontrar e descobrir que, para captar imagens providas de vida, é essencial estar em comunhão com a natureza. Aprendi muito, desaprendi na mesma dose. Dei passos à frente, alguns atrás. Mas cheguei lá. Aqui.
Hoje, ainda que fotografar seja um acto de reflexão, muitas vezes reservado, é também um exercício de partilha e generosidade. E, tal como todos os bons sentimentos e acções, é obrigatório o companheirismo.


Fotografias da autoria de ___keepdreaming___. Com Pedro Marques e Jacinto Rodrigues.

Da vida na aldeia, parte vinte e seis

Vila Nova de Famalicão, Março de 2017.

Da vida na aldeia, parte vinte e cinco

Ilha de São Miguel, Açores - Julho de 2016. 

Da vida na aldeia, parte vinte e quatro

Reserva da Faia Brava, Março de 2017.

Da vida na aldeia, parte vinte e três

Vila Nova de Famalicão, Março de 2017.

Diário, parte cinco

Ainda me espanta, sem precedentes, ouvir alguém afirmar que não gosta de ler, que os livros não têm grande utilidade e que, numa sociedade de informação e comunicação tecnológicas, a Literatura é uma arte do passado. Infelizmente, e com grande pesar, como leitora compulsiva e vivendo pessoal e profissionalmente lado a lado com os livros, escuto esta premissa mais vezes do que gostaria. Oiço e assinto porque, na realidade, há verdades absolutas que desisti defender. Creio nas mesmas, levo-as a peito e pratico-as, para além disso, não me é essencial gastar latim a contrariar pensamentos alheios. Lamento, apenas e só.
Lastimo que a Literatura não seja uma arte acessível a todos, que não permita despertar amor, tal como a música, o cinema ou mesmo a fotografia. Para mim, mais do que estas últimas, a Literatura tem estado sempre presente. Sem qualquer tipo de incentivo ou estimulo, dei por mim a caminhar sempre com um livro debaixo do braço, sempre. Foi graças a esta arte tão nobre que desenvolvi determinadas capacidades ao nível da linguagem oral, escrita ou mesmo no que respeita à criação criativa. Primeiro com obras menores, depois com refinamento e cuidado na escolha das obras a folhear. Sublinho, ainda me admiro quando ditam que ler é perda de tempo. Angustia-me até, que nesta nossa curta passagem, haja quem nunca terá o prazer de experimentar Lev Tolstói, Valter Hugo Mãe, Knut Hamsun, Eça de Queiroz, Fiódor Dostoiévski, dentre tantos, tantos outros. Compadeço-me, até, que actualmente debruçada nas páginas do brilhante O Monte dos Vendavais de Emily Brönte exista quem, sem fundamentos possíveis, possa declarar que a Literatura é uma arte menor.

Da vida na aldeia, parte vinte e dois



Vila Nova de Famalicão, Março de 2017.

Sometimes there's so much beauty in the world, I feel like I can't take it, and my heart is just going to cave in.

American Beauty - Sam Mendes, 1999.

Da vida na aldeia, parte vinte e um

Março de 2017.