Da vida na aldeia, parte sessenta

Cabo Espichel.


A grande importância que a pintura e, em certa medida, a fotografia tiveram para mim tem qualquer coisa que ver com isto. Não continham palavras, nem conceitos, e quando as via, aquilo que experimentava, aquilo que as tornava tão importantes, era também não-conceptual. Era um domínio em que havia qualquer coisa de estúpido, um domínio completamente alheio à inteligência, que eu tinha dificuldade em reconhecer ou aceitar, mas talvez contivesse o elemento mais importante daquilo que eu queria fazer.


in Um Homem Apaixonado de Karl Ove Knausgård (Relógio D'Água, 2015)

Diário, parte vinte e um

Ainda sobre o silêncio e sobre estas noites que antecipam o Outono. Sobre a quietude, depois do jantar, de nos aninharmos um no outro e de nos deixarmos ficar apenas assim, entre as mantas e o conforto dos nossos corpos. Sobre este hábito tão agradável de desligarmos a televisão e, no sossego, cada um pegar no seu livro e caminharmos em dois mundos paralelos que se tocam. Ele, em Nápoles, na Itália, ao ritmo de Elena Ferrante, eu perdida nas ruas de Estocolmo, na Suécia, embalada nas descrições de Karl Ove Knausgård. E ficamos assim, ali, até o sono bater à porta e pedir licença para se instalar. Dispomos ambos os livros na cabeceira e divagamos sobre o que lemos, sobre o que é para nós a Literatura e sobre o espaço que ela ocupa nas nossas vidas. E as palavras sobrepõem-se e o entusiasmo obriga a manifestações exacerbadas sobre a arte da escrita.  E é assim, dia após dia, mesmo quando os olhos se fecham sem tempo para desejar boa noite. Adormecemos profundamente com a certeza do que é o amor.

Diário, parte vinte

Acontece-me repetidamente, tenho diversas ideias para textos ao longo do dia que, passados poucos minutos, se esfumam tal e qual como vieram. Até há algum tempo atrás, tinha como hábito regular trazer sempre comigo um pequeno bloco de notas onde apontava tudo o que me vinha à cabeça, foi depois que tive a péssima ideia de o abandonar, de o deixar à sua sorte pousado entre as dezenas e dezenas de livros que tenho amontoados em cima da secretária no escritório e, foi aí, que todas as palavras se começaram a perder. Num desses textos desamparados numa página outrora em branco, há palavras e descrições sobre o silêncio. Divagações e descrições de algo que, cada vez mais, me preenche: a ausência de som. Depois, numa noite em que passava os olhos por um texto do norueguês Karl Ove Knausgård, deslumbrei-me e as minhas palavras, por aí largadas, já não tinham importância. Aqui, o silêncio, é isso, o nada. O tudo. 


Nada é o que não existe, que não é nada, mas se o escrevermos ou dizemos, existe e é alguma coisa: nada. Silêncio é uma palavra dessas, indica a ausência de som, e não é nada em si. Contudo, raramente vamos até à extrema consequência dessa palavra, mas em vez disso usamo-la para graduar o som, e relacionamo-la com o sossego e o descanso - que paz e que silêncio aqui, dizemos quando chegamos ao campo e o barulho do tráfego desapareceu, ou quando nos sentamos no bosque e todo o ruído da incessante actividade das pessoas está ausente. Tudo o que ouvimos então é o canto dos pássaros e o agitar das árvores pelo vento, a que chamamos silêncio dos bosques. Acontece ser um dia de inverno sem vento, nem isso se ouve. Esse silêncio mexe com a paisagem, e através dela, connosco. Todos os sons são ligados ao momento, pertencem ao presente, àquilo que muda, mas o silêncio está ligado à imutabilidade, em que não existe tempo. É a eternidade, mas também o nada, que são duas faces da mesma coisa. O que significa isto, compreendi-o num vislumbre que tive uma vez quando vi o filme Shoa, sobre o extermínio dos judeus, e um funcionário dos caminhos de ferro contava como numa tarde a estação se enchera de carruagens que tinha dentro judeus deportados, crianças, adultos, velhos, e toda a área ecoava os sons deles nessa tarde. Que tipo de sons ele não disse, mas suponho que deveria ter sido choro de crianças, vozes de mulheres e de homens, passos, gritos, tilintar de pratos, talvez até gargalhadas. Quando voltou cedo na manhã seguinte para o trabalho, as carruagens continuavam lá, mas agora estava tudo em silêncio. Não se ouvia um som. Foi quando ouvi falar desse silêncio que, pela primeira vez, compreendi em que consistiu o Holocausto, num reconhecimento que durou segundos, antes de desaparecer novamente. Muito da vida diz respeito ao som, do barulho dos pés de criança a correr no soalho e dos seus choros e gritos de alegria, até ao som da sua respiração compassada quando dormem. Mas a literatura sobre a vida está mais ligada ao nada e ao inanimado, à noite e ao silêncio, do que normalmente pensamos. As letras não são senão sinais mortos. Nenhum som saiu deste texto enquanto o leste.


in No Outono de Karl Ove Knausgård (Relógio D'Água, 2016)

Da literatura, parte vinte e cinco

Se uma pessoa já viveu muitos anos, a porta é uma evidência. A casa é uma evidência, o jardim é uma evidência, o céu e o mar são evidências, a própria lua, que se suspende sobre os telhados e os ilumina de noite, é uma evidência.
O mundo fala por si próprio, mas não o escutamos, e como já não estamos profundamente nele e o sentimos como uma parte de nós mesmos, é como se ele desaparecesse. Abrimos a porta, mas nada significa, não é nada, é apenas uma coisa que fazemos para passar de um quarto para o outro.
Quero mostrar-te o nosso mundo, tal como ele é agora: a porta, o chão, a torneira e a pia, a cadeira de jardim junto à parede, debaixo da janela da cozinha, o sol, a água, as árvores. Tu irás vê-lo da tua própria maneira, virás a ter as tuas próprias experiências, e a viver a tua própria vida, portanto é evidente que acima de tudo é por minha causa que o faço: mostrar-te o mundo, faz a minha vida digna de ser vivida.


in No Outono de Karl Ove Knausgård (Relógio D'Água, 2016)

Diário, parte dezanove

Um dia, tenho esperança de viver numa sociedade que entenda na perfeição quais as consequências de copiar palavras e fotografias alheias sem indicar os devidos créditos. Tenho, até, alguma expectativa que consigam alcançar que plágio é um acto grave e indecente. Um dia, talvez, essas mesmas pessoas irão compreender que uma cópia é apenas isso, uma cópia. Uma imagem do original que, ainda se conseguindo assemelhar ao mesmo, nunca o irá substituir. Um dia, talvez amanhã, a vida se revele em todo o seu esplendor e a originalidade se transmita como uma doença contagiosa e ocupe um lugar exclusivo em cada um de nós. Porque para tudo há que existir um conceito, no singular. 


A identidade é ser um, e não outro.


in No Outono de Karl Ove Knausgård (Relógio D'Água, 2016)

Da literatura, parte vinte e quatro

No domingo passado fomos à praia, que fica a uma milha daqui, estava um daqueles dias de outono em que o verão se tinha prolongado e invadido tudo de calor e serenidade, ao mesmo tempo que há muitos turistas tinham regressado a casa e a praia estava deserta. Levei as crianças comigo a dar um passeio no bosque, que vem até à orla da praia e que consiste principalmente em árvores de folha caduca, misturadas com um ou outro pinheiro de tronco avermelhado. O ar estava calmo e quente e, no céu de um azul um pouco escuro, o sol declinava pesado de luz. Seguimos por um caminho para o interior, e ali no meio do bosque, estava uma macieira carregada de maçãs. As crianças ficaram tão admiradas como eu, as macieiras são árvores que crescem nos jardins e não em estado selvagem no meio dos bosques. Podemos comê-las, perguntaram elas. Respondi que sim, sirvam-se. Num relance, tão cheio de alegria como de pesar, compreendi o que era a liberdade.


in No Outono de Karl Ove Knausgård (Relógio D'Água, 2016)


A saborear cada frase de mais um magnifico livro do autor norueguês. Desta beleza que reside na simplicidade das palavras.

Da vida na aldeia, parte cinquenta e nove

Cabo Espichel.

Da vida na aldeia, parte cinquenta e sete

Reserva da Faia Brava.


Belos Cavalos é também o produto de uma criação diferida: é o livro que Hemingway teria escrito se tivesse vivido o tempo suficiente para se transformar em Cormac McCarthy e que, felizmente, para nós, Cormac McCarthy escreveu por ele.


in prefácio de Belos Cavalos de Cormac McCarthy (Relógio D'Água, 2010)

Da vida na aldeia, parte cinquenta e seis

Serra da Lousã.

Diário, parte dezoito

Serra da Lousã.


A casa dos meus pais, numa zona rural de Coimbra, tem vista directa para a Serra da Lousã. Não quero exagerar mas é, sem dúvida, uma das vistas mais incríveis da região. Ainda de madrugada, à primeira luz da manhã, é possível assistir ao despertar da montanha, devagarinho, por entre a bruma que, praticamente todos os dias, revela a grandiosidade daquela que abriga as maravilhosas Aldeias de Xisto. Nasci e cresci com a Lousã no horizonte. Não é de estranhar, portanto, o amor que tenho àqueles montes que já percorri tantas e tantas vezes. Hoje, num trajecto que até à data me era desconhecido, foi dia de calcorrear alguns trilhos de mochila às costas. Ali, sozinha, ainda que frustrada a nível fotográfico, consegui respirar o verdadeiro ar puro e constatar que os tons quentes já desabrocham dentre o verde. Que o Outono venha e permaneça, ele e a sua luz dourada.

Da vida na aldeia, parte cinquenta e cinco

Arrábida.

Da vida na aldeia, parte cinquenta e quatro

Cabo Carvoeiro.


O desejo da luz produz luz.
É realmente a luz que se deseja
quando qualquer outro móbil está ausente.
Embora os esforços de atenção
fossem durante anos aparentemente estéreis,
um dia, uma luz exactamente proporcional
a esses esforços
inundará a alma.
Cada esforço acrescentará um pouco mais de ouro
a um tesouro que nada no mundo pode roubar.

Simone Weil 

Diário, parte dezassete

Daqueles textos que, no fundo do baú, agora fazem tanto sentido. Porque hoje é mais um dia que amanheceu cinzento. 

Li A Morte de Ivan Llitch, de Lev Tolstói, com o pensamento preso no meu bisavô paterno. José Maria chamava-se ele, Zé Maria para a família, Zé Maria Botão para os conhecidos da rua. Vivia numa pequena casa de pedra virada para a destruída torre de defesa do tempo dos mouros. Era uma casa simples. As telhas começavam a soltar-se e a cor laranja tinha dado, há muito tempo, lugar ao verde. O soalho velho e podre rangia constantemente e a cal da parede começava a soltar-se. Os móveis eram quase inexistentes e o conforto era pouco ou nenhum. Foi aqui que passei a maior parte da minha infância, até aos 8 anos. Até então, vivia com os meus avós paternos e com os meus pais numa casa ao lado desta mesma e, por isso, cresci lado a lado com o meu bisavô Zé Maria, avô como eu lhe chamava, e chamo. Foi um homem sofrido, como tantos do seu tempo. Eram tempos difíceis aqueles, dizia ele. Não tinha família e por isso se tornou um aventureiro, um lutador. Apaixonou-se cedo e casou-se cedo. Chamava-se Palmira a minha bisavó. Não a conheci. Morreu de cancro uns anos antes de eu nascer. A minha avó ainda hoje me fala nela e por isso lembro-me da minha bisavó Palmira como se realmente a tivesse conhecido, como se realmente estivesse presente naquele dia de Verão em que ela morreu nos braços da minha avó, sua filha. As lembranças, para lá da vida material do meu avô, são poucas. Lembro-me dos seus enormes olhos azuis, do seu cabelo escasso e totalmente branco, da sua bengala, dos seus abraços calorosos, da sua roupa de agricultor, das histórias típicas de velho nostálgico, do seu mau feitio antes da hora do almoço. Lembro-me daquelas tardes primaveris em que o padre da freguesia visitava o meu avô e passavam horas e horas à conversa. O padre dizia que o meu avô era santo, que nunca tinha conhecido ninguém com um coração tão puro e tão devoto a Deus como ele. Eu acreditava. Ainda hoje acredito. Foi por volta desta altura que descobri o amor. O amor sincero que o meu avô me demonstrava. Ele era o único, para além da minha avó, que me dizia exactamente aquilo que sentia, sem filtros. Não tinha medo de me dizer que eu era a sua favorita, que tinha a certeza que eu iria ter um futuro brilhante pela frente. Dizia-me, eu escutava e acreditava. Depois veio aquela doença horrível, não sei como, não me recordo. Devia ter uns 10 anos. Não sei que doença foi. Diziam que era a doença da velhice. Comecei a notar que algo estava errado quando via o meu avô sentado e quieto à janela, sem fazer qualquer movimento para sair de casa. Ainda hoje recordo a imagem dele naquela pequena janela azul. O isolamento foi notável. Andava pouco, comia na mesma quantidade. Da cadeira ao lado da janela passou para a cama. Só saiu de lá passados quase 3 anos. A doença foi lenta, dolorosa. Lia o sofrimento naqueles enormes olhos azuis e não compreendia. Ainda hoje não compreendo. Numa tarde de inverno, estava eu à lareira com a minha avó e com os meus restantes primos quando decidi fazer umas pequenas cartas de despedida. Cada um fez um desenho e escreveu as palavras que sentia. Fomos todos ao quarto do meu avô e lemos as ditas cartas. Ele já não falava, já não tinha movimentos voluntários. Mas chorou. Chorou como eu já não o via chorar há muito tempo. No outro dia, já instalada há vários anos na actual casa dos meus pais, quando cheguei da escola encontrei um vazio. Pensei em ligar à minha avô mas esperei. Sentei-me na minha cama e chorei. Chorei. O meu avô tinha morrido. Tinha eu então 13 anos. Sofri. Ainda hoje sofro. É como se não se tivessem passado quase 18 anos. Para mim o meu avô morreu ontem. Hoje. E continua aqui, tão vivo.

Da vida na aldeia, parte cinquenta e três

Parque Natural da Arrábida.

Diário, parte quinze

8h00, Portugal. 9h00, Noruega. Quando me encaminho para sair de casa, em direcção a mais um dia de trabalho, os meus pais ligam-me de Honningsvåg, uma pequena localidade no norte do país dos Vikings onde durante o solstício de Verão o sol é rei durante 24h diárias. Pelo entusiasmo das suas vozes, reconheço que a tour que fazem pela costa do país nórdico, em direcção ao Pólo Norte, se está a revelar inesquecível e única, ainda que, ao longo dos últimos anos, tenham viajado em boa dose. Prometem-me descrições detalhadas e bons enquadramentos fotográficos. Sorrio por dentro e respiro fundo: não é por acaso que o mesmo sangue me corre nas veias.

Da vida na aldeia, parte cinquenta e um



Lousã. 


Dos dias chuvosos na aldeia.

Diário, parte catorze

Aflige-me ver, na praia, a maioria das pessoas com imprensa cor-de-rosa nas mãos. Aflige-me, esta é a palavra. Porque, afinal, o problema não reside no facto de não gostarem de ler, da leitura ser algo que não serve para preencher o ócio. Aflige-me, enquanto leitora ávida, desesperar pelo tempo que teima em não se prolongar de forma a conseguir ler tudo o que pretendo e observar quem consiga, da forma mais bizarra possível, desperdiçar os seus minutos em torno de algo que não acrescenta nada.