Diário, parte doze




Pausa:

Substantivo feminino.

- Breve interrupção.
- Descanso, intervalo.
- Tardança, lentidão, vagar.
- Intervalo de ausência de som.
- Símbolo que indica essa ausência de som.

Diário, parte onze


Talasnal, Lousã.


Tive uma infância feliz. Não, não o escrevo só porque sim, porque é cliché tamanha afirmação ou porque é poético o som das palavras. Tive mesmo muita sorte, tive uma infância extremamente feliz. Cresci num meio pequeno onde fui criada pelos meus avós paternos. Ainda que fosse uma criança muito calma e serena e gostasse realmente de brincar sozinha, também fui afortunada no que respeita a estar rodeada por outras crianças da minha idade. Naquela época, contrariamente ao que se verifica agora, a minha pequena localidade fervilhava de crianças. Os anos oitenta foram ricos em muita coisa, até na natalidade da zona. E por ali andávamos, soltos, em grupos maiores ou mais pequenos, a brincar nos quintais dos nossos avós ou na rua, livres. Não havia distinção, um fato-treino barato e umas sapatilhas já bastante esmurradas bastavam para correr até nos cansarmos. Tudo nos servia para brincar, tudo. Desde os desenhos animados que passavam na televisão e que eram o mote perfeito para imitações durante horas até aos ovos que a minha avó dispensava do galinheiro e que eram a matéria-prima para montarmos uma pequena banca na rua, tal e qual uma mercearia. Só muito mais tarde, faltava talvez um ano para ingressar na escola primária, a população decidiu fundar os tempos-livres no Centro Cultural da nossa aldeia. Não havia creche, pré-primária ou o que lhe chamam agora, era os tempos-livres, apenas. Era ali que aqueles que outrora brincavam sem pressa na calçada, se reuniam em volta dos livros, das primeiras letras, dos números, dos recortes direitinhos e sem farpas, dos desenhos e pinturas sem sair para fora do risco. Na altura, sem pensarmos em grande coisa, éramos felizes, mesmo com pouco. A maior parte dos pais, incluindo os meus, não eram pessoas de grandes posses. Se uns se limitavam a ganhar o pouco que lhes calhava, outros, como o meu próprio pai, tentavam singrar em negócios próprios que só com o tempo dariam frutos. Ninguém viajava para o estrangeiro nem havia, ainda, a moda de ir para as praias do Algarve. Alguns não sabiam, sequer, o que era férias. Os que o sabiam era debaixo de um chapéu de sol na praia de Buarcos, na Figueira da Foz. Já eu, que tenho milhares e milhares de memórias destes tempos tão bons, recordo com imenso carinho as formigas que o meu pai tinha nos pés sempre que chegava o fim-de-semana ou as férias. Se a maior parte dos pais dos meus amigos se limitavam a vegetar em casa ou a demonstrarem a sua faceta de agricultores nas terras herdadas, o meu pai queria era passeio, nem que fosse ir à Figueira da Foz comer umas pevides sentado no muro do Cabo Mondego a ver o mar. Primeiro era a sua paixão pela arquitectura, queria ver as novas linhas, os novos traços, sempre com a máquina fotográfica em punho, ainda que a sua falta de jeito para a fotografia, já na altura, fosse visível. Nos primórdios com a velhinha Canon, mais tarde com uma Nikon à maneira. Fotografava tudo e todos, ainda hoje é assim nas grandes viagens que faz à volta do mundo, em mil fotografias é possível apreciar o espaço envolvente numa única. Foi assim que conheci grande parte do Centro e Norte de Portugal e, por entre tantas gavetas de memórias, foi naquela época que me apaixonei perdidamente pela zona da Serra da Estrela e por tudo o que envolve o Parque Nacional da Peneda-Gerês. Porque se o meu pai amava o betão, também se rendia, tal como a minha mãe, à natureza. Dentre tantos passeios e maravilhas que vi neste país, nunca vou conseguir esquecer aquela escapadinha, ao género de road-trip, que fizemos a Chaves numa estação tão chuvosa, devia eu ter uns oito anos. De Vidago decidimos, eu, os meus pais e um grupo de amigos e familiares, nos embrenhar na Serra do Gerês. Foram três ou quatro dias em que nem o frio nem a chuva incomodava, o verde bastava. Por ali, perdidos, sem tempo, recordo o meu espanto ao deparar-me com a imponência do boi de Trás-os-Montes. Hoje, ainda que nada volte a ser como era, ainda que a inocência dos olhos não seja a mesma, os lugares, esses, ainda que com mudanças ao nível da arquitectura e da massa populacional, continuam iguais.

Agora já é moda ir para o Algarve, felizmente existem oportunidades para viajar e até apetece andar de avião mas o bichinho da pacatez permanece. Os dias mais frescos, a seu tempo, trarão os céus por debaixo dos pés, para já, é hora de colocar a mochila às costas e respirar.

Da Sétima Arte, parte três


A força de uma fotografia consiste em conservar disponíveis instantes que o fluxo normal do tempo imediatamente substitui. Este congelamento do tempo - a insolente comovedora estase de cada fotografia - produziu cânones de beleza novos e mais abrangentes. Mas as verdades que podem ser reportadas a um momento isolado, por mais significativas ou decisivas, têm uma relação muito limitada com as exigências da compreensão. Contrariamente ao que sugerem os argumentos humanistas a favor da fotografia, a capacidade da câmara para transformar a realidade em beleza deriva da sua relativa insuficiência como meio para veicular a verdade.


in Ensaios sobre Fotografia de Susan Sontag (Quetzal, 2012). 

Diário, parte dez

É tempo de sal no cabelo e maresia no corpo. É tempo de sentir a areia nos pés. É tempo de caminhar, montanha acima, de câmara fotográfica em punho. É hora dos despertares madrugadores, dos pequenos-almoços recheados e dos jantares vagarosos que trazem o sono tardiamente. É isso. É tempo, é hora. São horas sem tempo. É simplesmente ir na aventura e planear as tantas outras que se avizinham, já com o Outono, daqui a pouco, aí à porta. Para já, e porque descanso é palavra de ordem, é obrigatório viver o Verão, e o amor, sem pressas.


Da Literatura, parte vinte e três

Tenho lido muito, tenho lido bastante, até. No entanto, tenho folheado obras completamente diferentes do habitual para alguém que, na sua maioria, opta pelos clássicos ou por livros fora da esfera das massas. Dado o elevado grau de trabalho dos últimos meses, o meu poder de concentração ressentiu-se e, por alguma influência externa, acabei por dar hipótese a uma série de policiais que me têm preenchido as horas de ócio. Primeiro a Camilla Läckberg, depois, e actualmente, a saga Millenium do autor, também ele de nacionalidade sueca, Stieg Larsson. A primeira, de uma simplicidade atroz, entretém, apenas. Não que isso seja uma catalogação depreciativa, não, até porque devorei dois dos seus primeiros livros em meia dúzia de dias. São, na verdade, um bom substituo às séries pelas quais vou passando os olhos no Netflix. Por outro lado, Stieg Larsson faz juz a todas as críticas positivas que ouvi e li. A trilogia que conta a história de Lisbeth Salender é acima da média de qualquer outro policial que alguma vez tenha lido. É uma série bem construída, com uma linguagem cuidada e com um enredo que ultrapassa, em muito, algumas teorias da conspiração. No entanto, já em fase de desespero para terminar o último livro, começo a sentir a ressaca dos meus livros. De facto, se há algo que os policiais me demonstraram é que necessito, com urgência, retornar aos clássicos.

Da vida na aldeia, parte quarenta e nove

Terceira, Açores.


Dos dias, tão bons, de mochila às costas.

Da Sétima Arte, parte dois

Happy People: A Year in the Taiga - Werner Herzog e Dmitry Vasyukov, 2010.



Para todos os naturalistas, para todos aqueles que acreditam que a filosofia de Henry David Thoreau, na realidade, tem uma base sustentável. Para esses, este documentário, com urgência, por favor. Da Sibéria, com amor.

Da vida na aldeia, parte quarenta e oito

Figueira da Foz.

Da Literatura, parte vinte e dois

Chegara àquela idade em que lhe ocorria, com crescente intensidade, uma pergunta de uma simplicidade tão avassaladora que não tinha como a enfrentar. Dava por si a perguntar-se se a sua vida valeria a pena, se alguma vez valera a pena. Era uma pergunta, desconfiava ele, que assolava todos os homens a dada altura; perguntou se os assolaria com uma força tão impessoal como o assolava a ele. A pergunta acarretava uma tristeza, mas era uma tristeza geral que (pensava ele) pouco tinha que ver consigo ou com o seu destino em particular. Nem sequer tinha a certeza se a pergunta surgia das causas mais imediatas e óbvias, daquilo que a sua própria vida se tornara. Provinha, julgava ele, do acumular dos anos, da densidade de acidentes e circunstâncias, e do que aprendera sobre eles. Tirava um prazer cruel e irónico da possibilidade de o pouco que aprendera o ter levado a essa certeza: que, a longo prazo, todas as coisas, incluindo a aprendizagem que lhe permitia chegar aquela conclusão, eram fúteis e vazias e, por fim, reduziam-se a um nada que não conseguiam alterar.

in Stoner de John Williams (Dom Quixote, 2014)

Diário, parte nove

Porque não existe o feio e o bonito na arte que é a Literatura. Não existe, sequer, a alegria e a tristeza. Existe, apenas, a beleza. A beleza que, intrinsecamente, até na melancolia está presente. Cabe àqueles que escrevem, no seu ínfimo dom descritivo, realçar nos pequenos pormenores a harmonia da amargura. E é por isto que continuo a preferir os nórdicos. Gente rigorosa e desprovida de poesia. Gente que, até na sua rudeza, sublinha que em tudo existe encanto.

Da vida na aldeia, parte quarenta e sete

Costa Nova, Aveiro.


Silêncio:

substantivo masculino

- Estado de quem se abstém ou pára de falar.
- Cessação de som ou ruído.
- Interrupção de correspondência ou de comunicação.
- Omissão de uma explicação.
- Sossego, quietude, calma.
- Segredo, sigilo.


E aquele silêncio assombroso que se manifesta ao som de Benjamin Clementine?! É desse silêncio que falo.

Da literatura, parte vinte e um

«Nada é para mim doce sem ti.»
Milton era cego como o capitão marítimo, um poeta inglês que perdeu a visão na velhice. Compunha os seus poemas na escuridão e a filha escrevia-os por ele. Assim, abençoamos as mãos dela, mas esperamos que tivessem uma vida para além dos poemas, esperamos que fossem capazes de segurar algo mais quente e macio do que uma caneta esguia. Algumas palavras podem eventualmente mudar o mundo, podem confortar-nos e secar as nossas lágrimas. Algumas palavras são balas, outras são notas de um violino. Outras conseguem derreter o gelo em volta do coração, e até é possível enviar palavras como equipas de salvamento quando os dias são difíceis e talvez não estejamos nem vivos nem mortos. Contudo, as palavras não são suficientes e perdemo-nos e morremos nas charnecas da vida se não tivermos nada a que nos agarrar além de uma caneta.


in Paraíso e Inferno de Jón Kalman Stefánsson (Cavalo de Ferro, 2013)

Da vida na aldeia, parte quarenta e cinco

Porto, Junho de 2017.

Da literatura, parte vinte

(...) o Inferno é ter braços mas ninguém a quem abraçar. O ar tremeu como se algo grande tivesse sido rasgado, depois um som de algo a partir ouviu-se quando o sol caiu e aterrou na Terra. As pessoas estão vivas, têm os seus momentos, os seus beijos, risos, os seus abraços, palavras de encorajamento, as suas alegrias e tristezas, cada vida é um universo que então colapsa e não deixa nada para trás, expecto alguns objectos que adquirem um poder de atracção através da morte dos seus proprietários, tornam-se importantes, por vezes sagrados, como se pedaços da vida que nos deixou tivessem sido transferidos para a chávena de café, a serra, o pente, o cachecol. Mas tudo acaba por se desvanecer, as recordações desaparecem algum tempo depois e tudo morre. Onde havia outrora vida e luz, existe a escuridão e o esquecimento.


in Paraíso e Inferno de Jón Kalman Stefánsson (Cavalo de Ferro, 2013)

Da literatura, parte dezanove

A nossa existência é uma busca imparável por uma solução, pelo que nos conforta aquilo que nos traz felicidade, afasta todas as coisas más. Alguns percorrem uma estrada longa e sinuosa e talvez não encontrem absolutamente nada, excepto para algum tipo de objectivo, um género de libertação ou alívio na própria busca, os restantes admiram a sua tenacidade mas têm problemas suficientes ao simplesmente existirem, por isso tomam elixires que curam tudo em vez de procurarem, perguntando continuamente qual é o caminho mais curto para a felicidade, e encontram a resposta em Deus, na ciência, na aguardente, no exilir chinês.


in Paraíso e Inferno de Jón Kalman Stefánsson (Cavalo de Ferro, 2013).

Da vida na aldeia, parte quarenta e quatro



Porto, Junho de 2017.

Da vida na aldeia, parte quarenta e três

Vila Nova de Cerveira, Junho de 2017.