Diário, parte dez

É tempo de sal no cabelo e maresia no corpo. É tempo de sentir a areia nos pés. É tempo de caminhar, montanha acima, de câmara fotográfica em punho. É hora dos despertares madrugadores, dos pequenos-almoços recheados e dos jantares vagarosos que trazem o sono tardiamente. É isso. É tempo, é hora. São horas sem tempo. É simplesmente ir na aventura e planear as tantas outras que se avizinham, já com o Outono, daqui a pouco, aí à porta. Para já, e porque descanso é palavra de ordem, é obrigatório viver o Verão, e o amor, sem pressas.


Da Literatura, parte vinte e três

Tenho lido muito, tenho lido bastante, até. No entanto, tenho folheado obras completamente diferentes do habitual para alguém que, na sua maioria, opta pelos clássicos ou por livros fora da esfera das massas. Dado o elevado grau de trabalho dos últimos meses, o meu poder de concentração ressentiu-se e, por alguma influência externa, acabei por dar hipótese a uma série de policiais que me têm preenchido as horas de ócio. Primeiro a Camilla Läckberg, depois, e actualmente, a saga Millenium do autor, também ele de nacionalidade sueca, Stieg Larsson. A primeira, de uma simplicidade atroz, entretém, apenas. Não que isso seja uma catalogação depreciativa, não, até porque devorei dois dos seus primeiros livros em meia dúzia de dias. São, na verdade, um bom substituo às séries pelas quais vou passando os olhos no Netflix. Por outro lado, Stieg Larsson faz juz a todas as críticas positivas que ouvi e li. A trilogia que conta a história de Lisbeth Salender é acima da média de qualquer outro policial que alguma vez tenha lido. É uma série bem construída, com uma linguagem cuidada e com um enredo que ultrapassa, em muito, algumas teorias da conspiração. No entanto, já em fase de desespero para terminar o último livro, começo a sentir a ressaca dos meus livros. De facto, se há algo que os policiais me demonstraram é que necessito, com urgência, retornar aos clássicos.

Da vida na aldeia, parte quarenta e nove

Terceira, Açores.


Dos dias, tão bons, de mochila às costas.

Da Sétima Arte, parte dois

Happy People: A Year in the Taiga - Werner Herzog e Dmitry Vasyukov, 2010.



Para todos os naturalistas, para todos aqueles que acreditam que a filosofia de Henry David Thoreau, na realidade, tem uma base sustentável. Para esses, este documentário, com urgência, por favor. Da Sibéria, com amor.

Da vida na aldeia, parte quarenta e oito

Figueira da Foz.

Da Literatura, parte vinte e dois

Chegara àquela idade em que lhe ocorria, com crescente intensidade, uma pergunta de uma simplicidade tão avassaladora que não tinha como a enfrentar. Dava por si a perguntar-se se a sua vida valeria a pena, se alguma vez valera a pena. Era uma pergunta, desconfiava ele, que assolava todos os homens a dada altura; perguntou se os assolaria com uma força tão impessoal como o assolava a ele. A pergunta acarretava uma tristeza, mas era uma tristeza geral que (pensava ele) pouco tinha que ver consigo ou com o seu destino em particular. Nem sequer tinha a certeza se a pergunta surgia das causas mais imediatas e óbvias, daquilo que a sua própria vida se tornara. Provinha, julgava ele, do acumular dos anos, da densidade de acidentes e circunstâncias, e do que aprendera sobre eles. Tirava um prazer cruel e irónico da possibilidade de o pouco que aprendera o ter levado a essa certeza: que, a longo prazo, todas as coisas, incluindo a aprendizagem que lhe permitia chegar aquela conclusão, eram fúteis e vazias e, por fim, reduziam-se a um nada que não conseguiam alterar.

in Stoner de John Williams (Dom Quixote, 2014)

Diário, parte nove

Porque não existe o feio e o bonito na arte que é a Literatura. Não existe, sequer, a alegria e a tristeza. Existe, apenas, a beleza. A beleza que, intrinsecamente, até na melancolia está presente. Cabe àqueles que escrevem, no seu ínfimo dom descritivo, realçar nos pequenos pormenores a harmonia da amargura. E é por isto que continuo a preferir os nórdicos. Gente rigorosa e desprovida de poesia. Gente que, até na sua rudeza, sublinha que em tudo existe encanto.

Da vida na aldeia, parte quarenta e sete

Costa Nova, Aveiro.


Silêncio:

substantivo masculino

- Estado de quem se abstém ou pára de falar.
- Cessação de som ou ruído.
- Interrupção de correspondência ou de comunicação.
- Omissão de uma explicação.
- Sossego, quietude, calma.
- Segredo, sigilo.


E aquele silêncio assombroso que se manifesta ao som de Benjamin Clementine?! É desse silêncio que falo.

Da literatura, parte vinte e um

«Nada é para mim doce sem ti.»
Milton era cego como o capitão marítimo, um poeta inglês que perdeu a visão na velhice. Compunha os seus poemas na escuridão e a filha escrevia-os por ele. Assim, abençoamos as mãos dela, mas esperamos que tivessem uma vida para além dos poemas, esperamos que fossem capazes de segurar algo mais quente e macio do que uma caneta esguia. Algumas palavras podem eventualmente mudar o mundo, podem confortar-nos e secar as nossas lágrimas. Algumas palavras são balas, outras são notas de um violino. Outras conseguem derreter o gelo em volta do coração, e até é possível enviar palavras como equipas de salvamento quando os dias são difíceis e talvez não estejamos nem vivos nem mortos. Contudo, as palavras não são suficientes e perdemo-nos e morremos nas charnecas da vida se não tivermos nada a que nos agarrar além de uma caneta.


in Paraíso e Inferno de Jón Kalman Stefánsson (Cavalo de Ferro, 2013)

Da vida na aldeia, parte quarenta e cinco

Porto, Junho de 2017.

Da literatura, parte vinte

(...) o Inferno é ter braços mas ninguém a quem abraçar. O ar tremeu como se algo grande tivesse sido rasgado, depois um som de algo a partir ouviu-se quando o sol caiu e aterrou na Terra. As pessoas estão vivas, têm os seus momentos, os seus beijos, risos, os seus abraços, palavras de encorajamento, as suas alegrias e tristezas, cada vida é um universo que então colapsa e não deixa nada para trás, expecto alguns objectos que adquirem um poder de atracção através da morte dos seus proprietários, tornam-se importantes, por vezes sagrados, como se pedaços da vida que nos deixou tivessem sido transferidos para a chávena de café, a serra, o pente, o cachecol. Mas tudo acaba por se desvanecer, as recordações desaparecem algum tempo depois e tudo morre. Onde havia outrora vida e luz, existe a escuridão e o esquecimento.


in Paraíso e Inferno de Jón Kalman Stefánsson (Cavalo de Ferro, 2013)

Da literatura, parte dezanove

A nossa existência é uma busca imparável por uma solução, pelo que nos conforta aquilo que nos traz felicidade, afasta todas as coisas más. Alguns percorrem uma estrada longa e sinuosa e talvez não encontrem absolutamente nada, excepto para algum tipo de objectivo, um género de libertação ou alívio na própria busca, os restantes admiram a sua tenacidade mas têm problemas suficientes ao simplesmente existirem, por isso tomam elixires que curam tudo em vez de procurarem, perguntando continuamente qual é o caminho mais curto para a felicidade, e encontram a resposta em Deus, na ciência, na aguardente, no exilir chinês.


in Paraíso e Inferno de Jón Kalman Stefánsson (Cavalo de Ferro, 2013).

Da vida na aldeia, parte quarenta e quatro



Porto, Junho de 2017.

Da vida na aldeia, parte quarenta e três

Vila Nova de Cerveira, Junho de 2017.

Da vida na aldeia, parte quarenta

Vila Nova de Famalicão, Janeiro de 2017.

Da vida na aldeia, parte trinta e nove

São Miguel, Açores - Julho de 2016.

Da literatura, parte dezoito

O Segredo de Joe Gould, Joseph Mitchell (Dom Quixote, 2017).


Há livros que nos compram pela capa, já eu, no que respeita ao O Segredo de Joe Gould adquiri-o pelo prefácio de António Lobo Antunes. Saber, pela boca de um dos melhores escritores portugueses, que se trata de um livro magistral foi decisivo. E sim, este livro é tudo aquilo que Lobo Antunes lhe acrescenta e muito mais. Talvez não exagere, até, quando sublinho que dentre tantos livros que já li, nenhum se iguala ao retrato traçado por Joseph Mitchell.
As duas crónicas que compõem este livro foram publicadas originalmente na revista The New Yorker, na secção Perfis, onde míticas figuras da cidade nova-iorquina marcaram presença. Joe Gould é uma dessas figuras, um excêntrico boémio originário de uma importante família do Massachusetts que, após o término dos estudos em Harvard, se dedicou a uma vida de deambulação pelas ruas da "cidade que nunca dorme". De burguês a vagabundo, Gould irá dedicar todo o seu percurso à escrita de uma obra magnânima: História Oral do Nosso Tempo. Esta narrativa, que tanto me fez rir pelo detalhe das situações hilariantes levadas a cabo por Gould, é também um livro de raciocínio claro e pretensioso acerca da mente humana e do nosso papel na sociedade. O Professor Gaivota, que tem tanto de louco como de génio, sem um único dólar no bolso, mantém durante décadas uma campanha em torno da única arte em que acredita: a literatura. Sem constrangimentos, demonstra apenas aquilo que é, sem ser necessário recorrer a dogmas e imposições societários. Por ele não fui capaz de sentir pena, ainda que as condições em que escolheu viver sejam assombrosas, por ele sinto uma inveja clara, uma inveja boa, pela liberdade de escolha e pela autenticidade. Pela luta objectiva dos princípios pelos quais se orientava. Tal como dita Lobo Antunes: Seja qual for o preço que por ele deste (o livro), é uma pechincha comparado com o que vais receber.