Da vida na Aldeia, parte oitenta e um

Coimbra | 2018.


Da Literatura, parte trinta e três



Correndo o risco de dramatizar demasiado a condição humana, já viu o filme Matrix?
É sobre um tipo chamado Neo (representado por Keanu Reeves), que descobre que vive num mundo imaginário. A vida que julgava viver é, na verdade, uma alucinação elaborada. Está sob o efeito dessa alucinação enquanto, sem que tenha noção,  o seu corpo físico se encontra numa cápsula, do tamanho de um caixão, cheia de um líquido pegajoso - uma de muitas cápsulas, entre fileiras incontáveis delas, cada uma contendo um ser humano alheado num sonho. Essas pessoas foram colocadas nas cápsulas por mestres robóticos e receberam vidas imaginárias para se entreterem.
No filme, a escolha com que Neo se depara - continuar a viver numa ilusão ou acordar para a realidade - é representada pela famosa cena do «comprimido encarnado», Neo foi contactado por rebeldes, que entraram no seu sonho. O seu líder, Morpheus (representado por Laurance Fishburne), explica-lhe a situação: «És um escravo, Neo. Como todos os outros, nasceste em servidão, numa prisão que não podes provar, ver ou tocar - uma prisão para a tua mente.» A prisão chama-se Matrix, mas não há forma de explicar a Neo o que realmente é. A única maneira de ver o contexto total, segundo Morpheus, é «ver por si mesmo». Oferece dois comprimidos a Neo: um encarnado e um azul. Neo pode tomar o azul e voltar ao seu mundo imaginário, ou tomar o encarnado e romper o véu da ilusão. Neo escolhe o comprimido encarnado.
É uma escolha muito explícita: uma vida de ilusão e cativeiro ou uma vida de conhecimento e liberdade. De facto, é uma escolha tão radical, que se parece mesmo adequar a um filme de Hollywood - as escolhas que realmente fazemos quanto ao modo como vivemos são menos cruciais, mais corriqueiras. Porém, quando o filme estreou, várias pessoas consideraram que representava uma escolha que elas próprias haviam feito.
As pessoas a que me refiro são chamados «budistas ocidentais» (...) que, na sua maioria, não nasceram budistas, mas que a determinado momento adoptaram o budismo. Pelo menos, adoptaram uma versão do budismo, uma versão que fora expurgada de alguns elementos sobrenaturais típicos do budismo asiático, nomeadamente a crença na reencarnação e em várias divindades. Este budismo ocidental centra-se numa vertente prática da prática budista que na Ásia é mais comum entre os monges do que entre os leigos: meditação, a par de uma imersão na filosofia budista.
(...)
Esses budistas ocidentais, muito antes de terem visto o filme Matrix, haviam chegado à conclusão de que o mundo como o viam outrora era uma espécie de ilusão - não uma alucinação total, mas uma imagem deturpada da realidade que, por sua vez, deturpava a sua abordagem à vida, com consequências nefastas para si mesmos e para as pessoas que os rodeavam. Graças à meditação e à filosofia budista, sentiam que viam o mundo de forma mais clara. Para essas pessoas, Matrix parecia uma alegoria adequada para a transição que haviam vivido e, consequentemente, passou a ser conhecido como um «filme darma». A palavra «darma» tem vários significados, incluindo os ensinamentos de Buda e o caminho que os budistas devem percorrer em resposta a essa doutrina. Na sequência de Matrix, a afirmação «eu sigo o darma» passou a ser substituída por «eu tomei o comprimido encarnado».


in O Budismo tem Razão de Robert Wright (Nascente, 2018).

Da Literatura, parte trinta e dois

Não procurava conforto, mas inquietação. Não procurava a ordem que fora programado para ver e compreender, mas a dissolução dessa ordem. Não se voltou para a arte para receber, mas para ver. Não conseguia imaginar-se a usar a palavra «recompensadora» a propósito de uma obra de arte - por exemplo, que livro tal e tal me deu muito, aprendi muito com ele, etc., etc., etc. -, mas pensava solenemente que a obra o iluminara, o levara a ver, com cinismo e sem falsas esperanças, de maneira que se sentia vivo, algo que os jovens têm amiúde dificuldade sem sentir claramente e que com grande facilidade os torna desajustados.


in A Noite do Professor Andersen de Dag Solstad (Cavalo de Ferro, 2018).

Diário, parte quarenta

Jean-Louis Lebris de Kerouac (1922 -1969)


Americano com descendência canadiana, Jack Kerouac, Bill para os amigos, foi percursor, juntamente com William Burroughs e Allen Ginsberg, da Geração Beat, embrião do que viria a ser a geração hippie. Através da literatura, e outras artes, influenciou a cultura de uma geração que fervilhava. Com o seu romance "On the Road", uma auto-biografia onde relata as peripécias e as suas aventuras ao lado de Neal Cassady pela costa dos EUA, além de ter alcançado uma repercussão nacional e internacional para lá do que imaginava, distanciou-se em definitivo dos padrões impostos pelo New Criticism. Apelando à liberdade e à espontaneidade, ainda que com uma educação conservadora e católica, Kerouac irá ceder aos vícios da época juntamente com os seus fiéis companheiros. As drogas e o álcool ditaram o seu fim. Mesmo tendo partido tão cedo, ainda hoje é uma verdadeira inspiração, tendo sido o criador de obras que, para qualquer amante da literatura e da natureza, continuam a servir de influência. Amante da mãe-terra e da filosofia budista, foi um homem que, sob o efeito ou não de estupefacientes, demonstrou ser dotado de uma espiritualidade e sensibilidade singulares. Afinal, quem seria capaz de escrever, se não ele, Big Sur e Os Vagabundos do Dharma?!


I was surprised, as always, by how easy the act of leaving was, and how good it felt. The world was suddenly rich with possibility.

Diário, parte trinta e nove

Rubem Alves, o famoso teólogo, filósofo ou psicanalista, como lhe queiram chamar, escreveu um dia um livro, que não tendo lido na integra, retirei dele algo muito importante: o sofrimento, como a felicidade, é uma condição passageira, não permanente, cabendo-nos a nós, meros seres pensantes, saber relativizar os instantes negros e apreciar com intensidade os períodos luminosos. Encarar com modesta compreensão que a vida é composta por isso, momentos, e somente com um trabalho mental árduo conseguiremos caminhar de cabeça erguida perante as adversidades e os imprevistos, positivos e negativos, que se atravessam perante nós como autênticos pedregulhos. O livro que falo é Ostra Feliz Não Cria Pérolas. E não, não é um mero e estupidificante livro de auto-ajuda repleto de clichés, é sim um desenrolar de pensamentos deveras interessantes acerca da nossa essência enquanto humanos. O brasileiro pega num exemplo simples de um molusco bastante apreciado entre a fina flor para relatar que as ostras são bastante frágeis, tendo evoluído no sentido de "construir" as suas conchas para se protegerem dos predadores. Ainda assim, envoltas numa armadura quase impenetrável que lhes possibilitava viver sem grandes distúrbios, também elas sofriam quando um pequeníssimo grão de areia lhes penetrava na sua humilde casa e lhes lacerava a carne. Mas as ostras não desistiram e aprenderam que os pequenos grãos podiam transformar-se em algo extraordinário e, assim, trabalharam penosamente ao ponto de produzirem pérolas. Conseguiram transformar a dor em beleza. E é por isso que Rubem Alves sublinha que a beleza não elimina a tragédia, porque afinal, hipocrisia aparte, uma tragédia é isso mesmo, mas a beleza, na sua plenitude, tem o poder de converter a dor em algo suportável, em algo menor. Conclui que a felicidade, o bem-estar, é um dom gratificante e quando estes ciclos nos invadem, devemos apreciá-los com sensatez. No entanto, não é a beleza, não são sequer os momentos de luz que produzem pérolas, são sim as etapas cinzentas. São na verdade os sofredores que pintam as nossas vidas com as cores do arco-íris e nos atenuam a angústia. São os que sofrem que produzem a beleza, para deixar de sofrer. Falo daqueles que têm a faculdade e a excelência para criar arte: pintores, escritores, músicos, fotógrafos e tantos outros.

Mark Manson, numa dada altura do seu livro A Arte Subtil de Saber Dizer que se Foda, dita:

Existe uma premissa que subjaz a uma série de princípios e crenças. A premissa é que a felicidade é algorítmica e que se pode trabalhar para ela, conquistá-la e concretizá-la como se estivéssemos a candidatar-nos à faculdade de Direito ou a montar uma construção de Lego particularmente complicada. Se eu conseguir X, então poderei ser feliz. Se tiver a aparência Y, então poderei ser feliz. Se puder ser uma pessoa Z, então poderei ser feliz. A felicidade não é uma equação resolúvel. A insatisfação e o desconforto são partes inerentes da natureza humana e componentes inerentes à criação de felicidade consistente. Buda defendeu esta ideia com argumentos teológicos e filosóficos.

E acrescenta:

O rico sofre por causa das suas riquezas. O pobre sofre por causa da sua pobreza. As pessoas sem família sofrem por não terem família. As pessoas com família sofrem por causa desta. As pessoas que procuram os prazeres terrenos sofrem por causa dos prazeres terrenos. Aqueles que se abstêm dos prazeres terrenos sofrem devido a esta abstenção. Isto não quer dizer que todo o sofrimento seja igual. Há sofrimento mais e menos doloroso. No entanto, todos temos de sofrer. (...) para mim a revelação prática é aceitar a ideia de que teremos sempre de sofrer alguma coisa - façamos o que fizermos, a vida é composta de fracassos, perdas, remorsos e até morte. Porque uma vez que nos sintamos confortáveis com toda a merda que a vida nos atira (e, acredite, será muita), tornamo-nos invencíveis a uma espécie de nível espiritual básico. Afinal, a única maneira de ultrapassar a dor é aprender a suportá-la. 

E por último:

Brincamos online com os «problemas do primeiro mundo», mas a verdade é que nos tornámos vítimas do nosso sucesso. Nos últimos anos dispararam os problemas de saúde relacionados com o stress, as perturbações de ansiedade e os casos de depressão, apesar de toda a gente ter um ecrã plano e receber as compras do supermercado em casa. A nossa crise já não é material; é existencial, é espiritual. Temos tanta tralha e tantas coisas e oportunidades, que já nem sabemos a que dar importância. (...) Postamo-nos diante do espelho afirmando repetidamente que somos belos, porque sentimos que ainda não somos belos. Seguimos conselhos de relacionamento, porque achamos que ainda não merecemos ser amados. Tentamos exercícios patetas de visualização em que somos mais bem-sucedidos, porque sentimos que ainda não temos sucesso suficiente. Ironicamente, esta fixação no positivo - no que é melhor, no que é superior - apenas serve para nos recordar constantemente aquilo que não somos, aquilo que nos falta, aquilo que devíamos ter sido mas não conseguimos ser. Afinal, uma pessoa realmente feliz não sente necessidade de se postar diante de um espelho a entoar que é feliz. Apenas é.


E é por isto que a piedade, tantas e tantas vezes aclamada por Buda, é essencial. Porque esta reflexão advém da minha mania comum da observação de lupa em punho. E sinto verdadeira clemência por aqueles que ainda não atingiram a maturidade suficiente para entender que, porra, a vida é mesmo assim. Há o que vale a pena, há o que não vale. Há o que tem importância, há o que não tem. Há quem tenha relevância, há quem não tenha nenhuma. Há que aceitar o que se tem, mesmo aquilo que por vezes nos parece tão pouco comparativamente com o tesouro escondido do vizinho do lado, e agradecer. Porque, afinal, sabemos tão pouco acerca da nossa vizinhança e talvez não consigamos entender que, até eles, também têm os seus problemas. Viver para nós, para os nossos, e não entrar no circo vergonhoso de prejudicar os outros com a esperança utópica de que a dor e as lágrimas alheias serão capazes de atenuar o desencantamento perante a vida. Não. Há que criar beleza, apenas.

Diário, parte trinta e oito

Agora a chuva acalmou dando lugar a uma luz forte no horizonte que, provavelmente daqui a uma hora, se extinguirá. Mas, hoje, durante praticamente todo o dia choveu, choveu sem piedade. Hoje, dia da despedida de mais uma amiga, uma querida amiga. Até o céu, esse, chorou. Nas últimas três despedidas a amigos queridos que o céu desabou sobre nós, algum simbolismo creio que tenha. E esta, uma mulher tão jovem, tão cheia de garra, tão repleta de força e esperança e, ainda que o cansaço da doença já exercesse o seu peso, o sorriso esteve sempre presente. É sempre um choque, esta coisa chamada morte, paralisa os nossos músculos, enrola na língua as poucas palavras que se podem dizer e cega-nos a vista com lágrimas que teimam em descer pelo rosto. É um beco sem saída. Eu, tal como a família e os amigos, saímos de cabeça baixa do nosso local de trabalho. Conduzimos e os minutos não avançavam. Nos poucos quilómetros que faltavam para que finalmente tenha tido coragem para tocar à campainha da sua morada, as entranhas dentro de mim revoltaram-se e a garganta deu um nó. Mãe, mãe, mãe. Tu, uma das suas grandes amigas, porque é que tens que ficar presa no hospital sempre nestes dias?! Precisava de ti agora, aqui comigo, como vou enfrentar uma família assim?! Sabes que nunca fui boa a enfrentar a dor dos outros. Mãe! Estes foram os meus últimos pensamentos antes de estacionar o carro e finalmente bater à porta que se encontrava entreaberta. Ana, oiço, Ana, Ana. E não é preciso dizer mais nada. Restam os abraços, daqueles que até doem e fazem mazelas nas costas, resta que se perceba que perante tamanha perda, nós, todos juntos, estamos ali. E basta, não há palavras sequer. E não há frases bem estruturadas que possam descrever esta mulher que partiu. Não é um cliché, não há. Esta mulher teve um sonho, um simples sonho, construir uma família e ser feliz. Parece simples não é?! Casar, ter filhos e saborear o dia-a-dia. Mas não foi, de todo. Foram muitos os obstáculos, demasiados até. Não consigo nomeá-los por uma ordem cronológica correcta, ainda que os tenha ouvido tantas vezes. Um cancro vencido, uma obrigação de mudar para um país frio e rodeado de montanhas, um casamento traduzido em violência doméstica, a doença sempre presente e, depois, o divórcio. E no meio dum turbilhão de uma vida que muitos considerariam falhada, aparece um anjo da guarda que a carrega nos seus braços. E o sonho, esse, o sonho que outrora fora idealizado, concretiza-se, mesmo com a eterna enfermidade sempre presente. Foi uma vida de luta, de sacrifícios, mas tudo em prol de uma ambição. Regressar à pátria. E regressou. E de um casebre construiu uma pequena mansão rodeada de flores e aumentou a família: um gato (o célebre fugitivo Tommy que com uma preciosa ajuda lhe consegui devolver) e um cão (também o célebre cãozinho que abandonaram à porta dos meus pais no primeiro dia do ano), os quais amava imensuravelmente. Nós, que sempre vivemos na nossa terra, temos uma certa mania de apontar o dedo a alguns emigrantes, que regressam apenas para expor a riqueza que acumularam ao longo dos anos, que sofrem do mal das grandezas, etc. A eles, a ela, nunca vi tal coisa. Pelo contrário, vi simplicidade, vi verdade, vi seres de um coração enorme que se instalaram onde pertenciam com um propósito: cumprir a promessa que esboçaram outrora, reencontrar a felicidade em paz.

Mesmo que a doença a tenha levado, mesmo que tenham sido meses tortuosos, quem, a ti, diz-me, quem se pode gabar de ter conseguido, em sessenta anos, realizar um sonho?! Quase ninguém, só os afortunados. E mesmo que tenham sido demasiadas as caminhadas entre corredores de hospital, mesmo que o desespero tenha sido constante, mesmo que as pedras no caminho tenham impossibilitado tantas e tantas coisas que ainda querias viver, sublinho, foste uma afortunada. A alegria do amanhã nunca te abandonou, conheceste o verdadeiro amor, um amor verdadeiro e puro que tantas vezes presenciei nos olhos do teu marido e da tua filha que, vinda do país da neve, ainda te segurou a mão quase no teu último suspiro. São pessoas como tu E., pessoas como tu, que nos inspiram para continuar a viver. Irei recordar sempre o teu sorriso, sempre, mesmo quando sentada na tua cadeira de rodas apenas admiravas as flores do teu jardim. E assim foste, cheia de luz, rodeada delas.

Minha querida, olha por nós aí em cima que nós cuidamos dos teus aqui em baixo.

Da Literatura, parte trinta e um

A Magia do Silêncio de Kankyo Tannier (Arena, 2018)


Silêncio e solidão combinam na verdade, como duas vozes que criam, juntas, uma terceira, de ressonância infinita.
Para alguns, estar só representa o Graal, ou até o sonho absoluto! Penso naquelas mães de família que apagaram essa palavra do seu vocabulário. «Estar só? Para ler ou ouvir música? Sim, fazia isso quando era estudante, mas nessa altura...» Para outros a solidão é algo a evitar a todo o custo: não querem estar a sós consigo próprios, com receio de que isso os deprima. A vida dessas pessoas é uma sucessão de festas, passeios, aventuras. Qualquer coisa é melhor do que voltar para casa ao fim do dia para um apartamento vazio.
Em ambos os casos, tudo é - como sempre - uma questão de perspectiva. Uma pessoa entrará em casa, descalçará os sapatos e sentar-se-á no sofá, suspirando de felicidade e alívio. Uma outra deixará as crianças na escola e desfrutará do caminho de regresso, caminhando devagar, saboreando a calma... Sós, sob a luz.
O silêncio gosta muito de se manifestar na solidão. Por «solidão» entendemos essa sensação de estarmos ligados a nós próprios. De termos latitude, espaço, tempo para estarmos em contacto com a nossa intimidade mais serena. (...) solidão consentida, de um confortável olhar para dentro de nós, capaz de nos alimentar antes de regressarmos ao mundo. Uma solidão voluntária, procurada, na qual a aprendizagem se faz muito mais depressa.
(...)
Por vezes, basta programarmos algumas horas «sem fazer nada», como momentos roubados, para aprendermos a estar sós e a desembaraçar nas margens soalheiras do nosso verdadeiro eu, que é muito mais vasto do que poderíamos imaginar. 


Meia hora de meditação diária. É o que basta para começar, devagarinho.

Da vida na aldeia, parte oitenta

Madeira | 2018.

Diário, parte trinta e sete

O que é a depressão? A resposta é simples e concisa: é uma doença. E uma doença gravíssima.
Em Portugal, morrem todos os anos cerca de mil pessoas por suicídio. No Reino Unido, cerca de cinco mil e quinhentas. A depressão é das doenças que mais matam a nível mundial.
A estigmatização e a falta de apoio conduzem muitas vezes os doentes depressivos ao suicídio.
É urgente que as pessoas entendam, pelo menos, que a depressão é uma doença tão legítima como um tumor ou um hipertiroidismo. Que é do foro fisiológico que afecta o mental. Que destrói vidas, carreiras, famílias e possibilidades. Que não é uma invenção de quem sofre.
Quando alguém diz «tenho uma pericardite» ninguém duvida da doença. Foi diagnosticada pelo cardiologista. Há uma preocupação comum em saber se está medicado e se está tudo a correr bem. É normal perguntar ao doente o que disse o médico e qual o plano de tratamento.
Na depressão não é assim. É uma doença dos que vivem no submundo, dos fracos, dos malucos, dos indesejáveis, daqueles que só fazem dramas e causam problemas. É com esta estigmatização que muitos doentes têm que conviver. No trabalho, nas escolas, na família. Castigados pelos virtuosos santos pecadores, vítimas de tiranias das verdades e da ignorância crónica e abominável.
Vêm-me à memória umas palavras que li numa entrevista com o Prof. João Marques Teixeira, presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental:
«Um doente mental não é tratado, por exemplo, como um doente hipertenso ou um doente diabético. Para mim, essa é a génese do estigma. O doente mental é considerado um deficiente, enquanto o diabético é considerado um doente.»
Quando alguém diz «tenho uma depressão, não consigo» (aqueles que se atrevem), sabe que está numa roleta-russa entre a aceitação e o desdém dos autoproclamados civilizados. Até muitos dos mais compreensivos preferem olhar para o outro lado.
Não há uma preocupação normal em saber o que disse o médico. Se tomar medicação, pior ainda. Dizem que esses comprimidos só fazem mal e são para malucos. Se respondem que foram receitados por um psiquiatra, a objecção não diminui: «Esses são todos doidos e só lidam com malucos». A psiquiatria é para muitos a especialidade do submundo, de bruxos com magias negras e poções venenosas.
É com este tipo de civilização que muitos dos doentes com depressão têm que coabitar.
Transformados em bodes expiatórios, não só lutam contra a sua doença, mas também com a discriminação. E esta, mais uma vez, vem de todos os lados. Dos amigos, do local de trabalho, da família, da escola. Muito preferem sofrer em silêncio. Muitos morrem em silêncio.


in A Vida é Um Sopro de Miguel Mealha Estrada e António Coimbra de Matos (Oficina do Livro, 2018)

Diário, parte trinta e seis

A dor dos outros

Não escrevo enquanto psiquiatra, escrevo enquanto pessoa. Todos os médicos lidam com o sofrimento dos outros, uns melhor, outros com mais dificuldade. Há os que a enfrentam e são capazes de ser muito próximos dos doentes, há os que não são capazes de o fazer e se tornam esquivos. Os psiquiatras são treinados para lidar com a dor psicológica, tentando compreendê-la e acelerando o seu processo reparador, que faz parte de cada um de nós e permite continuar a viver. Umas vezes com sucesso, outras com muitas dificuldades.
Mas a maior parte das pessoas que atravessam períodos de dor psicológica não tem, felizmente, de se socorrer de apoio técnico, recorre aos que lhe estão próximos, à família e os amigos.
Nem sempre o senso comum nos diz quais são as melhores atitudes perante os outros. Na ânsia de ajudar alguém a sair o mais depressa possível do sofrimento, muitos têm a tendência para o "empurrar"para comportamentos e situações em que possam sentir algum prazer. Normalmente falham e agravam o sentimento de incapacidade para viver uma vida normal.
Por muito próximos que se esteja de alguém que está a sofrer uma perda, nunca seremos capazes de passar do registo intelectual, mesmo que já tenhamos passado por episódios de vida semelhantes. Tentar imaginar o sentir do outro, vivenciar a verdadeira ferida, que tantas vezes a pessoa em sofrimento não quer sarar, porque isso seria uma traição a quem desapareceu, é uma missão impossível. Respeitar a vontade de estar só, respeitar o silêncio, não se sentir atingido quando é claro que estamos a mais, nos momentos em que as recordações invadem o outro, pode não ser fácil, mas a dor tem sempre um lado não partilhável.
Parece quase um caminho sem saídas, cheio de sentimentos de impotência e, por vezes, até de irritação, como quem diz: já chega de choros. Penso que a pior coisa que se pode fazer é julgar o tempo que cada um precisa de voltar à vida, não percebendo que o nosso tempo nunca será transponível para quem está ao nosso lado a sofrer.
Dirão, mas há um limite para o sofrimento. Felizmente que o instinto de sobrevivência vai fazendo com que os intervalos de alívio sejam cada vez maiores, com as memórias a cumprirem um papel de preenchimento do vazio.
Por muito que nos custe e custa nos primeiros tempos, pensar que conseguimos sobreviver a uma grande perda, o tempo consegue, quase sempre, fazer o seu trabalho de repor o equilibro anterior.
Estar na dor com o outro é assim como se fossemos um observador atento e participativo, à medida que somos chamados e desejados. Mas convém estar sempre por perto e não desertar...


José Gameiro | Diário de um Psiquiatra, 10 de Março de 2018.


Li este texto em Março na Revista do Jornal Expresso. Li e reli... e só hoje o consegui partilhar. Identifiquei-me com o mesmo porque já estive dos dois lados da barricada. Porque todos os dias, quando reservo um bocadinho do meu tempo para passar os olhos pelas redes sociais antes de dormir, vejo que ali, naquele espaço, não existe dor, mas sim felicidade plenamente camuflada, vejo o quão o sofrimento é ainda um tabu e o quão a pressão social leva a que a maioria das pessoas represente um papel teatral com a qual não se identifica mas que é obrigatório para que a plateia em frente aplauda. Quando li estas palavras do Psiquiatra José Gameiro caiu um silêncio em mim, daqueles silêncios profundos em que as palavras não têm lugar. Vi todos os profissionais de saúde que existem na minha família, vi a minha mãe que tem dedicado toda a sua vida em prol da doença mental e do doente psiquiátrico que, infelizmente, ainda é ultrajado e minorado por uma maleita não palpável. Revi-me a mim, a tantas pessoas pelas quais dei a mão quando caíram num poço que, na altura, se pensava não ter fundo. Citando Mark Manson:

Nós sofremos, pela simples razão de que sofrer é biologicamente útil. É o agente preferido pela natureza para inspirar mudança. Evoluímos no sentido de viver sempre com um certo grau de insatisfação e insegurança, porque uma criatura medianamente insatisfeita e insegura é a que vai fazer a maior parte do trabalho para inovar e sobreviver. Estamos programados para nos tornarmos insatisfeitos com o que quer que tenhamos e satisfeitos apenas por aquilo que não temos. Esta constante insatisfação manteve a nossa espécie a lutar e a esforçar-se, a construir e a conquistar. Por isso, não, a nossa dor e infelicidade não são um obstáculo à evolução humana, mas uma funcionalidade.


in A Arte Subtil de Saber Dizer que se Foda de Mark Manson (Desassossego, 2018) 

Da vida na aldeia, parte sententa e nove



Madeira | 2018.

Diário, parte trinta e cinco



Da Dinamarca, uma das melhores descobertas dos últimos tempos.

Da vida na aldeia, parte setenta e oito

Coimbra.


Nunca esquecer estas coisas:
- A natureza do mundo
- A tua natureza
- Como te identificas com o mundo
- Qual a fracção dele que ocupas
- Que és parte integrante da natureza e que ninguém pode impedir-te de falar e agir sempre em harmonia com ela.


in Meditações de Marco Aurélio (Cultura Editora, 2017)

Diário, parte trinta e quatro

Em Outubro, quando me foi dado a conhecer o diagnóstico que, até ao dia de hoje me tem acompanhado, que tenho procurado, acima de tudo, combater o meu maior inimigo: a pressão profissional e o stress que daí advém. Como leitora ávida, relembro-me de ler, há já uns anos, um pequeno ensaio intitulado A Biografia do Silêncio. O seu autor, Pablo D'Ors, é um sacerdote e escritor espanhol que, na citada obra descreve a sua experiência na tentativa de conseguir algo que, para os leigos na matéria, parece demasiado simples: meditar. Na altura li o livro, cheguei, até, a oferecê-lo, no entanto, e agora sei-o, não o compreendi na totalidade. Afinal, a meditação, aos meus olhos, era simplesmente sentar e, em silêncio, esvaziar a mente. Assim, como se fosse um exercício descomplicado. 
Foi só quando se deu aquele acontecimento no Outono que procurei saber e estudar mais a ideologia do silêncio, a filosofia por detrás da meditação. Desde então, li, li muito. Voltei a reler A Biografia do Silêncio e muitos mais se seguiram a esse (ainda que seja difícil encontrar literatura confiável nesta área). Só então, cá dentro, compreendi. Acalmar a mente e viver aqui e agora, sem distracções, é das acções mais difíceis que experimentei. Procurei informações e ajuda junto de um grupo que estuda o Dharma e aí me foi indicado que o Professor Paulo Borges iria estar na minha cidade. Para quem não conhece, eu felizmente já conhecia, este é professor de Filosofia e Meditação, Pensamento Oriental e Filosofia da Religião na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Além de ter ministrado também Técnicas Meditativas na Escola de Enfermagem de Lisboa, foi sócio-fundador da Associação Budista Portuguesa. É praticante de meditação budista desde 1983, seguindo os programas de formação da Comunidade Internacional de Meditação e foi organizador das duas vindas de Sua Santidade o Dalai Lama a Portugal. Foi membro-fundador do PAN (Partido pelos Animais e pela Natureza), do qual já não faz parte. Além de instrutor de meditação, tem realizado centenas de conferências e workshops, além de escrever sobre estas temáticas. Vi ali a luz. Sentada lado a lado com Paulo Borges, durante uma tarde que se prolongou até para além das horas, percebi, afinal, o que é a meditação. Após diversos ensinamentos teórico-práticos percebi a dificuldade e, ao mesmo tempo, a simplicidade de permanecer em silêncio e, em consciência plena, sossegar a mente. Alcancei que esta descoberta pela consciência é um espaço aberto de paz, de clareza e felicidade. E esta mesma consciência só depende de nós e não do mundo exterior e mesmo interior.
Hoje, ainda que tenha passado pouco tempo, todos os dias, após o jantar, sento-me e medito. Ainda que a postura nem sempre consiga ser a ideal, ainda que me doam as costas, as pernas, por vezes os braços e a cabeça, a força de vontade de conseguir pacificar-me a mim e reconhecer que, na realidade, a gratidão e a bondade estão acima de tudo, é primordial.
Há quem seja céptico, e eu compreendo isso, há quem prefira fechar-se num ginásio até suar sangue ou correr estrada fora 10km seguidos, eu prefiro meditar, eu prefiro desligar-me do mundo em silêncio. Prefiro caminhar na natureza, fotografar e, brevemente, conseguir conciliar tudo isto com a prática de Yoga. Todos somos diferentes, sem julgamentos, há que assimilar e aceitar. Tudo isto é um mundo de descoberta do que realmente importa, de distanciar-me do que me tolda a visão e viver em paz comigo e com quem me rodeia.


A tranquilidade que vem quando deixas de te preocupar com o que os outros dizem, ou pensam ou fazem. E cuidas apenas das tuas acções. (Será isto justo? Será o certo a fazer?) Não te deixes distrair pela escuridão dos outros, mas antes prosseguir vigorosamente em direcção ao teu objectivo.


in Meditações de Marco Aurélio (Cultura Editora, 2017)

Da vida na aldeia, parte setenta e sete

Coimbra.


Disto... que é ser mulher.

Da vida na aldeia, parte setenta e seis

Coimbra.

Da vida na aldeia, parte setenta e cinco

Coimbra.

Diário, parte trinta e três

Um dia hei-de ter a minha própria biblioteca infantil. Um dia próximo, eu espero, hei-de conseguir, aos poucos, adquirir tantos e tantos livros que me fascinam. Hei-de ter uma estante só para eles, hei-de arranjar tempo para os folhear, um a um, e observar as suas pequenas palavras e ilustrações fora do comum. Hei-de sonhar enquanto caminho por mundos paralelos e fantasiosos. Hei-de contemplá-los só pelo amor que lhes tenho e, finalmente, deixar de me sentir frustrada sempre que entro nas livrarias dedicadas aos mais pequenos cá na cidade. Hei-de ser capaz, devagarinho, de empilhar desde os clássicos da Relógio D'Água a editoras ou a chancelas mais contemporâneas como a Kalandraka, Orfeu Negro, Máquina de Voar, Bruáa, Planeta Tangerina, Fábula, Edicare, Pato Lógico e tantas outras que me inspiram. Um dia hei-de ter a minha própria biblioteca infantil. Um dia. Até lá desfruto, tal e qual uma criança, das cores que pintam os espaços dedicados a estes objectos tão especiais.

Da vida na aldeia, parte setenta e quatro

Coimbra.

Diário, parte trinta e dois

Inteligência é a capacidade de aceitar o que nos rodeia, escreveu William Faulkner. E também de aceitar que o Outro nas suas diferenças, acrescentaria eu, que sempre quis ver o meu nome ao lado do autor de Absalom! Absalom! Afirmação essa, a da aceitação, que vai perdendo a sua característica de evidente truísmo nestes dias em que vivemos, embrenhados em constantes dicotomias, clivagens políticas, sociais, religiosas. Na quase permanente intolerância de que é aterrador palco o "diz contra quem disse", das redes sociais.
No entanto, essa tolerância para com as práticas em que não acreditamos não invalida que se deva exigir, a quem as pratica, a mesma seriedade, comportamento deontológico e responsabilização que se exige a outras, regulamentadas e legisladas. Na área das terapias alternativas ou complementares há óptimos e péssimos profissionais. Vendilhões do Templo e voluntários dedicados, mestres com pés de barro e sábios repletos de humildade e dádiva.
(...)
Algo no entanto me parece evidente: há cada vez mais joio no meio do trigo, nesta época em que os psicólogos são substituídos por coachers e em que surgem artigos em jornais online, com reputação junto dos seus leitores, sobre temas como o modo de adequar o tipo de exercício físico e de jogging à cor da aura de cada um.


in Terapias, Energias e algumas Fantasias de João Villalobos (FFMS, 2017).