Da vida na aldeia, parte sessenta e três

Vila Nova de Foz Côa.


Há algo de mágico e sobrenatural na paisagem dos montes, que enfeitiça a mente e os sentidos. Esquecemo-nos de tudo, esquecemo-nos do nosso próprio ser, deixamos de saber onde estamos.


in La Nouvelle Héloïse de Jean-Jacques Rosseau. 

Da Literatura, parte trinta

Na escola, aprendi alguma coisa sobre as ondas sonoras. O som é uma realidade material e pode ser medido em decibéis, embora achasse pouco satisfatório medir o som com os números de uma tabela. O silêncio é sobretudo uma ideia. Uma noção. O silêncio que nos rodeia pode conter muito, mas o tipo de silêncio mais interessante é o interior. Um silêncio que cada um de nós tem de criar. É por isso que já deixei de tentar criar silêncio absoluto à minha roda. O silêncio que procuro é o silêncio interior.

(...)

Acredito que é possível que cada um de nós descubra o silêncio no seu interior. Está sempre lá, mesmo quando estamos rodeados de ruído constante. Nas profundezas do oceano, sob as ondas e as ondulações, podemos encontrar o nosso silêncio interior. No duche, deixando que a água nos corra sobre a cabeça, sentados diante de uma lareira que crepita, ao nadar num lago da floresta ou dando uma volta pelo campo - todas as ocasiões também podem dar azo a uma experiência de silêncio perfeito. Adoro isso.


in Silêncio da Era do Ruído de Erling Kagge (Quetzal, 2017)


Por aqui, muito se tem escrito e citado sobre o silêncio. Mais do que um estudo profundo sobre o mesmo, existe a necessidade urgente da percepção e interiorização do mesmo.

Diário, parte vinte e cinco

Poucas são as coisas que me orgulham mais do que despertar nele, isso mesmo, orgulho. Emociona-me, até, que ao ler as minhas palavras consiga depreender a lucidez e a verdade que procuro transmitir. Da força, sim, do estímulo e confiança que me permitem continuar em frente.

Da vida na aldeia, parte sessenta e dois

Vianden, Luxemburgo.

Não lamento nada. E isto é importante, de facto. Quando as coisas mudaram e comecei não apenas a ser mais silenciosa, mas também a amar o silêncio, a querer compreendê-lo e a persegui-lo, tanto na prática como na teoria, não senti que fugia de nada. Pelo contrário, eu queria mais. Eu tinha tudo e não era suficiente. O silêncio é um complemento, e não uma rejeição, da sociabilidade e dos amigos, e dos períodos de profunda satisfação emocional e profissional. Tive sorte, ou recebi uma graça divina; num sentido profundo (...) penso que o silêncio tentou encontrar-me e não o contrário.


in O Livro do Silêncio de Sara Maitland (Estrela Polar, 2011)

Da Sétima Arte, parte cinco

The Sinner - Derek Simonds, 2017.

Da Literatura, parte vinte e nove

Na verdade, todos nós temos vidas extremamente ruidosas. A «poluição sonora» já entrou na agenda ecológica quase ao mesmo nível que todas as outras formas de poluição que ameaçam o nosso bem-estar e segurança. Mas, por cada pessoa que se queixa dos treinos a baixa altitude da RAF, da incessante música de fundo dos locais públicos, dos vizinhos intoleravelmente ruidosos e das zaragatas embriagadas nas ruas, há centenas delas que sabem que necessitam de um telemóvel, que optam por ter um som ambiente incessante nos locais onde se encontram, nas suas casas e nos seus ouvidos, e que se sentem desconfortáveis ou assustadas quando têm de enfrentar o verdadeiro silêncio. A «comunicação» (que significa sempre conversa) é a condição sine qua non para as «boas relações». «Só» e «solitário» tornaram-se quase sinónimos; pior ainda, porventura, «silencioso» e «aborrecido» parece que também andam a par. As crianças escondem-se atrás de um muro de ruído, com televisores e computadores nos quartos; as carruagens para fumadores nos comboios transformaram-se em «zonas silenciosas», mas até as pessoas que as ocupam têm música directamente ligada aos ouvidos.
Todos nós pensamos em ter paz e silêncio, valorizamos a privacidade e julgamos que uma pessoa solitária e silenciosa é, de algum modo, mais «autêntica» do que inserida numa multidão social, mas raramente tentamos arranjar oportunidades para usufruir dessa paz e silêncio. Por um lado, romantizamos o silêncio, mas, por outro, sentimos que é aterrorizador, perigoso para a nossa saúde mental, uma ameaça às nossas liberdades e algo que devemos evitar a todo o custo.


in O Livro do Silêncio de Sara Maitland (Estrela Polar, 2011)

Diário, parte vinte e quatro

Está na moda ser zen, estar de bem com a vida, encontrar a luz onde, outrora, somente existia a escuridão. Uns deixam-se levar pela corrente, por mais uma tendência passageira que apenas serve para esconder, tal e qual uma máscara, a tranquilidade e confiança inexistentes. A mim admira-me sempre como será possível alguém, num dia como outro qualquer, acordar e perceber que, afinal, o mundo é feito de algodão e flutuamos em arco-íris de todas as cores. Talvez admiração não seja a palavra correcta, é descrença.
Neste caminho que tenho vindo a percorrer, numa terapia que tenho infligido a mim própria, é bastante simples depreender que para atingir o equilíbrio, um grau elevado de auto-conhecimento interno e de quietude ou paz, como lhe queiram chamar, requer trabalho e um esforço atrozes. Todos os dias, todas as horas, todos os minutos. Descobrir qual o nosso lugar no mundo e qual o sentido que devemos dar à nossa vida é talvez a viagem mais difícil que qualquer ser humano traça. E, ainda assim, primordial. Não, não é de um dia para o outro, assim, como por milagre. E não, também não há segredos para atingir o silêncio interior que Erling Kagge (que só depois de muitas experiências e de anos e anos conseguiu produzir o livro Silêncio na Era do Ruído) retrata; ou para encontrar a luz ao fundo do túnel através da logoterapia de Viktor E. Frankl; ou até para se sentar e reproduzir um acto tão simples como a meditação, algo que Pablo d'Ors demorou cerca de um ano a alcançar. É uma estrada tortuosa, sim, uma longa, longa passagem. Mas que seja.
Que seja através da natureza, de leituras positivas, de actos e exercícios que nos enriquecem, do yoga, da meditação ou de reiki. Que seja com terapia, com ajuda de um bom profissional da área da Neurologia, mas que seja. Sem pressa e sem a pressão social de mostrar ao mundo que a vida é cor-de-rosa. Na realidade, e cada vez tenho mais essa certeza, exibição é antónimo de felicidade. Porque para encontrar o nosso lugar no mundo, há que encontrarmo-nos a nós mesmos e isso só é possível quando, dentro do nosso círculo de pessoas, nos soubermos distanciar do resto do mundo. Como dita Kagge, estar no mundo sem estar dentro dele.


Mais do que sermos um com o mundo, o que queremos é que o mundo se dobre às nossas apetências. Passamos a vida a manipular coisas e pessoas para que nos agradem. Essa violência constante, essa busca insaciável que não se detém nem tão-pouco perante o mal alheio; essa avidez compulsiva e estrutural é que nos destrói. Não manipular, limitar-se a ser o que vê, se ouve ou se toca; é nisso que radica a verdadeira felicidade da meditação ou a felicidade pura e simples - para quê qualificá-la?


in Biografia do Silêncio de Pablo d'Ors (Paulinas, 2015)

Da Literatura, parte vinte e oito

Nós, que vivemos em campos de concentração, podemos recordar os homens que iam de caserna em caserna para confortar os outros, oferecendo-lhes o último pedaço de pão. Podem ter sido poucos, mas constituem prova suficiente de que tudo pode ser tirado a um homem, menos uma coisa: a última das liberdades humanas - a possibilidade de escolhermos a nossa atitude em quaisquer circunstâncias, de escolhermos a nossa maneira de fazer as coisas.


in O Homem em Busca de Um Sentido de Viktor E. Frankl (Lua de Papel, 2012)

Da Sétima Arte, parte quatro

Alias Grace - Mary Harron, 2017.

Da vida na aldeia, parte sessenta e um


Brugges, Bélgica. 


Escrevi estas palavras primeiramente em papel. Sim, voltei a escrever em papel. Indicaram-me uma daquelas papelarias à antiga, onde ainda tudo existe e tudo se encontra. E foi por ali que deambulei em busca de um caderno que, após uma boa meia hora, finalmente encontrei. Peguei-lhe, sentei-me à secretária e, sem dar pelo tempo passar, banhada pelo sol de Outono de Vila Nova de Famalicão que entrava pela janela, fui preenchendo as suas linhas. É um facto, ainda estou de ressaca da viagem pela Belux e a minha mente ainda paira pelas paisagens que vislumbrei.
Os planos estavam definidos há já muitos meses e, ainda que as baixas temperaturas nos tenham obrigado a alterar algumas rotas, houve tempo para atravessar todo o Luxemburgo e a Bélgica. E, assim foi, terminado o livro "Silêncio na Era do Ruído", levei comigo na mala "O Homem em Busca de um Sentido" de Viktor E. Frankl e, para reler, "A Biografia do Silêncio" de Pablo d'Ors. Não, não foi uma procura incessante pelo silêncio e pela paz de espírito mas, ainda assim, sem querer, esbarrei em ambos, por vezes no meio de multidões. Experimentei, lá, uma total ausência de som que, outrora não tinha, nem de perto, percepcionado. Nós, ali, alheados do mundo, rodeados por paisagens tão distintas como montanhas envoltas em bruma de onde despontavam castelos magnânimos, como planícies infindáveis na Bélgica e onde os canais de Brugges nos fizeram apaixonar por aquela pequena cidade medieval. Dos muitos quilómetros percorridos a pé, com cenários de fundo entre autênticas florestas encantadas repletas de veados e pintadas com as cores de Outono mais bonitas que alguma vez vi, restou-nos respirar e deixar para trás o mundo sufocante do trabalho.
E, agora, aqui sentada no escritório, onde outrora houve vontade de voltar a sentir na face o sol português, duplamente se sente a ausência do frio e da neve de Belux. Tão perto, e ao mesmo tempo tão longe, voltar à rotina revela-se um choque mas, felizmente, é possível guardar na memória pequenos momentos que acrescentam mais um bocadinho àquilo que somos.
Irei sentir saudades da descoberta da boulangerie francesa Fischer onde quase todos os dias, enquanto permanecemos no Luxemburgo, nos deliciámos com um café au lait e, dentre tanta escolha a nível de pâtisserie, nos deleitámos com o eclair surprise caramel beurre salée. Das ruas, limpas e acolhedoras, ainda que por vezes desertas, onde a população se refugiava no calor das suas casas. Das decorações de Natal e do aprumo das preparações cheias de pormenor numa época tão importante e tão sentida nestes países. Suspiro quando relembro que lá, ainda que Outono, senti o verdadeiro Inverno e pude pôr à prova as camadas intermináveis de roupa destinada a essa mesma estação, por forma a ser suportável caminhar sem tremer de frio. Já me sinto nostálgica quando relembro a vontade de fotografar tudo e, até, da inércia em não fotografar nada, porque por vezes bastava olhar em volta e captar aquilo que nos rodeava e que era, só por si, tão grandioso (cada vez mais reservo a imagem e expresso-me por palavras). Tenho saudades dos murmúrios das pessoas nos espaços e transportes públicos com o intuito de não incomodar o próximo. Da boa educação, ainda que nem sempre acompanhada de um sorriso, mas de uma cordialidade atroz. Das vistas infinitas do Castelo de Vianden e das ruas que relembram a permanência, no séc. XIX, do escritor Victor Hugo naquela cidade. Do MUDAM (Museu de Arte Moderna do Luxemburgo), mesmo ali ao lado do Parlamento Europeu, e das suas muitas galerias que para qualquer apreciador de arte contemporânea e arquitectura é um verdadeiro paraíso. Do Museu Nacional de História Militar em Diekirch, onde estavam representados aos pormenor batalhas e símbolos relativos à Segunda Guerra Mundial. Dos chocolates quentes e snacks que tanto nos reconfortaram ao longo de todo o percurso entre museus, igrejas e jardins. Das lareiras nos cafés a lembrar Paris e, onde foi possível viver as cidades e as pequenas vilas por onde íamos passando. Do 2be Beer Wall onde, entre centenas de marcas de cervejas, regressámos à nossa infância através do Tintim e do Milu. Do cheiro maravilhoso das chocolatarias e dos waffles acabados de cozinhar. Do simples caminhar lado a lado com as dezenas de bicicletas que, na Bélgica, são tão utilizadas como meio de transporte. Do ouvir falar a nossa língua mãe nos locais mais improváveis. Dos trilhos onde, no passado, serviram de palco à Segunda Guerra Mundial, das Ardennes a Flandres. Do memorial de Auschwitz em Troisvierges, onde, perto da linha do comboio, dezenas de luxemburgueses foram deportados para os campos de concentração. Ali, em recolhimento, tive oportunidade de colocar um pequeno seixo branco em honra dos milhões de judeus que morreram durante o horror do Holocausto. Da melancolia que já pesa ao recordar os despertares com a neve do outro lado da janela e que, ao vislumbrar a floresta no alto das montanhas relembrava a Noruega. Do Francês, do Alemão, do Luxemburguês e do Flamengo. Das amizades enriquecedoras que nos acompanharam nesta aventura e que comprovam que o importante é isso mesmo, as pessoas. E são elas que, por vezes com gestos tão naturais e simples, nos devolvem os sorrisos e nos revelam que por mais difícil que seja o trilho sinuoso que escalamos, nesta curta viagem que é a vida, tudo vale a pena quando percepcionamos quem e o que realmente importam. Passo a passo, em grandes ou pequenas viagens, continuaremos por aí. Sempre.

Diário, parte vinte e três

Encontro a bondade nos recantos mais improváveis. E sim, não é novidade que é na passagem por provações que permanecem, ou não, pessoas que comprovam a humanidade dos outros. Ainda que a desilusão possa nublar pequenos gestos de afecto, quando penso com clareza e de forma racional, compreendo que a real importância está nos que ficam, não nos que partem.


Sorrir ao sofrimento pode parecer excessivo. Mas a verdade é que também a tristeza e a desgraça entram no nosso crescimento. Devemos aceitar o mal, o que significa sermos capazes de ver o seu lado bom e, em suma, agradecê-lo. Sabemos que aceitámos um sofrimento quando extraímos dele algum bem, e consequentemente damos graças por tê-lo padecido. Não estou a dizer que sorrir perante a adversidade seja o mais espontâneo; mas é, sem dúvida, o mais inteligente e sensato. E direi porquê: reagir diante da dor com animosidade é a melhor maneira de transformá-la em sofrimento. Em contrapartida, sorrir diante dela é uma forma de neutralizar o seu veneno. Ninguém irá discutir que a dor é desagradável, mas aceitar o desagradável e entregar-se-lhe sem resistência é o modo para que se torne menos desagradável. O que nos faz sofrer são as nossas resistências à realidade.


in Biografia do Silêncio de Pablo d'Ors (Paulinas, 2015)

Da Literatura, parte vinte e sete

De acordo com Marina Abramović, o contrário do silêncio é o cérebro a trabalhar. A pensar. Se quisermos ter paz, temos de parar de pensar. Não fazer nada. O silêncio é um instrumento que nos ajuda a escapar do mundo que nos rodeia. Se porventura soubermos geri-lo, segundo ela, o silêncio torna-se como «uma cascata dentro do nosso cérebro». Até a electricidade do ar muda quando conseguimos desligar-nos do mundo. Pode durar um período longo de tempo ou apenas uma mera fracção de segundo. O tempo permanece imóvel como tinha descoberto Søren Kierkegaard.


in Silêncio da Era do Ruído de Erling Kagge (Quetzal, 2017)



Diário, parte vinte e dois

Aos trinta e um anos reaprendi a viver. Para ser mais poética, aos poucos, tenho reaprendido a respirar. Intrinsecamente sentia-me exausta, a nível mental e físico, mas nem esse pequeno cansaço me fazia parar. Achava normal, na minha total ignorância, que dormir mais umas horas ou relaxar a ler umas páginas de um bom livro iria atenuar a fadiga que carregava nos ombros. Por isso continuei semanas, meses, talvez tenham sido anos, a correr que nem uma louca. Trabalhava muitas vezes para além das horas estipuladas; fotografava de madrugada só para apanhar a luz perfeita; caminhava quilómetros incontáveis montanha acima julgando que a paz ali me alimentava; embrenhava-me no cinema europeu só para conseguir produzir as melhores críticas; lia avidamente para conseguir descobrir os melhores livros e, assim, organizar os encontros mensais do Clube de Leitura da qual faço parte; escrevia à velocidade da luz textos que rebuscava para além da minha imaginação; ajudava uma Associação sem fins lucrativos e ainda conduzia repetidamente norte-sul e sul-norte sem sequer respeitar os limites de velocidade e o sono que me desencorajava os reflexos. E, ainda assim, estava lá para toda a gente, sempre com um sorriso e o bom humor que me caracteriza. Como conseguia?! Não sei, mesmo o tempo que me fugia por entre os dedos permitia-me levar o meu corpo até ao limite mais improvável. E sentia-me estável, segura, forte, continuava a dar o meu melhor no trabalho e a lutar todos os dias por uma luz que aos poucos se ia extinguindo. Havia tudo mas... não havia nada. Num dia normal, como outro qualquer, acordei em estado de semi-comatose e caí nos braços daquele que tem sido o meu companheiro incondicional neste caminho. Aí parei e, imediatamente, com a minha família ao meu lado, procurei ajuda. Deixemo-nos de hipocrisias, preconceitos e argumentos quadrados. Por vezes, somos nós que precisamos de ajuda, não são só os outros. Deixemos então que nos carreguem, que nos atenuem a dor e nos transmitam o amor que nos é tão essencial. Deixemos os conceitos cliché, as filosofias de bolso e paremos para respirar. Não, não basta dizê-lo, há que fazê-lo. De nada adianta apregoar aos mundo estados mentais zen quando, no nosso íntimo reina o caos. Que sim, que saibamos estar no mundo, mas que, passo a passo, sejamos capazes de também desligar-nos deste mundo térreo onde apoiamos os pés e tenhamos a coragem e a tranquilidade de viver para nós próprios e para o círculo restrito daqueles que estão sempre ao nosso lado. Viver sem olhar para o lado, viver sem disfarces, sem fantasias e sem a ânsia doentia de exteriorizar para que os outros reparem. Não, isso não é viver, é definhar.

Ontem, terminei um dos livros mais bonitos que li nos últimos tempos, Silêncio na Era do Ruído do norueguês Erling Kagge. Este, a primeira pessoa a alcançar os três Pólos (Norte, Sul e o pico do Everest), deambula através de um ensaio que pretende responder a algumas questões pertinentes acerca do silêncio. Logo, no primeiro parágrafo do livro, o autor descreve na perfeição aquilo que pretendi descrever:

Sempre que não posso caminhar, subir a uma montanha ou navegar para longe do mundo, aprendi a desligar-me dele.
Levei algum tempo a aprender. Somente quando percebi que tinha uma necessidade primordial de silêncio fui capaz de partir à sua procura - e, então, soterrado sob uma cacofonia de ruídos de trânsito e pensamentos, música e máquinas, iPhones e carros limpa-neves, lá estava ele à minha espera. O silêncio.


in Silêncio da Era do Ruído de Erling Kagge (Quetzal, 2017)

Da Literatura, parte vinte e seis

E, assim, aos poucos, nesta pausa tão urgente quanto necessária, há filosofias que não bastam descrever, há que seguir. E, da Noruega, surge a poesia que narra por palavras o que o silêncio não está habilitado a expressar.


Com toda esta nossa ânsia de usar novas tecnologias, acabaremos por renunciar à nossa própria liberdade, afirmava Heidegger, deixando de ser pessoas livres para nos tornarmos recursos. Este pensamento é ainda mais pertinente hoje em dia do que quando ele o expressou pela primeira vez. Não nos tornaremos um recurso uns para os outros, infelizmente, mas algo menos apelativo, ou seja, um recurso para organizações tais como a Apple, Facebook, Instagram, Google, Snapchat e o Governo, que estão a tentar mapear-nos a todos, com a nossa contribuição voluntária, de forma a depois poderem vender ou utilizar informação. Cheira a exploração.
A pergunta que Humpty Dumpty faz a Alice no País das Maravilhas ainda é válida: «Quem é que vai ser o chefe - eis tudo.» Tu, ou alguém que não conheces?
Os humanos são seres sociais. Estar acessível pode ser uma coisa boa. Somos incapazes de funcionar sozinhos. No entanto, é importante que sejamos capazes de desligar o nosso telefone, sentar-nos, não dizer nada, fechar os olhos, respirar profundamente um par de vezes e tentar pensar em algo diferente daquilo que normalmente pensamos.
A alternativa é não pensar coisa alguma. Pode-se chamar a isso meditação, ioga, mindfulness ou simplesmente senso comum. Pode ser bom. Pela parte que me toca, a meditação e a prática de ioga dão-me prazer. Também aprendi a praticar algo que se pode considerar um parente próximo desta prática - a hipnose - assim, hipnotizo-me a mim mesmo durante certa de 20 minutos, para descomprimir. Também funciona bem. Todas as tardes, deito-me a flutuar uns centímetros acima da minha cama.
Por vezes, dou por mim a pensar sobre como é que o silêncio poderia ser experimentado sem recurso a nenhuma técnica. Pode-se baixar a fasquia para encontrar o silêncio e o equilíbrio. Não é preciso um curso de silêncio e relaxamento para ser capaz de fazer simplesmente uma pausa. O silêncio pode estar em qualquer lugar, a qualquer momento. Está mesmo à nossa frente. Eu crio-o mesmo quando subo as escadas, preparo a comida ou simplesmente me foco na minha respiração. Sem dúvida que todos somos parte do mesmo continente, mas a possibilidade de sermos uma ilha para nós mesmos é algo que temos sempre connosco.


in Silêncio da Era do Ruído de Erling Kagge (Quetzal, 2017)

Da vida na aldeia, parte sessenta

Cabo Espichel.


A grande importância que a pintura e, em certa medida, a fotografia tiveram para mim tem qualquer coisa que ver com isto. Não continham palavras, nem conceitos, e quando as via, aquilo que experimentava, aquilo que as tornava tão importantes, era também não-conceptual. Era um domínio em que havia qualquer coisa de estúpido, um domínio completamente alheio à inteligência, que eu tinha dificuldade em reconhecer ou aceitar, mas talvez contivesse o elemento mais importante daquilo que eu queria fazer.


in Um Homem Apaixonado de Karl Ove Knausgård (Relógio D'Água, 2015)

Diário, parte vinte e um

Ainda sobre o silêncio e sobre estas noites que antecipam o Outono. Sobre a quietude, depois do jantar, de nos aninharmos um no outro e de nos deixarmos ficar apenas assim, entre as mantas e o conforto dos nossos corpos. Sobre este hábito tão agradável de desligarmos a televisão e, no sossego, cada um pegar no seu livro e caminharmos em dois mundos paralelos que se tocam. Ele, em Nápoles, na Itália, ao ritmo de Elena Ferrante, eu perdida nas ruas de Estocolmo, na Suécia, embalada nas descrições de Karl Ove Knausgård. E ficamos assim, ali, até o sono bater à porta e pedir licença para se instalar. Dispomos ambos os livros na cabeceira e divagamos sobre o que lemos, sobre o que é para nós a Literatura e sobre o espaço que ela ocupa nas nossas vidas. E as palavras sobrepõem-se e o entusiasmo obriga a manifestações exacerbadas sobre a arte da escrita.  E é assim, dia após dia, mesmo quando os olhos se fecham sem tempo para desejar boa noite. Adormecemos profundamente com a certeza do que é o amor.

Diário, parte vinte

Acontece-me repetidamente, tenho diversas ideias para textos ao longo do dia que, passados poucos minutos, se esfumam tal e qual como vieram. Até há algum tempo atrás, tinha como hábito regular trazer sempre comigo um pequeno bloco de notas onde apontava tudo o que me vinha à cabeça, foi depois que tive a péssima ideia de o abandonar, de o deixar à sua sorte pousado entre as dezenas e dezenas de livros que tenho amontoados em cima da secretária no escritório e, foi aí, que todas as palavras se começaram a perder. Num desses textos desamparados numa página outrora em branco, há palavras e descrições sobre o silêncio. Divagações e descrições de algo que, cada vez mais, me preenche: a ausência de som. Depois, numa noite em que passava os olhos por um texto do norueguês Karl Ove Knausgård, deslumbrei-me e as minhas palavras, por aí largadas, já não tinham importância. Aqui, o silêncio, é isso, o nada. O tudo. 


Nada é o que não existe, que não é nada, mas se o escrevermos ou dizemos, existe e é alguma coisa: nada. Silêncio é uma palavra dessas, indica a ausência de som, e não é nada em si. Contudo, raramente vamos até à extrema consequência dessa palavra, mas em vez disso usamo-la para graduar o som, e relacionamo-la com o sossego e o descanso - que paz e que silêncio aqui, dizemos quando chegamos ao campo e o barulho do tráfego desapareceu, ou quando nos sentamos no bosque e todo o ruído da incessante actividade das pessoas está ausente. Tudo o que ouvimos então é o canto dos pássaros e o agitar das árvores pelo vento, a que chamamos silêncio dos bosques. Acontece ser um dia de inverno sem vento, nem isso se ouve. Esse silêncio mexe com a paisagem, e através dela, connosco. Todos os sons são ligados ao momento, pertencem ao presente, àquilo que muda, mas o silêncio está ligado à imutabilidade, em que não existe tempo. É a eternidade, mas também o nada, que são duas faces da mesma coisa. O que significa isto, compreendi-o num vislumbre que tive uma vez quando vi o filme Shoa, sobre o extermínio dos judeus, e um funcionário dos caminhos de ferro contava como numa tarde a estação se enchera de carruagens que tinha dentro judeus deportados, crianças, adultos, velhos, e toda a área ecoava os sons deles nessa tarde. Que tipo de sons ele não disse, mas suponho que deveria ter sido choro de crianças, vozes de mulheres e de homens, passos, gritos, tilintar de pratos, talvez até gargalhadas. Quando voltou cedo na manhã seguinte para o trabalho, as carruagens continuavam lá, mas agora estava tudo em silêncio. Não se ouvia um som. Foi quando ouvi falar desse silêncio que, pela primeira vez, compreendi em que consistiu o Holocausto, num reconhecimento que durou segundos, antes de desaparecer novamente. Muito da vida diz respeito ao som, do barulho dos pés de criança a correr no soalho e dos seus choros e gritos de alegria, até ao som da sua respiração compassada quando dormem. Mas a literatura sobre a vida está mais ligada ao nada e ao inanimado, à noite e ao silêncio, do que normalmente pensamos. As letras não são senão sinais mortos. Nenhum som saiu deste texto enquanto o leste.


in No Outono de Karl Ove Knausgård (Relógio D'Água, 2016)

Da literatura, parte vinte e cinco

Se uma pessoa já viveu muitos anos, a porta é uma evidência. A casa é uma evidência, o jardim é uma evidência, o céu e o mar são evidências, a própria lua, que se suspende sobre os telhados e os ilumina de noite, é uma evidência.
O mundo fala por si próprio, mas não o escutamos, e como já não estamos profundamente nele e o sentimos como uma parte de nós mesmos, é como se ele desaparecesse. Abrimos a porta, mas nada significa, não é nada, é apenas uma coisa que fazemos para passar de um quarto para o outro.
Quero mostrar-te o nosso mundo, tal como ele é agora: a porta, o chão, a torneira e a pia, a cadeira de jardim junto à parede, debaixo da janela da cozinha, o sol, a água, as árvores. Tu irás vê-lo da tua própria maneira, virás a ter as tuas próprias experiências, e a viver a tua própria vida, portanto é evidente que acima de tudo é por minha causa que o faço: mostrar-te o mundo, faz a minha vida digna de ser vivida.


in No Outono de Karl Ove Knausgård (Relógio D'Água, 2016)

Diário, parte dezanove

Um dia, tenho esperança de viver numa sociedade que entenda na perfeição quais as consequências de copiar palavras e fotografias alheias sem indicar os devidos créditos. Tenho, até, alguma expectativa que consigam alcançar que plágio é um acto grave e indecente. Um dia, talvez, essas mesmas pessoas irão compreender que uma cópia é apenas isso, uma cópia. Uma imagem do original que, ainda se conseguindo assemelhar ao mesmo, nunca o irá substituir. Um dia, talvez amanhã, a vida se revele em todo o seu esplendor e a originalidade se transmita como uma doença contagiosa e ocupe um lugar exclusivo em cada um de nós. Porque para tudo há que existir um conceito, no singular. 


A identidade é ser um, e não outro.


in No Outono de Karl Ove Knausgård (Relógio D'Água, 2016)

Da literatura, parte vinte e quatro

No domingo passado fomos à praia, que fica a uma milha daqui, estava um daqueles dias de outono em que o verão se tinha prolongado e invadido tudo de calor e serenidade, ao mesmo tempo que há muitos turistas tinham regressado a casa e a praia estava deserta. Levei as crianças comigo a dar um passeio no bosque, que vem até à orla da praia e que consiste principalmente em árvores de folha caduca, misturadas com um ou outro pinheiro de tronco avermelhado. O ar estava calmo e quente e, no céu de um azul um pouco escuro, o sol declinava pesado de luz. Seguimos por um caminho para o interior, e ali no meio do bosque, estava uma macieira carregada de maçãs. As crianças ficaram tão admiradas como eu, as macieiras são árvores que crescem nos jardins e não em estado selvagem no meio dos bosques. Podemos comê-las, perguntaram elas. Respondi que sim, sirvam-se. Num relance, tão cheio de alegria como de pesar, compreendi o que era a liberdade.


in No Outono de Karl Ove Knausgård (Relógio D'Água, 2016)


A saborear cada frase de mais um magnifico livro do autor norueguês. Desta beleza que reside na simplicidade das palavras.