Diário, parte quarenta e um

Há quem deseje, com todas as suas forças, viajar pelo mundo e congelar os momentos e as pessoas através de uma lente de uma câmara fotográfica. Já eu, que adoro fotografar os mais ínfimos pormenores com que a natureza nos presenteia, só queria conseguir escrever sobre as pessoas. As pessoas da minha infância, as pessoas da aldeia que me viu nascer e as pessoas que todos os dias me inspiram. Escrever sobre pessoas que, de tão simples, são grandiosas. Só queria ser capaz de transformar a memória em poesia. Não é que a fotografia seja uma arte menor comparativamente com a literatura, é só que esta última transporta um romantismo e um legado imortal que as imagens nunca conseguirão alcançar.

Da literatura, parte quarenta

A ideia de que no campo se vai trabalhar menos do que na cidade é o maior engano desta dicotomia. Aquilo de que o campo nos protege é das pequenas tentações do dia-a-dia, que por outro lado constitui aquilo de que muito citadinos arrependidos mais gostam. Julgar que no campo se vai ter menos trabalho e os menos ensejos lúdicos (só que mais baratos), quando no fundo acontece o contrário, é o que leva mais românticos a fazer as malas de volta.
Uma casa de campo nunca está definitivamente pintada, nem reparada, nem sequer limpa. Mesmo que contratemos ajuda: temos de estar presentes, trocar impressões, fazer psicologia, distribuir cervejas. Depois há o jardim, crescendo tresloucado. O cão, que nos vem pôr brinquedos no colo, em busca de folia. A campainha, tocando como louca.
Carteiros, padeiros, peixeiros. Fiéis em peditório para as festas do Espírito Santo e miúdos a vender rifas para a festa da escola e funcionários da Câmara a avisar que vamos ficar duas horas sem água - a campainha do meu portão parece ser a mulher mais amada de Terra Chã. Ainda por cima é um homem: um sino que se puxa com uma corda, como nas igrejas à hora certa.
Depois chega o fim-de-semana e há motoserras, corta-relvas, berbequins. Quase todos os sábados há ao menos um berbequim, ao longo da manhã - e às vezes até é o meu.
O campo também pode ser uma chinfrineira. E tem invejas. E tem mesquinhezes. E castigações, e ignorâncias atávicas, e convenções tontas. O que quer que haja na cidade, também o há no campo, porque se pode fugir de tudo menos do Homem. Até no alto de uma montanha sozinhos, ou mesmo no fundo do mar - até aí ele continuará dentro de nós.
O campo tem a espécie toda sem deixar de ter natureza, exultante e libertadora. O que poderia haver de mais maravilhoso?


in A Vida no Campo de Joel Neto (Marcador, 2016).

Da literatura, parte trinta e nove

Fotógrafo de génio, Salgado bateu no fundo nos anos 90, depois de visitar o Ruanda. Entre o Ruanda e o Holocausto, a diferença é estética. Veio de lá de rastos. Achava que não merecíamos viver.
Sem saber o que fazer, decidiu voltar à velha fazenda do pai, em Minas Gerais. Encontrou-a abandonada, devastada pela seca. Olhou-a longamente. Meteu mãos à obra, reflorestou tudo e, com isso, reergueu-se a si próprio.
Plantou milhões de árvores. Voltou a fotografar. E provou uma coisa. Duas. A primeira foi que, ao contrário de Steiner, há de facto recomeços. E a segunda que, perante a desumanização, só a terra pode salvar-nos.
Voltar a ela. Levantá-la do chão.
À sua maneira exaltada e compassiva, o meu avô intuiu-o. Por isso me deixou esta mata assim, devastada.
Um dia vou levantá-la. Um dia que caia e precise.


in A Vida no Campo de Joel Neto (Marcador, 2016).

Da literatura, parte trinta e oito

Eu defendo-o muito, mas nem sempre se preza como deve ser o silêncio, neste lugar onde vivo agora. É talvez o maior dos seus defeitos: há dias em que o silêncio fere. Felizmente, existe a montanha.


in A Vida no Campo de Joel Neto (Marcador, 2016).

Da literatura, parte tinta e sete

Esta semana, o meu vizinho Rogério, que é continental, descreveu-me assim os Açores: «Um lugar onde nunca se chega e de onde nunca se parte». Quem me dera ter sido eu a escrevê-lo.


in A Vida no Campo de Joel Neto (Marcador, 2016).

Da literatura, parte trinta e seis

Ia começar a melhor parte do seu dia. O instante sublime. A qualidade de vida. Sentara-se num tronco e dispusera sobre um paninho branco uma lata de sardinhas, um pedaço de pão e um tupperware com dois ovos cozidos que a mulher lhe descascara.
Perguntei-lhe o nome. Chamava-se Manuel e referiu-se à mulher como há muito eu não via um homem referir-se.
Torga anda comigo desde o primeiro momento, como um oráculo, e é-me útil. Mas, no dia em que eu deixar de comover-me com um homem que ama a sua mulher e come sardinhas em lata e isso basta-lhe, não terei por onde ir - que venha a negra da gadanha e, por misericórdia, me ponha a salvo da miséria.


in A Vida no Campo de Joel Neto (Marcador, 2016).

Da literatura, parte trinta e cinco

Em Lisboa era difícil ver as estrelas. Eu vinha à varanda com o gin na mão, para impressionar as raparigas, e não encontrava uma que fosse. Creio que foi aí que comecei a dividir as terras entre aquelas em que se pode ver as estrelas e aquelas em que não se pode.


in A Vida no Campo de Joel Neto (Marcador, 2016).

Da literatura, parte trinta e quatro

A Vida no Campo de Joel Neto (Marcador | 2016)


É Verão mas estes anoiteceres assomam abraçados a uma brisa fresca que lembram a chegada do Outono. E o que eu gosto do Outono. Estas palavras que escrevo envolvem a noite enquanto a janela, escancarada, convida o frio a entrar. Aqui ao meu lado encontra-se o livro "A Vida no Campo" do insular Joel Neto e a vontade que tenho em descrever tudo o que li, tudo o que senti ao percorrer as suas páginas é tanta que, nem sei bem porquê, as palavras enrolam-se e tardam em vir. Leio muito, é certo, e como o meu companheiro costuma afirmar, sempre que lhe falo com entusiasmo exacerbado de algum livro que gostei mesmo muito: "todos os livros bons que lês passam a ser os teus favoritos". E não mente. É ali, no momento que, no fim da última página, sinto-me de tal forma arrebatada que só com a leitura de outro livro decente consigo me acalmar. A literatura tem este efeito em mim, nada posso fazer. É que ler, sim, repito, leio muito, mas cada vez são menos os livros que me empolgam. Lembro-me, assim de repente, de um romance do Alain de Botton que, perdoe-me o senhor que até respeito bastante, é tão mau, tão mau nem que nem o consegui terminar. Ainda assim, ou começo a ter um certo requinte na escolha do que leio ou, caraças, tenho uma sorte desgraçada na escolha das obras. E foi o que aconteceu com "A Vida no Campo". Foi através da sua leitura que relembrei, com saudade, a viagem que, em 2016, de mochila às costas e completamente sozinha fiz por cinco ilhas dos Açores. Estava perdida na vida e pensei que lá me reencontraria. Não me enganei, só num pequeno pormenor: deixei um pequeno pedaço de mim no arquipélago. Um desses fragmentos ainda continua na ilha Terceira, cenário do livro do Joel Neto que, após vinte anos a estudar e a trabalhar na capital, decide regressar às suas origens e relatar, em forma de diário, quatro estações passadas na terra da Vitorino Nemésio. E nem foi necessário fechar os olhos para relembrar a minha estadia na Terceira. Comigo levava o "Açores" do João de Melo e foi virada para o Atlântico, com o Monte Brasil nas minhas costas que li as descrições do autor acerca daquela terra. Nesse mesmo dia tinha visitado a Serra do Cume e chovia, chovia imenso em pleno mês de Julho. Refugiei-me no hotel com o livro nas mãos e vislumbrei o mar. Aquele mar azul. Aquele azul que é diferente de qualquer azul que já tenha visto outrora. E o verde, aquele verde. Sim, deixei para trás parte de mim que, um dia, pretendo resgatar, mas, por enquanto vou caminhando nestas ruas de calçada tosca na aldeia onde escolhi viver. É por isto, que me emocionei tanto a ler o livro de Joel Neto, não só porque estive lá, não só porque aquela viagem teve uma importância enorme na minha vida, mas também porque eu decidi ancorar o meu coração no meio rural. Chorei, chorei com um sorriso nos lábios quando o autor descreve, na página 25, as pessoas que dentro dos seus carros, entre as hortênsias, com toda a paciência e respeito do mundo, fazem fila para um pai e os seus dois filhos, com um carro e bois e as suas bezerras, possam passar. Ri, ri imenso na página 50 sobre o homem que no Terreiro vendia um ovo com duas gemas ao preço de dois. Todo o livro é isto, uma comoção tremenda. E se o autor pretendia a mudança da cidade para o campo na ânsia de conseguir escrever um épico talvez, sem o saber, o tenha alcançado. Em tom de brincadeira, mas falando a sério, costumo dizer que desconfio sempre de pessoas que não gostam de ler. Acrescento, desconfio sempre de pessoas que não gostam de ler e de pessoas que até são capazes de ler mas não se comovem.


Do Ti Zé Nogueira não rezará a História. Quem mudou o mundo não foram os camponeses honestos, que pagaram os seus impostos e encheram a igreja da freguesia no dia em que foram a enterrar. Dos aventureiros, dos inventores e dos facínoras - deles, sim, reza a História.
Por isso se inventou a literatura.


Da vida na aldeia, parte oitenta e três

Serra da Lousã | 2018.


Da vida na aldeia, parte oitenta e dois

Coimbra | 2018.

Diário, parte quarenta e um

No passado fim-de-semana, durante uma conversa banal, alguém que me é muito próximo, dizia sem qualquer tipo de preconceito que, ainda que goste da sua vida, se lhe dessem a escolher, obviamente preferia ter a vida das suas amigas, casadas e com filhos. Sorri, ainda que, cá dentro, tenha crescido uma estupefacção encoberta em tristeza. Este tipo de pensamento, por mais que neguemos, é muito comum. Aliás, atire a primeira pedra quem nunca desejou, em determinado momento, trocar de vida com algum amigo ou familiar. Quem nunca, ainda que a vida flua, se sentiu frustrado ao ponto de secretamente desejar que tudo fosse diferente. Por vezes, parece que os outros aparentam estar melhores do que nós, mantendo uma vida mais interessante que a nossa e abrindo a janela para que uma luz permanente entre. E nós, coitadinhos de nós, parece que tudo se encaminha para um precipício, ainda que à noite, antes de deitarmos a cabeça na almofada, percebamos, racionalmente, que este tipo de pensamentos não condizem connosco. Não passam de devaneios e ilusões acerca de pessoas e vidas que nunca iremos (re)conhecer a 100%. Lá bem no fundo, não temos uma vida assim tão miserável como sadicamente tendemos a fantasiar. Quem nunca, afinal?!
Não culpabilizo as pessoas, no singular, pelas reflexões incoerentes porque afinal, somos humanos e nem todos temos a capacidade para controlar a nossa consciência e as nossas emoções. Parte do problema reside na sociedade, no plural, nos estigmas e nas imposições que nos imputam para que possamos viver de forma tranquila e com sentimento de pertença a uma comunidade. Em pleno século XXI, em pleno período de um avanço tecnológico atroz, estabilizamos no que concerne aos preconceitos existenciais. Há que viver segundo a fórmula com que todos os outros vivem, há que caminhar na mesma estrada que terceiros para que, naquela linha, não nos sujeitemos a comentários impróprios e enxovalhamento público. Ao invés de progredir com lucidez, de utilizar as ferramentas da comunicação digital com inteligência não, a sociedade continua a empregar o seu tempo em demonstrar que a felicidade plena é a trajectória a seguir, é a única estrada possível, ainda que não exista alegria alguma, ainda que a direcção seja invisível. Como se tamanhos sentimentos fossem mensuráveis. A mentira apodera-se dos nossos meios jornalísticos, da televisão, dos computadores, dos telemóveis. E poucos são os que a negam, os que a questionam, ou até os que a ignoram e utilizam a sua energia em prol de algo de útil e palpável que simplifique e favoreça o seu próprio ego. Muitos sim, são aqueles que preferem ir atrás do rebanho, chafurdar na fraude ao ponto desta se tornar a sua segunda pele.
É, conforme o brilhante Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço. É a sociedade básica, a sociedade iluminada e do positivismo extremo que coloca livros de auto-ajuda de cordel nos tops de vendas, uma sociedade que não se reconhece nem aceita a si própria, obcecada, numa corrida sem fim, pelos ideiais das vidas dos outros. Uma sociedade doente, não crente, que não sabe viver somente para si, que só sobrevive com base na exuberância e na manifestação de alucinações. Uma sociedade sem valores, sem filosofia, sem cultura. Uma sociedade que recebe tudo o que lhe dão de mão beijada, uma sociedade sem curiosidade, sem conhecimento, sem vontade de beber a riqueza que tantas mentes brilhantes produziram, e produzem.
Neste panorama, cinzento como a presente estação, há algo crucial: a aceitação. A aceitação do que se é e aceitação do que nos rodeia. Nem sempre tudo é emocionante como os romances da época vitoriana, nem tudo parece tão cor-de-rosa como nos filmes mas, sem ceder à inércia, há que acolher o que se tem como o melhor. Confrontar a nossa vida com a vida alheia só transporta ressentimentos e enfermidades. O trabalho mental de reconhecer que sim, somos os melhores, sim, a nossa vida deve ser valorizada, tal como todas as pessoas com quem a partilhamos, é um trabalho árduo. Por vezes é necessário, até, vislumbrar o nosso lado mais negro para que, ali na escuridão, aos poucos, consigamos abrir os olhos e distinguir as sombras à nossa volta. Não é vergonha alguma admitir isto, vergonha é viver dentro de uma fábula. Ou não viver, sequer.

Há uns anos, recordo-me de uma polémica em torno do actor Keanu Reeves. Tudo porque o mesmo era avistado diversas vezes deslocando-se no metro em Nova Iorque e foi fotografado a comer uma sandwich tranquilamente num banco do parque. A fotografia circulou de forma viral na internet, dando lugar a memes que se intitulavam Sad Keanu. O actor, cujas origens e momentos trágicos já foram espremidos ao máximo pela comunicação social, questionado acerca deste movimento apenas encolheu os ombros e afirmou: You need to be happy to live, I don't.


The simple act of paying attention can take you a long way.

Da vida na Aldeia, parte oitenta e um

Coimbra | 2018.


Da Literatura, parte trinta e três



Correndo o risco de dramatizar demasiado a condição humana, já viu o filme Matrix?
É sobre um tipo chamado Neo (representado por Keanu Reeves), que descobre que vive num mundo imaginário. A vida que julgava viver é, na verdade, uma alucinação elaborada. Está sob o efeito dessa alucinação enquanto, sem que tenha noção,  o seu corpo físico se encontra numa cápsula, do tamanho de um caixão, cheia de um líquido pegajoso - uma de muitas cápsulas, entre fileiras incontáveis delas, cada uma contendo um ser humano alheado num sonho. Essas pessoas foram colocadas nas cápsulas por mestres robóticos e receberam vidas imaginárias para se entreterem.
No filme, a escolha com que Neo se depara - continuar a viver numa ilusão ou acordar para a realidade - é representada pela famosa cena do «comprimido encarnado», Neo foi contactado por rebeldes, que entraram no seu sonho. O seu líder, Morpheus (representado por Laurance Fishburne), explica-lhe a situação: «És um escravo, Neo. Como todos os outros, nasceste em servidão, numa prisão que não podes provar, ver ou tocar - uma prisão para a tua mente.» A prisão chama-se Matrix, mas não há forma de explicar a Neo o que realmente é. A única maneira de ver o contexto total, segundo Morpheus, é «ver por si mesmo». Oferece dois comprimidos a Neo: um encarnado e um azul. Neo pode tomar o azul e voltar ao seu mundo imaginário, ou tomar o encarnado e romper o véu da ilusão. Neo escolhe o comprimido encarnado.
É uma escolha muito explícita: uma vida de ilusão e cativeiro ou uma vida de conhecimento e liberdade. De facto, é uma escolha tão radical, que se parece mesmo adequar a um filme de Hollywood - as escolhas que realmente fazemos quanto ao modo como vivemos são menos cruciais, mais corriqueiras. Porém, quando o filme estreou, várias pessoas consideraram que representava uma escolha que elas próprias haviam feito.
As pessoas a que me refiro são chamados «budistas ocidentais» (...) que, na sua maioria, não nasceram budistas, mas que a determinado momento adoptaram o budismo. Pelo menos, adoptaram uma versão do budismo, uma versão que fora expurgada de alguns elementos sobrenaturais típicos do budismo asiático, nomeadamente a crença na reencarnação e em várias divindades. Este budismo ocidental centra-se numa vertente prática da prática budista que na Ásia é mais comum entre os monges do que entre os leigos: meditação, a par de uma imersão na filosofia budista.
(...)
Esses budistas ocidentais, muito antes de terem visto o filme Matrix, haviam chegado à conclusão de que o mundo como o viam outrora era uma espécie de ilusão - não uma alucinação total, mas uma imagem deturpada da realidade que, por sua vez, deturpava a sua abordagem à vida, com consequências nefastas para si mesmos e para as pessoas que os rodeavam. Graças à meditação e à filosofia budista, sentiam que viam o mundo de forma mais clara. Para essas pessoas, Matrix parecia uma alegoria adequada para a transição que haviam vivido e, consequentemente, passou a ser conhecido como um «filme darma». A palavra «darma» tem vários significados, incluindo os ensinamentos de Buda e o caminho que os budistas devem percorrer em resposta a essa doutrina. Na sequência de Matrix, a afirmação «eu sigo o darma» passou a ser substituída por «eu tomei o comprimido encarnado».


in O Budismo tem Razão de Robert Wright (Nascente, 2018).

Da Literatura, parte trinta e dois

Não procurava conforto, mas inquietação. Não procurava a ordem que fora programado para ver e compreender, mas a dissolução dessa ordem. Não se voltou para a arte para receber, mas para ver. Não conseguia imaginar-se a usar a palavra «recompensadora» a propósito de uma obra de arte - por exemplo, que livro tal e tal me deu muito, aprendi muito com ele, etc., etc., etc. -, mas pensava solenemente que a obra o iluminara, o levara a ver, com cinismo e sem falsas esperanças, de maneira que se sentia vivo, algo que os jovens têm amiúde dificuldade sem sentir claramente e que com grande facilidade os torna desajustados.


in A Noite do Professor Andersen de Dag Solstad (Cavalo de Ferro, 2018).

Diário, parte quarenta

Jean-Louis Lebris de Kerouac (1922 -1969)


Americano com descendência canadiana, Jack Kerouac, Bill para os amigos, foi percursor, juntamente com William Burroughs e Allen Ginsberg, da Geração Beat, embrião do que viria a ser a geração hippie. Através da literatura, e outras artes, influenciou a cultura de uma geração que fervilhava. Com o seu romance "On the Road", uma auto-biografia onde relata as peripécias e as suas aventuras ao lado de Neal Cassady pela costa dos EUA, além de ter alcançado uma repercussão nacional e internacional para lá do que imaginava, distanciou-se em definitivo dos padrões impostos pelo New Criticism. Apelando à liberdade e à espontaneidade, ainda que com uma educação conservadora e católica, Kerouac irá ceder aos vícios da época juntamente com os seus fiéis companheiros. As drogas e o álcool ditaram o seu fim. Mesmo tendo partido tão cedo, ainda hoje é uma verdadeira inspiração, tendo sido o criador de obras que, para qualquer amante da literatura e da natureza, continuam a servir de influência. Amante da mãe-terra e da filosofia budista, foi um homem que, sob o efeito ou não de estupefacientes, demonstrou ser dotado de uma espiritualidade e sensibilidade singulares. Afinal, quem seria capaz de escrever, se não ele, Big Sur e Os Vagabundos do Dharma?!


I was surprised, as always, by how easy the act of leaving was, and how good it felt. The world was suddenly rich with possibility.

Diário, parte trinta e nove

Rubem Alves, o famoso teólogo, filósofo ou psicanalista, como lhe queiram chamar, escreveu um dia um livro, que não tendo lido na integra, retirei dele algo muito importante: o sofrimento, como a felicidade, é uma condição passageira, não permanente, cabendo-nos a nós, meros seres pensantes, saber relativizar os instantes negros e apreciar com intensidade os períodos luminosos. Encarar com modesta compreensão que a vida é composta por isso, momentos, e somente com um trabalho mental árduo conseguiremos caminhar de cabeça erguida perante as adversidades e os imprevistos, positivos e negativos, que se atravessam perante nós como autênticos pedregulhos. O livro que falo é Ostra Feliz Não Cria Pérolas. E não, não é um mero e estupidificante livro de auto-ajuda repleto de clichés, é sim um desenrolar de pensamentos deveras interessantes acerca da nossa essência enquanto humanos. O brasileiro pega num exemplo simples de um molusco bastante apreciado entre a fina flor para relatar que as ostras são bastante frágeis, tendo evoluído no sentido de "construir" as suas conchas para se protegerem dos predadores. Ainda assim, envoltas numa armadura quase impenetrável que lhes possibilitava viver sem grandes distúrbios, também elas sofriam quando um pequeníssimo grão de areia lhes penetrava na sua humilde casa e lhes lacerava a carne. Mas as ostras não desistiram e aprenderam que os pequenos grãos podiam transformar-se em algo extraordinário e, assim, trabalharam penosamente ao ponto de produzirem pérolas. Conseguiram transformar a dor em beleza. E é por isso que Rubem Alves sublinha que a beleza não elimina a tragédia, porque afinal, hipocrisia aparte, uma tragédia é isso mesmo, mas a beleza, na sua plenitude, tem o poder de converter a dor em algo suportável, em algo menor. Conclui que a felicidade, o bem-estar, é um dom gratificante e quando estes ciclos nos invadem, devemos apreciá-los com sensatez. No entanto, não é a beleza, não são sequer os momentos de luz que produzem pérolas, são sim as etapas cinzentas. São na verdade os sofredores que pintam as nossas vidas com as cores do arco-íris e nos atenuam a angústia. São os que sofrem que produzem a beleza, para deixar de sofrer. Falo daqueles que têm a faculdade e a excelência para criar arte: pintores, escritores, músicos, fotógrafos e tantos outros.

Mark Manson, numa dada altura do seu livro A Arte Subtil de Saber Dizer que se Foda, dita:

Existe uma premissa que subjaz a uma série de princípios e crenças. A premissa é que a felicidade é algorítmica e que se pode trabalhar para ela, conquistá-la e concretizá-la como se estivéssemos a candidatar-nos à faculdade de Direito ou a montar uma construção de Lego particularmente complicada. Se eu conseguir X, então poderei ser feliz. Se tiver a aparência Y, então poderei ser feliz. Se puder ser uma pessoa Z, então poderei ser feliz. A felicidade não é uma equação resolúvel. A insatisfação e o desconforto são partes inerentes da natureza humana e componentes inerentes à criação de felicidade consistente. Buda defendeu esta ideia com argumentos teológicos e filosóficos.

E acrescenta:

O rico sofre por causa das suas riquezas. O pobre sofre por causa da sua pobreza. As pessoas sem família sofrem por não terem família. As pessoas com família sofrem por causa desta. As pessoas que procuram os prazeres terrenos sofrem por causa dos prazeres terrenos. Aqueles que se abstêm dos prazeres terrenos sofrem devido a esta abstenção. Isto não quer dizer que todo o sofrimento seja igual. Há sofrimento mais e menos doloroso. No entanto, todos temos de sofrer. (...) para mim a revelação prática é aceitar a ideia de que teremos sempre de sofrer alguma coisa - façamos o que fizermos, a vida é composta de fracassos, perdas, remorsos e até morte. Porque uma vez que nos sintamos confortáveis com toda a merda que a vida nos atira (e, acredite, será muita), tornamo-nos invencíveis a uma espécie de nível espiritual básico. Afinal, a única maneira de ultrapassar a dor é aprender a suportá-la. 

E por último:

Brincamos online com os «problemas do primeiro mundo», mas a verdade é que nos tornámos vítimas do nosso sucesso. Nos últimos anos dispararam os problemas de saúde relacionados com o stress, as perturbações de ansiedade e os casos de depressão, apesar de toda a gente ter um ecrã plano e receber as compras do supermercado em casa. A nossa crise já não é material; é existencial, é espiritual. Temos tanta tralha e tantas coisas e oportunidades, que já nem sabemos a que dar importância. (...) Postamo-nos diante do espelho afirmando repetidamente que somos belos, porque sentimos que ainda não somos belos. Seguimos conselhos de relacionamento, porque achamos que ainda não merecemos ser amados. Tentamos exercícios patetas de visualização em que somos mais bem-sucedidos, porque sentimos que ainda não temos sucesso suficiente. Ironicamente, esta fixação no positivo - no que é melhor, no que é superior - apenas serve para nos recordar constantemente aquilo que não somos, aquilo que nos falta, aquilo que devíamos ter sido mas não conseguimos ser. Afinal, uma pessoa realmente feliz não sente necessidade de se postar diante de um espelho a entoar que é feliz. Apenas é.


E é por isto que a piedade, tantas e tantas vezes aclamada por Buda, é essencial. Porque esta reflexão advém da minha mania comum da observação de lupa em punho. E sinto verdadeira clemência por aqueles que ainda não atingiram a maturidade suficiente para entender que, porra, a vida é mesmo assim. Há o que vale a pena, há o que não vale. Há o que tem importância, há o que não tem. Há quem tenha relevância, há quem não tenha nenhuma. Há que aceitar o que se tem, mesmo aquilo que por vezes nos parece tão pouco comparativamente com o tesouro escondido do vizinho do lado, e agradecer. Porque, afinal, sabemos tão pouco acerca da nossa vizinhança e talvez não consigamos entender que, até eles, também têm os seus problemas. Viver para nós, para os nossos, e não entrar no circo vergonhoso de prejudicar os outros com a esperança utópica de que a dor e as lágrimas alheias serão capazes de atenuar o desencantamento perante a vida. Não. Há que criar beleza, apenas.

Diário, parte trinta e oito

Agora a chuva acalmou dando lugar a uma luz forte no horizonte que, provavelmente daqui a uma hora, se extinguirá. Mas, hoje, durante praticamente todo o dia choveu, choveu sem piedade. Hoje, dia da despedida de mais uma amiga, uma querida amiga. Até o céu, esse, chorou. Nas últimas três despedidas a amigos queridos que o céu desabou sobre nós, algum simbolismo creio que tenha. E esta, uma mulher tão jovem, tão cheia de garra, tão repleta de força e esperança e, ainda que o cansaço da doença já exercesse o seu peso, o sorriso esteve sempre presente. É sempre um choque, esta coisa chamada morte, paralisa os nossos músculos, enrola na língua as poucas palavras que se podem dizer e cega-nos a vista com lágrimas que teimam em descer pelo rosto. É um beco sem saída. Eu, tal como a família e os amigos, saímos de cabeça baixa do nosso local de trabalho. Conduzimos e os minutos não avançavam. Nos poucos quilómetros que faltavam para que finalmente tenha tido coragem para tocar à campainha da sua morada, as entranhas dentro de mim revoltaram-se e a garganta deu um nó. Mãe, mãe, mãe. Tu, uma das suas grandes amigas, porque é que tens que ficar presa no hospital sempre nestes dias?! Precisava de ti agora, aqui comigo, como vou enfrentar uma família assim?! Sabes que nunca fui boa a enfrentar a dor dos outros. Mãe! Estes foram os meus últimos pensamentos antes de estacionar o carro e finalmente bater à porta que se encontrava entreaberta. Ana, oiço, Ana, Ana. E não é preciso dizer mais nada. Restam os abraços, daqueles que até doem e fazem mazelas nas costas, resta que se perceba que perante tamanha perda, nós, todos juntos, estamos ali. E basta, não há palavras sequer. E não há frases bem estruturadas que possam descrever esta mulher que partiu. Não é um cliché, não há. Esta mulher teve um sonho, um simples sonho, construir uma família e ser feliz. Parece simples não é?! Casar, ter filhos e saborear o dia-a-dia. Mas não foi, de todo. Foram muitos os obstáculos, demasiados até. Não consigo nomeá-los por uma ordem cronológica correcta, ainda que os tenha ouvido tantas vezes. Um cancro vencido, uma obrigação de mudar para um país frio e rodeado de montanhas, um casamento traduzido em violência doméstica, a doença sempre presente e, depois, o divórcio. E no meio dum turbilhão de uma vida que muitos considerariam falhada, aparece um anjo da guarda que a carrega nos seus braços. E o sonho, esse, o sonho que outrora fora idealizado, concretiza-se, mesmo com a eterna enfermidade sempre presente. Foi uma vida de luta, de sacrifícios, mas tudo em prol de uma ambição. Regressar à pátria. E regressou. E de um casebre construiu uma pequena mansão rodeada de flores e aumentou a família: um gato (o célebre fugitivo Tommy que com uma preciosa ajuda lhe consegui devolver) e um cão (também o célebre cãozinho que abandonaram à porta dos meus pais no primeiro dia do ano), os quais amava imensuravelmente. Nós, que sempre vivemos na nossa terra, temos uma certa mania de apontar o dedo a alguns emigrantes, que regressam apenas para expor a riqueza que acumularam ao longo dos anos, que sofrem do mal das grandezas, etc. A eles, a ela, nunca vi tal coisa. Pelo contrário, vi simplicidade, vi verdade, vi seres de um coração enorme que se instalaram onde pertenciam com um propósito: cumprir a promessa que esboçaram outrora, reencontrar a felicidade em paz.

Mesmo que a doença a tenha levado, mesmo que tenham sido meses tortuosos, quem, a ti, diz-me, quem se pode gabar de ter conseguido, em sessenta anos, realizar um sonho?! Quase ninguém, só os afortunados. E mesmo que tenham sido demasiadas as caminhadas entre corredores de hospital, mesmo que o desespero tenha sido constante, mesmo que as pedras no caminho tenham impossibilitado tantas e tantas coisas que ainda querias viver, sublinho, foste uma afortunada. A alegria do amanhã nunca te abandonou, conheceste o verdadeiro amor, um amor verdadeiro e puro que tantas vezes presenciei nos olhos do teu marido e da tua filha que, vinda do país da neve, ainda te segurou a mão quase no teu último suspiro. São pessoas como tu E., pessoas como tu, que nos inspiram para continuar a viver. Irei recordar sempre o teu sorriso, sempre, mesmo quando sentada na tua cadeira de rodas apenas admiravas as flores do teu jardim. E assim foste, cheia de luz, rodeada delas.

Minha querida, olha por nós aí em cima que nós cuidamos dos teus aqui em baixo.

Da Literatura, parte trinta e um

A Magia do Silêncio de Kankyo Tannier (Arena, 2018)


Silêncio e solidão combinam na verdade, como duas vozes que criam, juntas, uma terceira, de ressonância infinita.
Para alguns, estar só representa o Graal, ou até o sonho absoluto! Penso naquelas mães de família que apagaram essa palavra do seu vocabulário. «Estar só? Para ler ou ouvir música? Sim, fazia isso quando era estudante, mas nessa altura...» Para outros a solidão é algo a evitar a todo o custo: não querem estar a sós consigo próprios, com receio de que isso os deprima. A vida dessas pessoas é uma sucessão de festas, passeios, aventuras. Qualquer coisa é melhor do que voltar para casa ao fim do dia para um apartamento vazio.
Em ambos os casos, tudo é - como sempre - uma questão de perspectiva. Uma pessoa entrará em casa, descalçará os sapatos e sentar-se-á no sofá, suspirando de felicidade e alívio. Uma outra deixará as crianças na escola e desfrutará do caminho de regresso, caminhando devagar, saboreando a calma... Sós, sob a luz.
O silêncio gosta muito de se manifestar na solidão. Por «solidão» entendemos essa sensação de estarmos ligados a nós próprios. De termos latitude, espaço, tempo para estarmos em contacto com a nossa intimidade mais serena. (...) solidão consentida, de um confortável olhar para dentro de nós, capaz de nos alimentar antes de regressarmos ao mundo. Uma solidão voluntária, procurada, na qual a aprendizagem se faz muito mais depressa.
(...)
Por vezes, basta programarmos algumas horas «sem fazer nada», como momentos roubados, para aprendermos a estar sós e a desembaraçar nas margens soalheiras do nosso verdadeiro eu, que é muito mais vasto do que poderíamos imaginar. 


Meia hora de meditação diária. É o que basta para começar, devagarinho.

Da vida na aldeia, parte oitenta

Madeira | 2018.

Diário, parte trinta e sete

O que é a depressão? A resposta é simples e concisa: é uma doença. E uma doença gravíssima.
Em Portugal, morrem todos os anos cerca de mil pessoas por suicídio. No Reino Unido, cerca de cinco mil e quinhentas. A depressão é das doenças que mais matam a nível mundial.
A estigmatização e a falta de apoio conduzem muitas vezes os doentes depressivos ao suicídio.
É urgente que as pessoas entendam, pelo menos, que a depressão é uma doença tão legítima como um tumor ou um hipertiroidismo. Que é do foro fisiológico que afecta o mental. Que destrói vidas, carreiras, famílias e possibilidades. Que não é uma invenção de quem sofre.
Quando alguém diz «tenho uma pericardite» ninguém duvida da doença. Foi diagnosticada pelo cardiologista. Há uma preocupação comum em saber se está medicado e se está tudo a correr bem. É normal perguntar ao doente o que disse o médico e qual o plano de tratamento.
Na depressão não é assim. É uma doença dos que vivem no submundo, dos fracos, dos malucos, dos indesejáveis, daqueles que só fazem dramas e causam problemas. É com esta estigmatização que muitos doentes têm que conviver. No trabalho, nas escolas, na família. Castigados pelos virtuosos santos pecadores, vítimas de tiranias das verdades e da ignorância crónica e abominável.
Vêm-me à memória umas palavras que li numa entrevista com o Prof. João Marques Teixeira, presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental:
«Um doente mental não é tratado, por exemplo, como um doente hipertenso ou um doente diabético. Para mim, essa é a génese do estigma. O doente mental é considerado um deficiente, enquanto o diabético é considerado um doente.»
Quando alguém diz «tenho uma depressão, não consigo» (aqueles que se atrevem), sabe que está numa roleta-russa entre a aceitação e o desdém dos autoproclamados civilizados. Até muitos dos mais compreensivos preferem olhar para o outro lado.
Não há uma preocupação normal em saber o que disse o médico. Se tomar medicação, pior ainda. Dizem que esses comprimidos só fazem mal e são para malucos. Se respondem que foram receitados por um psiquiatra, a objecção não diminui: «Esses são todos doidos e só lidam com malucos». A psiquiatria é para muitos a especialidade do submundo, de bruxos com magias negras e poções venenosas.
É com este tipo de civilização que muitos dos doentes com depressão têm que coabitar.
Transformados em bodes expiatórios, não só lutam contra a sua doença, mas também com a discriminação. E esta, mais uma vez, vem de todos os lados. Dos amigos, do local de trabalho, da família, da escola. Muito preferem sofrer em silêncio. Muitos morrem em silêncio.


in A Vida é Um Sopro de Miguel Mealha Estrada e António Coimbra de Matos (Oficina do Livro, 2018)