Da vida na aldeia, parte um

Nunca me debrucei a sério sobre poesia. Sim, admito, é uma falha para alguém que, como eu, declama aos sete ventos amar literatura. Quando escrevo "a sério", é ler por ler. Ler e, na maioria das vezes, não me esforçar por compreender. Conheço alguns poetas, na sua maioria portugueses e, aos poucos, tendencialmente contrariando esta enércia, vou pegando num ou noutro livro que me desperta a atenção. Lendo e relendo com afinco autores que souberam cantar a natureza, por estes dias, dei por mim a pegar no O Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro. Mal tinha passado o primeiro poema e, com o livro contra o peito, estremeci. O Mestre de Pessoa e de todos os outros heterónimos, o poeta da natureza, o indissociável homem do campo. A perfeição, afinal. Dos quarenta e nove poemas que compõem esta obra, talvez me identifique com quarenta e me reveja naquilo que, um dia, pretendo ser. Sentir e não pensar. Absorver e contemplar, apenas. Porque a natureza é o que é, apenas e só, natureza.


Miradouro da Ponta do Sossego, Nordeste - São Miguel, Açores - Julho de 2016.


(...)

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar... 
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...


in O Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro (Poemas Escolhidos, Assírio e Alvim - 2013)