Da literatura, parte um

Os Frutos da Terra - Knut Hamsun (Cavalo de Ferro, 2016)


Talvez não exista satisfação maior para um amante de literatura que, após recomendar um livro a alguém, essa mesma pessoa nos diga, com franqueza, que determinada obra foi capaz de lhe mudar a vida. Mudança não no sentido literal da palavra, é certo, mas sim no seguimento do poder indiscutível que a literatura, enquanto arte, possui na desmistificação de pensamentos e opiniões. Daí que, há uns dias atrás, aquando de um pequeno apontamento acerca do quão bom tinha sido percorrer as páginas de Os Frutos da Terra do Prémio Nobel da Literatura Knut Hamsun, me tenham admitido que o meu conselho tinha superado todas as expectativas, não deixei de sentir uma pontada de orgulho. Até porque não recomendaria Knut Hamsun a qualquer pessoa. Este norueguês, a bem da verdade, não é fácil de ler, os seus livros não têm como objectivo único possuir um princípio, um meio e um fim, mas sim descrever momentaneamente, com uma sensibilidade singular, histórias de personagens marcantes. Assim foi em Fome, um dos melhores livros que já alguma vez li, e assim também o é em Os Frutos da Terra.
Neste enorme épico da vida rural, figura Isak, um homem rude, sem passado, cuja força e perseverança de retornar ao meio rural, a uma vida afastada da modernidade, se revelam o tema central da obra. Arregaçando as mangas, sujando as mãos na terra fria e inóspita do norte da Noruega, este homem, em plena comunhão com o verde, irá superar todas as dificuldades e obstáculos. Primeiramente só, depois criando uma família e um estilo de vida que, pelo menos para mim, é de invejar. Uma descrição encantadora do amor de um homem pela natureza que, através da força do seu trabalho árduo, numa desesperada fuga a uma sociedade cada mais corrupta e superficial, irá encontrar a tranquilidade num recanto da floresta.