Da literatura, parte cinco

A água que não corre, empoça, apodrece e cheira mal. Mas também apodrece e cheira mal toda a vida que não flui. A nossa vida só é digna deste nome quando flui, quando está em movimento. Contudo, tanto por cobardia como por preguiça, ou até por inércia - embora quase sempre seja o medo o que mais nos paralisa -, todos tendemos a ficar quietos e, mais ainda, a nos encastelarmos. Encerrar-se num castelo é não só ficar quieto, mas também dificultar qualquer movimento futuro. Procuramos trabalhos que nos dêem garantias; casamentos que nos tranquilizem; ideias firmes e claras; partidos conservadores; ritos que nos devolvam uma sensação de continuidade... Buscamos casas protegidas; sistemas de saúde bem cobertos; investimentos com o mínimo risco; procuramos estar seguros de tudo... E é assim que o rio da nossa vida vai encontrando obstáculos no seu curso, até que um dia, sem aviso prévio, deixa de fluir. Respiramos, sim; mas, frequentemente, estamos mortos. Não sobrevivemos a nós mesmos: há «bio-logia», mas não há «bio-grafia».


in Biografia do silêncio de Pablo d'Ors (Paulinas, 2014)