Da literatura, parte quatro

Por isso, creio que para escrever, como para viver ou amar, não nos devemos pressionar, mas libertar-nos; não nos devemos reter, mas desprender-nos. A chave de quase tudo está na magnanimidade do desprendimento. O amor, a arte e a meditação, pelo menos estas três coisas, funcionam assim.
Quando digo que convém que estejamos soltos ou desprendidos, refiro-me à importância de confiar. Quanto maior confiança tivermos em alguém, tanto melhor podemos amá-lo; quanto mais o criador se entregar à obra, tanto mais ela lhe corresponderá. O amor - como a arte ou a meditação - é pura e simplesmente confiança. E prática, evidentemente, porque também a confiança de exercita.


in Biografia do silêncio de Pablo d'Ors (Paulinas, 2014)