Da literatura, parte seis

O Pintassilgo - Donna Tartt (Presença, 2014)


Há livros que não podem, nem devem, ser resumidos ou contextualizados, apenas, através da sua sinopse. Há obras que fazem juz à palavra Literatura, às quais é impossível atribuir apenas um ou dois adjectivos, ainda que os mesmos sejam o supremo da arte. O Pintassilgo, dentro das suas quase 900 páginas, basta apenas àqueles que têm a coragem de se embrenhar nas suas páginas. Chamem-lhe egoísmo: há livros que só podem ser compreendidos por aqueles que se perdem neles.


Que a vida - para além do mais que possa ser - é curta. Que o destino é cruel e talvez não aleatório. Que a Natureza (ou seja, a Morte) ganha sempre, mas isso não quer dizer que tenhamos de lhe baixar a cabeça e a bajular. Que, mesmo que talvez nem sempre nos sintamos contentes por estarmos aqui, a nossa tarefa é mergulhar, de qualquer maneira: passar a vau por ela, pela cloaca, com os olhos e o coração abertos. E no meio do nosso processo de morte, enquanto nos erguemos do orgânico e voltamos a afundar-nos ignominiosamente no orgânico, é uma glória e um privilégio amar aquilo que a Morte não toca.


São estas as últimas palavras que figuram no livro O Pintassilgo. São estas frases brilhantes que, dentre tantas outras, concluem a obra vencedora do Prémio Pulitzer. São estas sílabas, encavalitadas umas nas outras que, neste diamante em bruto que demorou mais de dez anos a ser escrito, me sabem a fim.