Da literatura, parte catorze

A casa estava de novo cheia e isso deixava-o contente. Mas, ao mesmo tempo, o conjunto de memórias, de tudo o que tinha vivido, de tudo o que tinha perdido por não ter compreendido que cuidar não é só pôr comida na mesa, dia após dia. Ou que para tomar conta dos outros, às vezes temos de parar, abrir-lhes apenas os braços e ficar ali, sem fazer nada. Só a deixar que as nossas mãos acariciem as suas; a tocar os cabelos fininhos e macios de criança antes que eles espessem e nos digam que já não precisam das nossas mãos. Rir com eles. Ser amado e amar. Só isso. Ou não deixar que a necessidade de abrir o ventre da terra, ciclicamente, se torne numa obsessão. O vício que tudo cega. A terra dá e a terra tira. Porque a terra espera também o dia em que será vencedora sobre o corpo físico do homem. Nela entrará a sua carne ou pousarão as suas cinzas.


in Eu sou a Árvore de Possidónio Cachapa (Companhia das Letras, 2016).