Da literatura, parte dezasseis

Eu sou a Árvore, Possidónio Cachapa (Companhia das Letras, 2016)


Até Junho do ano passado, por altura da saída deste livro no mercado, desconhecia o autor Possidónio Cachapa. O design da capa, num primeiro contacto, comprou-me de imediato. As aparências, neste caso particular, não enganaram e a imagem que lhe dá corpo faz jus ao conteúdo.
Eu sou a Árvore podia servir de argumento ao filme The Tree of Life de Terrence Mallick, tal são as coincidências a nível da narrativa e da construção das próprias personagens. E, ainda que o citado filme seja de uma sensibilidade atroz, ainda que por altura do seu visionamento me tenha marcado imenso, os livros transportam em si uma maior competência no que respeita à memória. Dentre tantos e tantos livros que tenho lido e relido, esta foi talvez uma das histórias mais tristes e melancólicas pela qual passei os olhos. Até me é difícil descrever o que senti página após página, tamanha angústia me percorreu. A escrita de Cachapa é simples, demasiado simples até e, ainda assim, capaz de penetrar no poros da pele, passar por entre a epiderme, a derme e, posteriormente a hipoderme e, devagarinho, atravessar as veias e incluir-se na corrente sanguínea.
A história, tal como a técnica, é elementar: um conto que vai desde os tempos da ditadura até à abertura das portas da liberdade. Uma família citadina lisboeta composta por cinco elementos que, por vontade do patriarca, se desloca à força para um monte alentejano, tendo como objectivo primordial o cultivo da terra como forma de subsistência. Ali, longe de um mundo à qual, na sua maioria, sentem não pertencer, a felicidade é primordialmente posta em causa. E é nesta busca incessante pelo bem-estar, nesta euforia desabitada pelo contentamento, que o autor dá voz a todos os protagonistas desta trama. Não se tendo limitado a descrevê-los e colocá-los nos diversos cenários, Possidónio deu-lhes corpo e o dom da palavra. É por isso que tudo neste livro é tão real, tão verdadeiro, é como assistir à peça da Terrence Mallick contada através da voz de um alentejano. E nós, enquanto leitores, somos forçados a sentir tudo na primeira pessoa, mesmo sem querer, somos obrigados a isso. Sadicamente aceitamos de boa vontade a amargura, abrimos-lhe os braços e aconchegamo-la no nosso peito. E ela ali permanece, parágrafo após parágrafo, folha após folha. Uma fusão entre os membros que constituem um tronco e as raízes que suportam os caules. Uma simbiose perfeita entre o Homem e a Natureza.