Da vida na aldeia, parte trinta e dois

Vila Nova de Famalicão, Janeiro de 2017.

Todas as árvores caminham sobre o Tempo, sobre a passagem das estações, porque nenhum outro movimento lhes resta. Existem, simplesmente, dividindo-se entre o corpo visível que se estende à luz e o corpo inferior que vive de forma encoberta.
Os seus frutos, contudo, são esperanças perdidas, Verão após Verão. Imagens do desejo de poder ser mais do que braços a estender-se ao céu, ao vento, à impiedade dos pássaros. Da vontade que todo o corpo, o poderoso corpo, pudesse sair da terra, com duas pernas móveis, e a fizesse estremecer de medo quando uma delas voltasse a pousar na superfície.
«Toma os meus frutos, com os meus filhos dentro, que são eu, na forma primitiva, e faz de mim um ser que corre», pedem as árvores aos deuses, na sua súplica.
Mas estes ficam calados no silêncio compadecido que os deuses guardam para os homens e árvores. O calar forçado de quem sabe que a cada um de nós cabe apenas o seu destino. Os deuses apenas passam a mão sobre os grandes corpos vegetais, enviando-lhes a chuva manda que os dessedenta e reconforta.
Sob o chão húmido de cada árvore vivem milhares de sementes que nunca subirão à superfície. Guardam-se em potência para um tempo que talvez possa chegar. Para os dias em que todas as coisas poderão nascer e prosperar lado a lado, quais irmãs. O momento em que sobre a Terra viverão apenas as plantas do mundo.
E, então, do Espaço que nunca atingirão, será possível ver apenas as águas e uma mancha imensa, verde e acolchoada.

A terra de todas as árvores.


in Eu sou a Árvore de Possidónio Cachapa (Companhia das Letras, 2016).