Diário, parte sete

António Lobo Antunes.


Não é uma questão de escolha ou preferência, é um facto. António Lobo Antunes será sempre o meu Mestre. Ainda adolescente, sem obras a assinalar na minha humilde biblioteca, li Memória de Elefante e pasmei. Depois, Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno. E por ali fiquei, li-o, reli-o. Ri, chorei. Fui sendo, ao longo dos anos, desafiada a ler obras cada mais complexas mas, ainda assim, mais descomplicadas, verdadeiras. Foi através da sua figura de esquerda, sem filtros, através da sua consciência acerca das pessoas e da vida que o defendi acerrimamente sempre que me defrontava com alguém que dizia que não conseguia ler os seus livros. Demasiado difíceis, como se a língua portuguesa fosse algo simplório. Defrontei-me, até, em pleno campo de batalha quando alguém, da equipa inimiga, me afirmava que preferia Saramago a Lobo Antunes. Tamanho ultraje, impensável.
A este homem devo muito. Demasiado. Não bastava me ter presenteado com aquilo que hoje consigo definir como Literatura, como também me deu a conhecer autores como Cormac McCarthy, Lev Tolstói, Joseph Conrad e, mais recentemente, Joseph Mitchell. Foi ele que, na sua espontaneidade, me demonstrou que as palavras não bastam, que as obras primas são compostas muito para além das letras que compõem os textos. Foi ele que me transmitiu a rudeza do espírito, a claridade do pensamento, a liberdade de escolha.

Foi ele, o António, o militar, o médico psiquiatra, o escritor, a quem mais devo. E há dividas, neste departamento infindável que é a Arte, utopicamente impossíveis de saldar. É A Ordem Natural das Coisas.