Da literatura, parte dezoito

O Segredo de Joe Gould, Joseph Mitchell (Dom Quixote, 2017).


Há livros que nos compram pela capa, já eu, no que respeita ao O Segredo de Joe Gould adquiri-o pelo prefácio de António Lobo Antunes. Saber, pela boca de um dos melhores escritores portugueses, que se trata de um livro magistral foi decisivo. E sim, este livro é tudo aquilo que Lobo Antunes lhe acrescenta e muito mais. Talvez não exagere, até, quando sublinho que dentre tantos livros que já li, nenhum se iguala ao retrato traçado por Joseph Mitchell.
As duas crónicas que compõem este livro foram publicadas originalmente na revista The New Yorker, na secção Perfis, onde míticas figuras da cidade nova-iorquina marcaram presença. Joe Gould é uma dessas figuras, um excêntrico boémio originário de uma importante família do Massachusetts que, após o término dos estudos em Harvard, se dedicou a uma vida de deambulação pelas ruas da "cidade que nunca dorme". De burguês a vagabundo, Gould irá dedicar todo o seu percurso à escrita de uma obra magnânima: História Oral do Nosso Tempo. Esta narrativa, que tanto me fez rir pelo detalhe das situações hilariantes levadas a cabo por Gould, é também um livro de raciocínio claro e pretensioso acerca da mente humana e do nosso papel na sociedade. O Professor Gaivota, que tem tanto de louco como de génio, sem um único dólar no bolso, mantém durante décadas uma campanha em torno da única arte em que acredita: a literatura. Sem constrangimentos, demonstra apenas aquilo que é, sem ser necessário recorrer a dogmas e imposições societários. Por ele não fui capaz de sentir pena, ainda que as condições em que escolheu viver sejam assombrosas, por ele sinto uma inveja clara, uma inveja boa, pela liberdade de escolha e pela autenticidade. Pela luta objectiva dos princípios pelos quais se orientava. Tal como dita Lobo Antunes: Seja qual for o preço que por ele deste (o livro), é uma pechincha comparado com o que vais receber.