Da literatura, parte vinte e um

«Nada é para mim doce sem ti.»
Milton era cego como o capitão marítimo, um poeta inglês que perdeu a visão na velhice. Compunha os seus poemas na escuridão e a filha escrevia-os por ele. Assim, abençoamos as mãos dela, mas esperamos que tivessem uma vida para além dos poemas, esperamos que fossem capazes de segurar algo mais quente e macio do que uma caneta esguia. Algumas palavras podem eventualmente mudar o mundo, podem confortar-nos e secar as nossas lágrimas. Algumas palavras são balas, outras são notas de um violino. Outras conseguem derreter o gelo em volta do coração, e até é possível enviar palavras como equipas de salvamento quando os dias são difíceis e talvez não estejamos nem vivos nem mortos. Contudo, as palavras não são suficientes e perdemo-nos e morremos nas charnecas da vida se não tivermos nada a que nos agarrar além de uma caneta.


in Paraíso e Inferno de Jón Kalman Stefánsson (Cavalo de Ferro, 2013)