Da literatura, parte vinte

(...) o Inferno é ter braços mas ninguém a quem abraçar. O ar tremeu como se algo grande tivesse sido rasgado, depois um som de algo a partir ouviu-se quando o sol caiu e aterrou na Terra. As pessoas estão vivas, têm os seus momentos, os seus beijos, risos, os seus abraços, palavras de encorajamento, as suas alegrias e tristezas, cada vida é um universo que então colapsa e não deixa nada para trás, expecto alguns objectos que adquirem um poder de atracção através da morte dos seus proprietários, tornam-se importantes, por vezes sagrados, como se pedaços da vida que nos deixou tivessem sido transferidos para a chávena de café, a serra, o pente, o cachecol. Mas tudo acaba por se desvanecer, as recordações desaparecem algum tempo depois e tudo morre. Onde havia outrora vida e luz, existe a escuridão e o esquecimento.


in Paraíso e Inferno de Jón Kalman Stefánsson (Cavalo de Ferro, 2013)