Diário, parte onze


Talasnal, Lousã.


Tive uma infância feliz. Não, não o escrevo só porque sim, porque é cliché tamanha afirmação ou porque é poético o som das palavras. Tive mesmo muita sorte, tive uma infância extremamente feliz. Cresci num meio pequeno onde fui criada pelos meus avós paternos. Ainda que fosse uma criança muito calma e serena e gostasse realmente de brincar sozinha, também fui afortunada no que respeita a estar rodeada por outras crianças da minha idade. Naquela época, contrariamente ao que se verifica agora, a minha pequena localidade fervilhava de crianças. Os anos oitenta foram ricos em muita coisa, até na natalidade da zona. E por ali andávamos, soltos, em grupos maiores ou mais pequenos, a brincar nos quintais dos nossos avós ou na rua, livres. Não havia distinção, um fato-treino barato e umas sapatilhas já bastante esmurradas bastavam para correr até nos cansarmos. Tudo nos servia para brincar, tudo. Desde os desenhos animados que passavam na televisão e que eram o mote perfeito para imitações durante horas até aos ovos que a minha avó dispensava do galinheiro e que eram a matéria-prima para montarmos uma pequena banca na rua, tal e qual uma mercearia. Só muito mais tarde, faltava talvez um ano para ingressar na escola primária, a população decidiu fundar os tempos-livres no Centro Cultural da nossa aldeia. Não havia creche, pré-primária ou o que lhe chamam agora, era os tempos-livres, apenas. Era ali que aqueles que outrora brincavam sem pressa na calçada, se reuniam em volta dos livros, das primeiras letras, dos números, dos recortes direitinhos e sem farpas, dos desenhos e pinturas sem sair para fora do risco. Na altura, sem pensarmos em grande coisa, éramos felizes, mesmo com pouco. A maior parte dos pais, incluindo os meus, não eram pessoas de grandes posses. Se uns se limitavam a ganhar o pouco que lhes calhava, outros, como o meu próprio pai, tentavam singrar em negócios próprios que só com o tempo dariam frutos. Ninguém viajava para o estrangeiro nem havia, ainda, a moda de ir para as praias do Algarve. Alguns não sabiam, sequer, o que era férias. Os que o sabiam era debaixo de um chapéu de sol na praia de Buarcos, na Figueira da Foz. Já eu, que tenho milhares e milhares de memórias destes tempos tão bons, recordo com imenso carinho as formigas que o meu pai tinha nos pés sempre que chegava o fim-de-semana ou as férias. Se a maior parte dos pais dos meus amigos se limitavam a vegetar em casa ou a demonstrarem a sua faceta de agricultores nas terras herdadas, o meu pai queria era passeio, nem que fosse ir à Figueira da Foz comer umas pevides sentado no muro do Cabo Mondego a ver o mar. Primeiro era a sua paixão pela arquitectura, queria ver as novas linhas, os novos traços, sempre com a máquina fotográfica em punho, ainda que a sua falta de jeito para a fotografia, já na altura, fosse visível. Nos primórdios com a velhinha Canon, mais tarde com uma Nikon à maneira. Fotografava tudo e todos, ainda hoje é assim nas grandes viagens que faz à volta do mundo, em mil fotografias é possível apreciar o espaço envolvente numa única. Foi assim que conheci grande parte do Centro e Norte de Portugal e, por entre tantas gavetas de memórias, foi naquela época que me apaixonei perdidamente pela zona da Serra da Estrela e por tudo o que envolve o Parque Nacional da Peneda-Gerês. Porque se o meu pai amava o betão, também se rendia, tal como a minha mãe, à natureza. Dentre tantos passeios e maravilhas que vi neste país, nunca vou conseguir esquecer aquela escapadinha, ao género de road-trip, que fizemos a Chaves numa estação tão chuvosa, devia eu ter uns oito anos. De Vidago decidimos, eu, os meus pais e um grupo de amigos e familiares, nos embrenhar na Serra do Gerês. Foram três ou quatro dias em que nem o frio nem a chuva incomodava, o verde bastava. Por ali, perdidos, sem tempo, recordo o meu espanto ao deparar-me com a imponência do boi de Trás-os-Montes. Hoje, ainda que nada volte a ser como era, ainda que a inocência dos olhos não seja a mesma, os lugares, esses, ainda que com mudanças ao nível da arquitectura e da massa populacional, continuam iguais.

Agora já é moda ir para o Algarve, felizmente existem oportunidades para viajar e até apetece andar de avião mas o bichinho da pacatez permanece. Os dias mais frescos, a seu tempo, trarão os céus por debaixo dos pés, para já, é hora de colocar a mochila às costas e respirar.

Sem comentários:

Enviar um comentário