Diário, parte dezassete

Daqueles textos que, no fundo do baú, agora fazem tanto sentido. Porque hoje é mais um dia que amanheceu cinzento. 

Li A Morte de Ivan Llitch, de Lev Tolstói, com o pensamento preso no meu bisavô paterno. José Maria chamava-se ele, Zé Maria para a família, Zé Maria Botão para os conhecidos da rua. Vivia numa pequena casa de pedra virada para a destruída torre de defesa do tempo dos mouros. Era uma casa simples. As telhas começavam a soltar-se e a cor laranja tinha dado, há muito tempo, lugar ao verde. O soalho velho e podre rangia constantemente e a cal da parede começava a soltar-se. Os móveis eram quase inexistentes e o conforto era pouco ou nenhum. Foi aqui que passei a maior parte da minha infância, até aos 8 anos. Até então, vivia com os meus avós paternos e com os meus pais numa casa ao lado desta mesma e, por isso, cresci lado a lado com o meu bisavô Zé Maria, avô como eu lhe chamava, e chamo. Foi um homem sofrido, como tantos do seu tempo. Eram tempos difíceis aqueles, dizia ele. Não tinha família e por isso se tornou um aventureiro, um lutador. Apaixonou-se cedo e casou-se cedo. Chamava-se Palmira a minha bisavó. Não a conheci. Morreu de cancro uns anos antes de eu nascer. A minha avó ainda hoje me fala nela e por isso lembro-me da minha bisavó Palmira como se realmente a tivesse conhecido, como se realmente estivesse presente naquele dia de Verão em que ela morreu nos braços da minha avó, sua filha. As lembranças, para lá da vida material do meu avô, são poucas. Lembro-me dos seus enormes olhos azuis, do seu cabelo escasso e totalmente branco, da sua bengala, dos seus abraços calorosos, da sua roupa de agricultor, das histórias típicas de velho nostálgico, do seu mau feitio antes da hora do almoço. Lembro-me daquelas tardes primaveris em que o padre da freguesia visitava o meu avô e passavam horas e horas à conversa. O padre dizia que o meu avô era santo, que nunca tinha conhecido ninguém com um coração tão puro e tão devoto a Deus como ele. Eu acreditava. Ainda hoje acredito. Foi por volta desta altura que descobri o amor. O amor sincero que o meu avô me demonstrava. Ele era o único, para além da minha avó, que me dizia exactamente aquilo que sentia, sem filtros. Não tinha medo de me dizer que eu era a sua favorita, que tinha a certeza que eu iria ter um futuro brilhante pela frente. Dizia-me, eu escutava e acreditava. Depois veio aquela doença horrível, não sei como, não me recordo. Devia ter uns 10 anos. Não sei que doença foi. Diziam que era a doença da velhice. Comecei a notar que algo estava errado quando via o meu avô sentado e quieto à janela, sem fazer qualquer movimento para sair de casa. Ainda hoje recordo a imagem dele naquela pequena janela azul. O isolamento foi notável. Andava pouco, comia na mesma quantidade. Da cadeira ao lado da janela passou para a cama. Só saiu de lá passados quase 3 anos. A doença foi lenta, dolorosa. Lia o sofrimento naqueles enormes olhos azuis e não compreendia. Ainda hoje não compreendo. Numa tarde de inverno, estava eu à lareira com a minha avó e com os meus restantes primos quando decidi fazer umas pequenas cartas de despedida. Cada um fez um desenho e escreveu as palavras que sentia. Fomos todos ao quarto do meu avô e lemos as ditas cartas. Ele já não falava, já não tinha movimentos voluntários. Mas chorou. Chorou como eu já não o via chorar há muito tempo. No outro dia, já instalada há vários anos na actual casa dos meus pais, quando cheguei da escola encontrei um vazio. Pensei em ligar à minha avô mas esperei. Sentei-me na minha cama e chorei. Chorei. O meu avô tinha morrido. Tinha eu então 13 anos. Sofri. Ainda hoje sofro. É como se não se tivessem passado quase 18 anos. Para mim o meu avô morreu ontem. Hoje. E continua aqui, tão vivo.

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