Diário, parte vinte

Acontece-me repetidamente, tenho diversas ideias para textos ao longo do dia que, passados poucos minutos, se esfumam tal e qual como vieram. Até há algum tempo atrás, tinha como hábito regular trazer sempre comigo um pequeno bloco de notas onde apontava tudo o que me vinha à cabeça, foi depois que tive a péssima ideia de o abandonar, de o deixar à sua sorte pousado entre as dezenas e dezenas de livros que tenho amontoados em cima da secretária no escritório e, foi aí, que todas as palavras se começaram a perder. Num desses textos desamparados numa página outrora em branco, há palavras e descrições sobre o silêncio. Divagações e descrições de algo que, cada vez mais, me preenche: a ausência de som. Depois, numa noite em que passava os olhos por um texto do norueguês Karl Ove Knausgård, deslumbrei-me e as minhas palavras, por aí largadas, já não tinham importância. Aqui, o silêncio, é isso, o nada. O tudo. 


Nada é o que não existe, que não é nada, mas se o escrevermos ou dizemos, existe e é alguma coisa: nada. Silêncio é uma palavra dessas, indica a ausência de som, e não é nada em si. Contudo, raramente vamos até à extrema consequência dessa palavra, mas em vez disso usamo-la para graduar o som, e relacionamo-la com o sossego e o descanso - que paz e que silêncio aqui, dizemos quando chegamos ao campo e o barulho do tráfego desapareceu, ou quando nos sentamos no bosque e todo o ruído da incessante actividade das pessoas está ausente. Tudo o que ouvimos então é o canto dos pássaros e o agitar das árvores pelo vento, a que chamamos silêncio dos bosques. Acontece ser um dia de inverno sem vento, nem isso se ouve. Esse silêncio mexe com a paisagem, e através dela, connosco. Todos os sons são ligados ao momento, pertencem ao presente, àquilo que muda, mas o silêncio está ligado à imutabilidade, em que não existe tempo. É a eternidade, mas também o nada, que são duas faces da mesma coisa. O que significa isto, compreendi-o num vislumbre que tive uma vez quando vi o filme Shoa, sobre o extermínio dos judeus, e um funcionário dos caminhos de ferro contava como numa tarde a estação se enchera de carruagens que tinha dentro judeus deportados, crianças, adultos, velhos, e toda a área ecoava os sons deles nessa tarde. Que tipo de sons ele não disse, mas suponho que deveria ter sido choro de crianças, vozes de mulheres e de homens, passos, gritos, tilintar de pratos, talvez até gargalhadas. Quando voltou cedo na manhã seguinte para o trabalho, as carruagens continuavam lá, mas agora estava tudo em silêncio. Não se ouvia um som. Foi quando ouvi falar desse silêncio que, pela primeira vez, compreendi em que consistiu o Holocausto, num reconhecimento que durou segundos, antes de desaparecer novamente. Muito da vida diz respeito ao som, do barulho dos pés de criança a correr no soalho e dos seus choros e gritos de alegria, até ao som da sua respiração compassada quando dormem. Mas a literatura sobre a vida está mais ligada ao nada e ao inanimado, à noite e ao silêncio, do que normalmente pensamos. As letras não são senão sinais mortos. Nenhum som saiu deste texto enquanto o leste.


in No Outono de Karl Ove Knausgård (Relógio D'Água, 2016)

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