Da Literatura, parte vinte e seis

E, assim, aos poucos, nesta pausa tão urgente quanto necessária, há filosofias que não bastam descrever, há que seguir. E, da Noruega, surge a poesia que narra por palavras o que o silêncio não está habilitado a expressar.


Com toda esta nossa ânsia de usar novas tecnologias, acabaremos por renunciar à nossa própria liberdade, afirmava Heidegger, deixando de ser pessoas livres para nos tornarmos recursos. Este pensamento é ainda mais pertinente hoje em dia do que quando ele o expressou pela primeira vez. Não nos tornaremos um recurso uns para os outros, infelizmente, mas algo menos apelativo, ou seja, um recurso para organizações tais como a Apple, Facebook, Instagram, Google, Snapchat e o Governo, que estão a tentar mapear-nos a todos, com a nossa contribuição voluntária, de forma a depois poderem vender ou utilizar informação. Cheira a exploração.
A pergunta que Humpty Dumpty faz a Alice no País das Maravilhas ainda é válida: «Quem é que vai ser o chefe - eis tudo.» Tu, ou alguém que não conheces?
Os humanos são seres sociais. Estar acessível pode ser uma coisa boa. Somos incapazes de funcionar sozinhos. No entanto, é importante que sejamos capazes de desligar o nosso telefone, sentar-nos, não dizer nada, fechar os olhos, respirar profundamente um par de vezes e tentar pensar em algo diferente daquilo que normalmente pensamos.
A alternativa é não pensar coisa alguma. Pode-se chamar a isso meditação, ioga, mindfulness ou simplesmente senso comum. Pode ser bom. Pela parte que me toca, a meditação e a prática de ioga dão-me prazer. Também aprendi a praticar algo que se pode considerar um parente próximo desta prática - a hipnose - assim, hipnotizo-me a mim mesmo durante certa de 20 minutos, para descomprimir. Também funciona bem. Todas as tardes, deito-me a flutuar uns centímetros acima da minha cama.
Por vezes, dou por mim a pensar sobre como é que o silêncio poderia ser experimentado sem recurso a nenhuma técnica. Pode-se baixar a fasquia para encontrar o silêncio e o equilíbrio. Não é preciso um curso de silêncio e relaxamento para ser capaz de fazer simplesmente uma pausa. O silêncio pode estar em qualquer lugar, a qualquer momento. Está mesmo à nossa frente. Eu crio-o mesmo quando subo as escadas, preparo a comida ou simplesmente me foco na minha respiração. Sem dúvida que todos somos parte do mesmo continente, mas a possibilidade de sermos uma ilha para nós mesmos é algo que temos sempre connosco.


in Silêncio da Era do Ruído de Erling Kagge (Quetzal, 2017)

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