Diário, parte vinte e dois

Aos trinta e um anos reaprendi a viver. Para ser mais poética, aos poucos, tenho reaprendido a respirar. Intrinsecamente sentia-me exausta, a nível mental e físico, mas nem esse pequeno cansaço me fazia parar. Achava normal, na minha total ignorância, que dormir mais umas horas ou relaxar a ler umas páginas de um bom livro iria atenuar a fadiga que carregava nos ombros. Por isso continuei semanas, meses, talvez tenham sido anos, a correr que nem uma louca. Trabalhava muitas vezes para além das horas estipuladas; fotografava de madrugada só para apanhar a luz perfeita; caminhava quilómetros incontáveis montanha acima julgando que a paz ali me alimentava; embrenhava-me no cinema europeu só para conseguir produzir as melhores críticas; lia avidamente para conseguir descobrir os melhores livros e, assim, organizar os encontros mensais do Clube de Leitura da qual faço parte; escrevia à velocidade da luz textos que rebuscava para além da minha imaginação; ajudava uma Associação sem fins lucrativos e ainda conduzia repetidamente norte-sul e sul-norte sem sequer respeitar os limites de velocidade e o sono que me desencorajava os reflexos. E, ainda assim, estava lá para toda a gente, sempre com um sorriso e o bom humor que me caracteriza. Como conseguia?! Não sei, mesmo o tempo que me fugia por entre os dedos permitia-me levar o meu corpo até ao limite mais improvável. E sentia-me estável, segura, forte, continuava a dar o meu melhor no trabalho e a lutar todos os dias por uma luz que aos poucos se ia extinguindo. Havia tudo mas... não havia nada. Num dia normal, como outro qualquer, acordei em estado de semi-comatose e caí nos braços daquele que tem sido o meu companheiro incondicional neste caminho. Aí parei e, imediatamente, com a minha família ao meu lado, procurei ajuda. Deixemo-nos de hipocrisias, preconceitos e argumentos quadrados. Por vezes, somos nós que precisamos de ajuda, não são só os outros. Deixemos então que nos carreguem, que nos atenuem a dor e nos transmitam o amor que nos é tão essencial. Deixemos os conceitos cliché, as filosofias de bolso e paremos para respirar. Não, não basta dizê-lo, há que fazê-lo. De nada adianta apregoar aos mundo estados mentais zen quando, no nosso íntimo reina o caos. Que sim, que saibamos estar no mundo, mas que, passo a passo, sejamos capazes de também desligar-nos deste mundo térreo onde apoiamos os pés e tenhamos a coragem e a tranquilidade de viver para nós próprios e para o círculo restrito daqueles que estão sempre ao nosso lado. Viver sem olhar para o lado, viver sem disfarces, sem fantasias e sem a ânsia doentia de exteriorizar para que os outros reparem. Não, isso não é viver, é definhar.

Ontem, terminei um dos livros mais bonitos que li nos últimos tempos, Silêncio na Era do Ruído do norueguês Erling Kagge. Este, a primeira pessoa a alcançar os três Pólos (Norte, Sul e o pico do Everest), deambula através de um ensaio que pretende responder a algumas questões pertinentes acerca do silêncio. Logo, no primeiro parágrafo do livro, o autor descreve na perfeição aquilo que pretendi descrever:

Sempre que não posso caminhar, subir a uma montanha ou navegar para longe do mundo, aprendi a desligar-me dele.
Levei algum tempo a aprender. Somente quando percebi que tinha uma necessidade primordial de silêncio fui capaz de partir à sua procura - e, então, soterrado sob uma cacofonia de ruídos de trânsito e pensamentos, música e máquinas, iPhones e carros limpa-neves, lá estava ele à minha espera. O silêncio.


in Silêncio da Era do Ruído de Erling Kagge (Quetzal, 2017)

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