Da Literatura, parte vinte e nove

Na verdade, todos nós temos vidas extremamente ruidosas. A «poluição sonora» já entrou na agenda ecológica quase ao mesmo nível que todas as outras formas de poluição que ameaçam o nosso bem-estar e segurança. Mas, por cada pessoa que se queixa dos treinos a baixa altitude da RAF, da incessante música de fundo dos locais públicos, dos vizinhos intoleravelmente ruidosos e das zaragatas embriagadas nas ruas, há centenas delas que sabem que necessitam de um telemóvel, que optam por ter um som ambiente incessante nos locais onde se encontram, nas suas casas e nos seus ouvidos, e que se sentem desconfortáveis ou assustadas quando têm de enfrentar o verdadeiro silêncio. A «comunicação» (que significa sempre conversa) é a condição sine qua non para as «boas relações». «Só» e «solitário» tornaram-se quase sinónimos; pior ainda, porventura, «silencioso» e «aborrecido» parece que também andam a par. As crianças escondem-se atrás de um muro de ruído, com televisores e computadores nos quartos; as carruagens para fumadores nos comboios transformaram-se em «zonas silenciosas», mas até as pessoas que as ocupam têm música directamente ligada aos ouvidos.
Todos nós pensamos em ter paz e silêncio, valorizamos a privacidade e julgamos que uma pessoa solitária e silenciosa é, de algum modo, mais «autêntica» do que inserida numa multidão social, mas raramente tentamos arranjar oportunidades para usufruir dessa paz e silêncio. Por um lado, romantizamos o silêncio, mas, por outro, sentimos que é aterrorizador, perigoso para a nossa saúde mental, uma ameaça às nossas liberdades e algo que devemos evitar a todo o custo.


in O Livro do Silêncio de Sara Maitland (Estrela Polar, 2011)

Sem comentários:

Enviar um comentário