Da vida na aldeia, parte sessenta e um


Brugges, Bélgica. 


Escrevi estas palavras primeiramente em papel. Sim, voltei a escrever em papel. Indicaram-me uma daquelas papelarias à antiga, onde ainda tudo existe e tudo se encontra. E foi por ali que deambulei em busca de um caderno que, após uma boa meia hora, finalmente encontrei. Peguei-lhe, sentei-me à secretária e, sem dar pelo tempo passar, banhada pelo sol de Outono de Vila Nova de Famalicão que entrava pela janela, fui preenchendo as suas linhas. É um facto, ainda estou de ressaca da viagem pela Belux e a minha mente ainda paira pelas paisagens que vislumbrei.
Os planos estavam definidos há já muitos meses e, ainda que as baixas temperaturas nos tenham obrigado a alterar algumas rotas, houve tempo para atravessar todo o Luxemburgo e a Bélgica. E, assim foi, terminado o livro "Silêncio na Era do Ruído", levei comigo na mala "O Homem em Busca de um Sentido" de Viktor E. Frankl e, para reler, "A Biografia do Silêncio" de Pablo d'Ors. Não, não foi uma procura incessante pelo silêncio e pela paz de espírito mas, ainda assim, sem querer, esbarrei em ambos, por vezes no meio de multidões. Experimentei, lá, uma total ausência de som que, outrora não tinha, nem de perto, percepcionado. Nós, ali, alheados do mundo, rodeados por paisagens tão distintas como montanhas envoltas em bruma de onde despontavam castelos magnânimos, como planícies infindáveis na Bélgica e onde os canais de Brugges nos fizeram apaixonar por aquela pequena cidade medieval. Dos muitos quilómetros percorridos a pé, com cenários de fundo entre autênticas florestas encantadas repletas de veados e pintadas com as cores de Outono mais bonitas que alguma vez vi, restou-nos respirar e deixar para trás o mundo sufocante do trabalho.
E, agora, aqui sentada no escritório, onde outrora houve vontade de voltar a sentir na face o sol português, duplamente se sente a ausência do frio e da neve de Belux. Tão perto, e ao mesmo tempo tão longe, voltar à rotina revela-se um choque mas, felizmente, é possível guardar na memória pequenos momentos que acrescentam mais um bocadinho àquilo que somos.
Irei sentir saudades da descoberta da boulangerie francesa Fischer onde quase todos os dias, enquanto permanecemos no Luxemburgo, nos deliciámos com um café au lait e, dentre tanta escolha a nível de pâtisserie, nos deleitámos com o eclair surprise caramel beurre salée. Das ruas, limpas e acolhedoras, ainda que por vezes desertas, onde a população se refugiava no calor das suas casas. Das decorações de Natal e do aprumo das preparações cheias de pormenor numa época tão importante e tão sentida nestes países. Suspiro quando relembro que lá, ainda que Outono, senti o verdadeiro Inverno e pude pôr à prova as camadas intermináveis de roupa destinada a essa mesma estação, por forma a ser suportável caminhar sem tremer de frio. Já me sinto nostálgica quando relembro a vontade de fotografar tudo e, até, da inércia em não fotografar nada, porque por vezes bastava olhar em volta e captar aquilo que nos rodeava e que era, só por si, tão grandioso (cada vez mais reservo a imagem e expresso-me por palavras). Tenho saudades dos murmúrios das pessoas nos espaços e transportes públicos com o intuito de não incomodar o próximo. Da boa educação, ainda que nem sempre acompanhada de um sorriso, mas de uma cordialidade atroz. Das vistas infinitas do Castelo de Vianden e das ruas que relembram a permanência, no séc. XIX, do escritor Victor Hugo naquela cidade. Do MUDAM (Museu de Arte Moderna do Luxemburgo), mesmo ali ao lado do Parlamento Europeu, e das suas muitas galerias que para qualquer apreciador de arte contemporânea e arquitectura é um verdadeiro paraíso. Do Museu Nacional de História Militar em Diekirch, onde estavam representados aos pormenor batalhas e símbolos relativos à Segunda Guerra Mundial. Dos chocolates quentes e snacks que tanto nos reconfortaram ao longo de todo o percurso entre museus, igrejas e jardins. Das lareiras nos cafés a lembrar Paris e, onde foi possível viver as cidades e as pequenas vilas por onde íamos passando. Do 2be Beer Wall onde, entre centenas de marcas de cervejas, regressámos à nossa infância através do Tintim e do Milu. Do cheiro maravilhoso das chocolatarias e dos waffles acabados de cozinhar. Do simples caminhar lado a lado com as dezenas de bicicletas que, na Bélgica, são tão utilizadas como meio de transporte. Do ouvir falar a nossa língua mãe nos locais mais improváveis. Dos trilhos onde, no passado, serviram de palco à Segunda Guerra Mundial, das Ardennes a Flandres. Do memorial de Auschwitz em Troisvierges, onde, perto da linha do comboio, dezenas de luxemburgueses foram deportados para os campos de concentração. Ali, em recolhimento, tive oportunidade de colocar um pequeno seixo branco em honra dos milhões de judeus que morreram durante o horror do Holocausto. Da melancolia que já pesa ao recordar os despertares com a neve do outro lado da janela e que, ao vislumbrar a floresta no alto das montanhas relembrava a Noruega. Do Francês, do Alemão, do Luxemburguês e do Flamengo. Das amizades enriquecedoras que nos acompanharam nesta aventura e que comprovam que o importante é isso mesmo, as pessoas. E são elas que, por vezes com gestos tão naturais e simples, nos devolvem os sorrisos e nos revelam que por mais difícil que seja o trilho sinuoso que escalamos, nesta curta viagem que é a vida, tudo vale a pena quando percepcionamos quem e o que realmente importam. Passo a passo, em grandes ou pequenas viagens, continuaremos por aí. Sempre.

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