Diário, parte vinte e quatro

Está na moda ser zen, estar de bem com a vida, encontrar a luz onde, outrora, somente existia a escuridão. Uns deixam-se levar pela corrente, por mais uma tendência passageira que apenas serve para esconder, tal e qual uma máscara, a tranquilidade e confiança inexistentes. A mim admira-me sempre como será possível alguém, num dia como outro qualquer, acordar e perceber que, afinal, o mundo é feito de algodão e flutuamos em arco-íris de todas as cores. Talvez admiração não seja a palavra correcta, é descrença.
Neste caminho que tenho vindo a percorrer, numa terapia que tenho infligido a mim própria, é bastante simples depreender que para atingir o equilíbrio, um grau elevado de auto-conhecimento interno e de quietude ou paz, como lhe queiram chamar, requer trabalho e um esforço atrozes. Todos os dias, todas as horas, todos os minutos. Descobrir qual o nosso lugar no mundo e qual o sentido que devemos dar à nossa vida é talvez a viagem mais difícil que qualquer ser humano traça. E, ainda assim, primordial. Não, não é de um dia para o outro, assim, como por milagre. E não, também não há segredos para atingir o silêncio interior que Erling Kagge (que só depois de muitas experiências e de anos e anos conseguiu produzir o livro Silêncio na Era do Ruído) retrata; ou para encontrar a luz ao fundo do túnel através da logoterapia de Viktor E. Frankl; ou até para se sentar e reproduzir um acto tão simples como a meditação, algo que Pablo d'Ors demorou cerca de um ano a alcançar. É uma estrada tortuosa, sim, uma longa, longa passagem. Mas que seja.
Que seja através da natureza, de leituras positivas, de actos e exercícios que nos enriquecem, do yoga, da meditação ou de reiki. Que seja com terapia, com ajuda de um bom profissional da área da Neurologia, mas que seja. Sem pressa e sem a pressão social de mostrar ao mundo que a vida é cor-de-rosa. Na realidade, e cada vez tenho mais essa certeza, exibição é antónimo de felicidade. Porque para encontrar o nosso lugar no mundo, há que encontrarmo-nos a nós mesmos e isso só é possível quando, dentro do nosso círculo de pessoas, nos soubermos distanciar do resto do mundo. Como dita Kagge, estar no mundo sem estar dentro dele.


Mais do que sermos um com o mundo, o que queremos é que o mundo se dobre às nossas apetências. Passamos a vida a manipular coisas e pessoas para que nos agradem. Essa violência constante, essa busca insaciável que não se detém nem tão-pouco perante o mal alheio; essa avidez compulsiva e estrutural é que nos destrói. Não manipular, limitar-se a ser o que vê, se ouve ou se toca; é nisso que radica a verdadeira felicidade da meditação ou a felicidade pura e simples - para quê qualificá-la?


in Biografia do Silêncio de Pablo d'Ors (Paulinas, 2015)

Sem comentários:

Enviar um comentário