Diário, parte vinte e três

Encontro a bondade nos recantos mais improváveis. E sim, não é novidade que é na passagem por provações que permanecem, ou não, pessoas que comprovam a humanidade dos outros. Ainda que a desilusão possa nublar pequenos gestos de afecto, quando penso com clareza e de forma racional, compreendo que a real importância está nos que ficam, não nos que partem.


Sorrir ao sofrimento pode parecer excessivo. Mas a verdade é que também a tristeza e a desgraça entram no nosso crescimento. Devemos aceitar o mal, o que significa sermos capazes de ver o seu lado bom e, em suma, agradecê-lo. Sabemos que aceitámos um sofrimento quando extraímos dele algum bem, e consequentemente damos graças por tê-lo padecido. Não estou a dizer que sorrir perante a adversidade seja o mais espontâneo; mas é, sem dúvida, o mais inteligente e sensato. E direi porquê: reagir diante da dor com animosidade é a melhor maneira de transformá-la em sofrimento. Em contrapartida, sorrir diante dela é uma forma de neutralizar o seu veneno. Ninguém irá discutir que a dor é desagradável, mas aceitar o desagradável e entregar-se-lhe sem resistência é o modo para que se torne menos desagradável. O que nos faz sofrer são as nossas resistências à realidade.


in Biografia do Silêncio de Pablo d'Ors (Paulinas, 2015)

Sem comentários:

Enviar um comentário