Da vida na aldeia, parte sessenta e cinco

Coimbra.


Tudo cresce de forma rápida e forte.
E, é evidente, cresce silenciosamente. Na nossa cultura obcecada pelo ruído, é muito mais fácil esquecer quantas das principais forças físicas de que dependemos são silenciosas - a gravidade, a electricidade, a luz, as marés, o rodopiar invisível e inaudível de todo o cosmos. A Terra roda, e  rapidamente. Roda sobre o seu próprio eixo a cerca de 1700 quilómetros por hora (no equador); faz a órbita em torno do Sol a 107 218 quilómetros por hora. E todo o sistema solar rodopia nesta galáxia a velocidades que nem sequer me atrevo a imaginar. A atmosfera da Terra roda juntamente com ela, motivo pelo qual não sentimos esse movimento. E tudo acontece silenciosamente.
O crescimento orgânico também é silencioso. As células dividem-se, a seiva flui, as bactérias multiplicam-se, a energia percorre, efervescente, toda a terra, mas sem um murmúrio. «A força que impele a flor através do verde rastilho» é silenciosa. O solo, esse revestimento superior mais superficial, é designado terra e o próprio planeta Terra. Tudo está vivo - a palpitar, a agitar-se, a movimentar-se. Os esporos fúngicos microscópicos crescem, levantam pavimentos e derrubam casas. Ouvimos os pavimentos a racharem e os sons dos edifícios - esses artefactos humanos são inevitavelmente ruidosos -, mas o próprio fungo cresce silenciosamente. Talvez sejamos sábios para recearmos o silêncio - é o terror que causa a destruição na maré do meio-dia.


in O Livro do Silêncio de Sara Maitland (Estrela Polar, 2011)

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