Diário, parte vinte e oito

Figueira da Foz.


Lembro-me de um período no final da adolescência, em que o meu espírito se embriagava com imagens de aventuras. É assim que vai ser quando eu crescer. Vou ali, faço isto, descubro aquilo, amo esta, e depois esta e esta e esta. Vou viver como vivem ou viveram as pessoas dos romances. Eu não sabia bem quais, só que a paixão e o perigo, o êxtase e o desespero (sobretudo o êxtase) estariam ao meu serviço. Porém... quem disse aquilo sobre «a pequenez da vida que arte exagera.»? Houve um momento, quando tinha vinte e muitos anos, em que reconheci que o meu espírito de aventura se extinguira há muito. Nunca faria aquelas coisas que a adolescência sonharia. Em vez disso aparava a relva, ia de férias, tinha a minha vida.
Mas o tempo... o tempo primeiro fixa-nos e depois confunde-nos. Pensávamos que estávamos a ser adultos quando estávamos a ser só prudentes. Imaginávamos que estávamos a ser responsáveis, mas estávamos só a ser cobardes. Aquilo a que chamávamos realismo acabava por ser uma maneira de evitar as coisas e não de as enfrentar. Tempo... deem-nos tempo suficiente e as nossas decisões mais fundamentadas parecerão instáveis e as nossas certezas, bizarras.


in O Sentido do Fim de Julian Barnes (Quetzal, 2011)

2 comentários:

  1. De entre as muitas fotos que tiras, esta está fantástica. Os meus parabéns Pedro.

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  2. O Pedro é um fotografo muito especial.

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