Diário, parte trinta e um

Coimbra.


Se me perguntassem, no geral, à parte do amor pelo meu companheiro, família e amigos, à parte do cheiro do pão acabado de cozer, do de centeio da Serra da Estrela ou do de alfarroba barrado, ainda quentinho, com manteiga dos Açores e uma boa chávena de café com leite. À parte do cheiro do bolo de maçã e canela, acompanhado de chá vermelho. À parte de chegar a casa, ao final da tarde, acender um pau de incenso de jasmim ou alfazema e ligar a playlist Deep Focus. À parte dos Sábados e Domingos invernosos em que, com ele, nos aninhamos em frente à lareira com um livro no colo. À parte da fotografia, do caminhar de mãos dadas em dias solarengos pelo verde que, ainda, persiste na cidade. À parte de tudo isto, que aos olhos de muitos parece tão pouco mas que, a mim, me preenche de alegria e amor, à parte, agora, neste momento, basta-me apenas isto: sentar, cruzar as pernas, fechar os olhos e sentir a natureza. Desligar. Conseguir, sem ter a consciência disso mesmo, do silêncio. Não da ausência de som, mas do distanciamento do ruído que me transporta para a melodia do vento, das folhas das árvores que tilintam umas contra as outras, do chilrear dos pássaros e da água que, na sua rotina, vai descendo pelas montanhas.

Como um dia escreveu Miguel Torga em Cântico do Homem:

(...)

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!