Diário, parte trinta

Estes episódios na companhia de gatos (ou cães) convidam-nos certamente a observar mais a natureza. Podemos receber dela mensagens de concentração, de vagar e de respeito pelos nossos ritmos naturais. E, para isso, alguns dias na floresta ou na montanha são muito salutares. O tempo muda, o silêncio começa a instalar-se e outra coisa aparece, sob a superfície.
Porém, quando os dias se sucedem no ritmo desenfreado da rotina diária, tal nem sempre é possível. Como fazer, então? Porque não estudarmos mais os nossos gatos, cães ou cavalos? E se não tiver a sorte de ter perto de si pequenos ou grandes companheiros de viagem, porque não ver reportagens, ler livros de etologia, estudar a vida dos animais que lhe agradam? Tenho na minha biblioteca umas boas três dezenas de obras sobre a vida animal, desde as abelhas aos lobos, passando pelos porcos e, acreditem, é fascinante! Para além do aspecto do conhecimento, os animais são intermediários, como guias que nos levam de volta à terra. Nas nossas cidades de betão, aceder ao mundo selvagem do cão ou do gato é um primeiro passo para o restabelecer do contacto: o nosso reencontro necessário e programado com a Natureza.

Ver um mundo num grão de areia,
E um paraíso numa flor selvagem, 
Segurar o infinito na palma da mão,
E a eternidade numa só hora. 


William Blake, Auguries of Innocence.


in A Magia do Silêncio de Kankyo Tannier (Arena, 2018).