Diário, parte trinta e quatro

Em Outubro, quando me foi dado a conhecer o diagnóstico que, até ao dia de hoje me tem acompanhado, que tenho procurado, acima de tudo, combater o meu maior inimigo: a pressão profissional e o stress que daí advém. Como leitora ávida, relembro-me de ler, há já uns anos, um pequeno ensaio intitulado A Biografia do Silêncio. O seu autor, Pablo D'Ors, é um sacerdote e escritor espanhol que, na citada obra descreve a sua experiência na tentativa de conseguir algo que, para os leigos na matéria, parece demasiado simples: meditar. Na altura li o livro, cheguei, até, a oferecê-lo, no entanto, e agora sei-o, não o compreendi na totalidade. Afinal, a meditação, aos meus olhos, era simplesmente sentar e, em silêncio, esvaziar a mente. Assim, como se fosse um exercício descomplicado. 
Foi só quando se deu aquele acontecimento no Outono que procurei saber e estudar mais a ideologia do silêncio, a filosofia por detrás da meditação. Desde então, li, li muito. Voltei a reler A Biografia do Silêncio e muitos mais se seguiram a esse (ainda que seja difícil encontrar literatura confiável nesta área). Só então, cá dentro, compreendi. Acalmar a mente e viver aqui e agora, sem distracções, é das acções mais difíceis que experimentei. Procurei informações e ajuda junto de um grupo que estuda o Dharma e aí me foi indicado que o Professor Paulo Borges iria estar na minha cidade. Para quem não conhece, eu felizmente já conhecia, este é professor de Filosofia e Meditação, Pensamento Oriental e Filosofia da Religião na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Além de ter ministrado também Técnicas Meditativas na Escola de Enfermagem de Lisboa, foi sócio-fundador da Associação Budista Portuguesa. É praticante de meditação budista desde 1983, seguindo os programas de formação da Comunidade Internacional de Meditação e foi organizador das duas vindas de Sua Santidade o Dalai Lama a Portugal. Foi membro-fundador do PAN (Partido pelos Animais e pela Natureza), do qual já não faz parte. Além de instrutor de meditação, tem realizado centenas de conferências e workshops, além de escrever sobre estas temáticas. Vi ali a luz. Sentada lado a lado com Paulo Borges, durante uma tarde que se prolongou até para além das horas, percebi, afinal, o que é a meditação. Após diversos ensinamentos teórico-práticos percebi a dificuldade e, ao mesmo tempo, a simplicidade de permanecer em silêncio e, em consciência plena, sossegar a mente. Alcancei que esta descoberta pela consciência é um espaço aberto de paz, de clareza e felicidade. E esta mesma consciência só depende de nós e não do mundo exterior e mesmo interior.
Hoje, ainda que tenha passado pouco tempo, todos os dias, após o jantar, sento-me e medito. Ainda que a postura nem sempre consiga ser a ideal, ainda que me doam as costas, as pernas, por vezes os braços e a cabeça, a força de vontade de conseguir pacificar-me a mim e reconhecer que, na realidade, a gratidão e a bondade estão acima de tudo, é primordial.
Há quem seja céptico, e eu compreendo isso, há quem prefira fechar-se num ginásio até suar sangue ou correr estrada fora 10km seguidos, eu prefiro meditar, eu prefiro desligar-me do mundo em silêncio. Prefiro caminhar na natureza, fotografar e, brevemente, conseguir conciliar tudo isto com a prática de Yoga. Todos somos diferentes, sem julgamentos, há que assimilar e aceitar. Tudo isto é um mundo de descoberta do que realmente importa, de distanciar-me do que me tolda a visão e viver em paz comigo e com quem me rodeia.


A tranquilidade que vem quando deixas de te preocupar com o que os outros dizem, ou pensam ou fazem. E cuidas apenas das tuas acções. (Será isto justo? Será o certo a fazer?) Não te deixes distrair pela escuridão dos outros, mas antes prosseguir vigorosamente em direcção ao teu objectivo.


in Meditações de Marco Aurélio (Cultura Editora, 2017)