Diário, parte trinta e seis

A dor dos outros

Não escrevo enquanto psiquiatra, escrevo enquanto pessoa. Todos os médicos lidam com o sofrimento dos outros, uns melhor, outros com mais dificuldade. Há os que a enfrentam e são capazes de ser muito próximos dos doentes, há os que não são capazes de o fazer e se tornam esquivos. Os psiquiatras são treinados para lidar com a dor psicológica, tentando compreendê-la e acelerando o seu processo reparador, que faz parte de cada um de nós e permite continuar a viver. Umas vezes com sucesso, outras com muitas dificuldades.
Mas a maior parte das pessoas que atravessam períodos de dor psicológica não tem, felizmente, de se socorrer de apoio técnico, recorre aos que lhe estão próximos, à família e os amigos.
Nem sempre o senso comum nos diz quais são as melhores atitudes perante os outros. Na ânsia de ajudar alguém a sair o mais depressa possível do sofrimento, muitos têm a tendência para o "empurrar"para comportamentos e situações em que possam sentir algum prazer. Normalmente falham e agravam o sentimento de incapacidade para viver uma vida normal.
Por muito próximos que se esteja de alguém que está a sofrer uma perda, nunca seremos capazes de passar do registo intelectual, mesmo que já tenhamos passado por episódios de vida semelhantes. Tentar imaginar o sentir do outro, vivenciar a verdadeira ferida, que tantas vezes a pessoa em sofrimento não quer sarar, porque isso seria uma traição a quem desapareceu, é uma missão impossível. Respeitar a vontade de estar só, respeitar o silêncio, não se sentir atingido quando é claro que estamos a mais, nos momentos em que as recordações invadem o outro, pode não ser fácil, mas a dor tem sempre um lado não partilhável.
Parece quase um caminho sem saídas, cheio de sentimentos de impotência e, por vezes, até de irritação, como quem diz: já chega de choros. Penso que a pior coisa que se pode fazer é julgar o tempo que cada um precisa de voltar à vida, não percebendo que o nosso tempo nunca será transponível para quem está ao nosso lado a sofrer.
Dirão, mas há um limite para o sofrimento. Felizmente que o instinto de sobrevivência vai fazendo com que os intervalos de alívio sejam cada vez maiores, com as memórias a cumprirem um papel de preenchimento do vazio.
Por muito que nos custe e custa nos primeiros tempos, pensar que conseguimos sobreviver a uma grande perda, o tempo consegue, quase sempre, fazer o seu trabalho de repor o equilibro anterior.
Estar na dor com o outro é assim como se fossemos um observador atento e participativo, à medida que somos chamados e desejados. Mas convém estar sempre por perto e não desertar...


José Gameiro | Diário de um Psiquiatra, 10 de Março de 2018.


Li este texto em Março na Revista do Jornal Expresso. Li e reli... e só hoje o consegui partilhar. Identifiquei-me com o mesmo porque já estive dos dois lados da barricada. Porque todos os dias, quando reservo um bocadinho do meu tempo para passar os olhos pelas redes sociais antes de dormir, vejo que ali, naquele espaço, não existe dor, mas sim felicidade plenamente camuflada, vejo o quão o sofrimento é ainda um tabu e o quão a pressão social leva a que a maioria das pessoas represente um papel teatral com a qual não se identifica mas que é obrigatório para que a plateia em frente aplauda. Quando li estas palavras do Psiquiatra José Gameiro caiu um silêncio em mim, daqueles silêncios profundos em que as palavras não têm lugar. Vi todos os profissionais de saúde que existem na minha família, vi a minha mãe que tem dedicado toda a sua vida em prol da doença mental e do doente psiquiátrico que, infelizmente, ainda é ultrajado e minorado por uma maleita não palpável. Revi-me a mim, a tantas pessoas pelas quais dei a mão quando caíram num poço que, na altura, se pensava não ter fundo. Citando Mark Manson:

Nós sofremos, pela simples razão de que sofrer é biologicamente útil. É o agente preferido pela natureza para inspirar mudança. Evoluímos no sentido de viver sempre com um certo grau de insatisfação e insegurança, porque uma criatura medianamente insatisfeita e insegura é a que vai fazer a maior parte do trabalho para inovar e sobreviver. Estamos programados para nos tornarmos insatisfeitos com o que quer que tenhamos e satisfeitos apenas por aquilo que não temos. Esta constante insatisfação manteve a nossa espécie a lutar e a esforçar-se, a construir e a conquistar. Por isso, não, a nossa dor e infelicidade não são um obstáculo à evolução humana, mas uma funcionalidade.


in A Arte Subtil de Saber Dizer que se Foda de Mark Manson (Desassossego, 2018)