Diário, parte trinta e sete

O que é a depressão? A resposta é simples e concisa: é uma doença. E uma doença gravíssima.
Em Portugal, morrem todos os anos cerca de mil pessoas por suicídio. No Reino Unido, cerca de cinco mil e quinhentas. A depressão é das doenças que mais matam a nível mundial.
A estigmatização e a falta de apoio conduzem muitas vezes os doentes depressivos ao suicídio.
É urgente que as pessoas entendam, pelo menos, que a depressão é uma doença tão legítima como um tumor ou um hipertiroidismo. Que é do foro fisiológico que afecta o mental. Que destrói vidas, carreiras, famílias e possibilidades. Que não é uma invenção de quem sofre.
Quando alguém diz «tenho uma pericardite» ninguém duvida da doença. Foi diagnosticada pelo cardiologista. Há uma preocupação comum em saber se está medicado e se está tudo a correr bem. É normal perguntar ao doente o que disse o médico e qual o plano de tratamento.
Na depressão não é assim. É uma doença dos que vivem no submundo, dos fracos, dos malucos, dos indesejáveis, daqueles que só fazem dramas e causam problemas. É com esta estigmatização que muitos doentes têm que conviver. No trabalho, nas escolas, na família. Castigados pelos virtuosos santos pecadores, vítimas de tiranias das verdades e da ignorância crónica e abominável.
Vêm-me à memória umas palavras que li numa entrevista com o Prof. João Marques Teixeira, presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental:
«Um doente mental não é tratado, por exemplo, como um doente hipertenso ou um doente diabético. Para mim, essa é a génese do estigma. O doente mental é considerado um deficiente, enquanto o diabético é considerado um doente.»
Quando alguém diz «tenho uma depressão, não consigo» (aqueles que se atrevem), sabe que está numa roleta-russa entre a aceitação e o desdém dos autoproclamados civilizados. Até muitos dos mais compreensivos preferem olhar para o outro lado.
Não há uma preocupação normal em saber o que disse o médico. Se tomar medicação, pior ainda. Dizem que esses comprimidos só fazem mal e são para malucos. Se respondem que foram receitados por um psiquiatra, a objecção não diminui: «Esses são todos doidos e só lidam com malucos». A psiquiatria é para muitos a especialidade do submundo, de bruxos com magias negras e poções venenosas.
É com este tipo de civilização que muitos dos doentes com depressão têm que coabitar.
Transformados em bodes expiatórios, não só lutam contra a sua doença, mas também com a discriminação. E esta, mais uma vez, vem de todos os lados. Dos amigos, do local de trabalho, da família, da escola. Muito preferem sofrer em silêncio. Muitos morrem em silêncio.


in A Vida é Um Sopro de Miguel Mealha Estrada e António Coimbra de Matos (Oficina do Livro, 2018)