Diário, parte trinta e oito

Agora a chuva acalmou dando lugar a uma luz forte no horizonte que, provavelmente daqui a uma hora, se extinguirá. Mas, hoje, durante praticamente todo o dia choveu, choveu sem piedade. Hoje, dia da despedida de mais uma amiga, uma querida amiga. Até o céu, esse, chorou. Nas últimas três despedidas a amigos queridos que o céu desabou sobre nós, algum simbolismo creio que tenha. E esta, uma mulher tão jovem, tão cheia de garra, tão repleta de força e esperança e, ainda que o cansaço da doença já exercesse o seu peso, o sorriso esteve sempre presente. É sempre um choque, esta coisa chamada morte, paralisa os nossos músculos, enrola na língua as poucas palavras que se podem dizer e cega-nos a vista com lágrimas que teimam em descer pelo rosto. É um beco sem saída. Eu, tal como a família e os amigos, saímos de cabeça baixa do nosso local de trabalho. Conduzimos e os minutos não avançavam. Nos poucos quilómetros que faltavam para que finalmente tenha tido coragem para tocar à campainha da sua morada, as entranhas dentro de mim revoltaram-se e a garganta deu um nó. Mãe, mãe, mãe. Tu, uma das suas grandes amigas, porque é que tens que ficar presa no hospital sempre nestes dias?! Precisava de ti agora, aqui comigo, como vou enfrentar uma família assim?! Sabes que nunca fui boa a enfrentar a dor dos outros. Mãe! Estes foram os meus últimos pensamentos antes de estacionar o carro e finalmente bater à porta que se encontrava entreaberta. Ana, oiço, Ana, Ana. E não é preciso dizer mais nada. Restam os abraços, daqueles que até doem e fazem mazelas nas costas, resta que se perceba que perante tamanha perda, nós, todos juntos, estamos ali. E basta, não há palavras sequer. E não há frases bem estruturadas que possam descrever esta mulher que partiu. Não é um cliché, não há. Esta mulher teve um sonho, um simples sonho, construir uma família e ser feliz. Parece simples não é?! Casar, ter filhos e saborear o dia-a-dia. Mas não foi, de todo. Foram muitos os obstáculos, demasiados até. Não consigo nomeá-los por uma ordem cronológica correcta, ainda que os tenha ouvido tantas vezes. Um cancro vencido, uma obrigação de mudar para um país frio e rodeado de montanhas, um casamento traduzido em violência doméstica, a doença sempre presente e, depois, o divórcio. E no meio dum turbilhão de uma vida que muitos considerariam falhada, aparece um anjo da guarda que a carrega nos seus braços. E o sonho, esse, o sonho que outrora fora idealizado, concretiza-se, mesmo com a eterna enfermidade sempre presente. Foi uma vida de luta, de sacrifícios, mas tudo em prol de uma ambição. Regressar à pátria. E regressou. E de um casebre construiu uma pequena mansão rodeada de flores e aumentou a família: um gato (o célebre fugitivo Tommy que com uma preciosa ajuda lhe consegui devolver) e um cão (também o célebre cãozinho que abandonaram à porta dos meus pais no primeiro dia do ano), os quais amava imensuravelmente. Nós, que sempre vivemos na nossa terra, temos uma certa mania de apontar o dedo a alguns emigrantes, que regressam apenas para expor a riqueza que acumularam ao longo dos anos, que sofrem do mal das grandezas, etc. A eles, a ela, nunca vi tal coisa. Pelo contrário, vi simplicidade, vi verdade, vi seres de um coração enorme que se instalaram onde pertenciam com um propósito: cumprir a promessa que esboçaram outrora, reencontrar a felicidade em paz.

Mesmo que a doença a tenha levado, mesmo que tenham sido meses tortuosos, quem, a ti, diz-me, quem se pode gabar de ter conseguido, em sessenta anos, realizar um sonho?! Quase ninguém, só os afortunados. E mesmo que tenham sido demasiadas as caminhadas entre corredores de hospital, mesmo que o desespero tenha sido constante, mesmo que as pedras no caminho tenham impossibilitado tantas e tantas coisas que ainda querias viver, sublinho, foste uma afortunada. A alegria do amanhã nunca te abandonou, conheceste o verdadeiro amor, um amor verdadeiro e puro que tantas vezes presenciei nos olhos do teu marido e da tua filha que, vinda do país da neve, ainda te segurou a mão quase no teu último suspiro. São pessoas como tu E., pessoas como tu, que nos inspiram para continuar a viver. Irei recordar sempre o teu sorriso, sempre, mesmo quando sentada na tua cadeira de rodas apenas admiravas as flores do teu jardim. E assim foste, cheia de luz, rodeada delas.

Minha querida, olha por nós aí em cima que nós cuidamos dos teus aqui em baixo.