Da Literatura, parte trinta e dois

Não procurava conforto, mas inquietação. Não procurava a ordem que fora programado para ver e compreender, mas a dissolução dessa ordem. Não se voltou para a arte para receber, mas para ver. Não conseguia imaginar-se a usar a palavra «recompensadora» a propósito de uma obra de arte - por exemplo, que livro tal e tal me deu muito, aprendi muito com ele, etc., etc., etc. -, mas pensava solenemente que a obra o iluminara, o levara a ver, com cinismo e sem falsas esperanças, de maneira que se sentia vivo, algo que os jovens têm amiúde dificuldade sem sentir claramente e que com grande facilidade os torna desajustados.


in A Noite do Professor Andersen de Dag Solstad (Cavalo de Ferro, 2018).