Da Literatura, parte trinta e três



Correndo o risco de dramatizar demasiado a condição humana, já viu o filme Matrix?
É sobre um tipo chamado Neo (representado por Keanu Reeves), que descobre que vive num mundo imaginário. A vida que julgava viver é, na verdade, uma alucinação elaborada. Está sob o efeito dessa alucinação enquanto, sem que tenha noção,  o seu corpo físico se encontra numa cápsula, do tamanho de um caixão, cheia de um líquido pegajoso - uma de muitas cápsulas, entre fileiras incontáveis delas, cada uma contendo um ser humano alheado num sonho. Essas pessoas foram colocadas nas cápsulas por mestres robóticos e receberam vidas imaginárias para se entreterem.
No filme, a escolha com que Neo se depara - continuar a viver numa ilusão ou acordar para a realidade - é representada pela famosa cena do «comprimido encarnado», Neo foi contactado por rebeldes, que entraram no seu sonho. O seu líder, Morpheus (representado por Laurance Fishburne), explica-lhe a situação: «És um escravo, Neo. Como todos os outros, nasceste em servidão, numa prisão que não podes provar, ver ou tocar - uma prisão para a tua mente.» A prisão chama-se Matrix, mas não há forma de explicar a Neo o que realmente é. A única maneira de ver o contexto total, segundo Morpheus, é «ver por si mesmo». Oferece dois comprimidos a Neo: um encarnado e um azul. Neo pode tomar o azul e voltar ao seu mundo imaginário, ou tomar o encarnado e romper o véu da ilusão. Neo escolhe o comprimido encarnado.
É uma escolha muito explícita: uma vida de ilusão e cativeiro ou uma vida de conhecimento e liberdade. De facto, é uma escolha tão radical, que se parece mesmo adequar a um filme de Hollywood - as escolhas que realmente fazemos quanto ao modo como vivemos são menos cruciais, mais corriqueiras. Porém, quando o filme estreou, várias pessoas consideraram que representava uma escolha que elas próprias haviam feito.
As pessoas a que me refiro são chamados «budistas ocidentais» (...) que, na sua maioria, não nasceram budistas, mas que a determinado momento adoptaram o budismo. Pelo menos, adoptaram uma versão do budismo, uma versão que fora expurgada de alguns elementos sobrenaturais típicos do budismo asiático, nomeadamente a crença na reencarnação e em várias divindades. Este budismo ocidental centra-se numa vertente prática da prática budista que na Ásia é mais comum entre os monges do que entre os leigos: meditação, a par de uma imersão na filosofia budista.
(...)
Esses budistas ocidentais, muito antes de terem visto o filme Matrix, haviam chegado à conclusão de que o mundo como o viam outrora era uma espécie de ilusão - não uma alucinação total, mas uma imagem deturpada da realidade que, por sua vez, deturpava a sua abordagem à vida, com consequências nefastas para si mesmos e para as pessoas que os rodeavam. Graças à meditação e à filosofia budista, sentiam que viam o mundo de forma mais clara. Para essas pessoas, Matrix parecia uma alegoria adequada para a transição que haviam vivido e, consequentemente, passou a ser conhecido como um «filme darma». A palavra «darma» tem vários significados, incluindo os ensinamentos de Buda e o caminho que os budistas devem percorrer em resposta a essa doutrina. Na sequência de Matrix, a afirmação «eu sigo o darma» passou a ser substituída por «eu tomei o comprimido encarnado».


in O Budismo tem Razão de Robert Wright (Nascente, 2018).