Diário, parte quarenta e um

No passado fim-de-semana, durante uma conversa banal, alguém que me é muito próximo, dizia sem qualquer tipo de preconceito que, ainda que goste da sua vida, se lhe dessem a escolher, obviamente preferia ter a vida das suas amigas, casadas e com filhos. Sorri, ainda que, cá dentro, tenha crescido uma estupefacção encoberta em tristeza. Este tipo de pensamento, por mais que neguemos, é muito comum. Aliás, atire a primeira pedra quem nunca desejou, em determinado momento, trocar de vida com algum amigo ou familiar. Quem nunca, ainda que a vida flua, se sentiu frustrado ao ponto de secretamente desejar que tudo fosse diferente. Por vezes, parece que os outros aparentam estar melhores do que nós, mantendo uma vida mais interessante que a nossa e abrindo a janela para que uma luz permanente entre. E nós, coitadinhos de nós, parece que tudo se encaminha para um precipício, ainda que à noite, antes de deitarmos a cabeça na almofada, percebamos, racionalmente, que este tipo de pensamentos não condizem connosco. Não passam de devaneios e ilusões acerca de pessoas e vidas que nunca iremos (re)conhecer a 100%. Lá bem no fundo, não temos uma vida assim tão miserável como sadicamente tendemos a fantasiar. Quem nunca, afinal?!
Não culpabilizo as pessoas, no singular, pelas reflexões incoerentes porque afinal, somos humanos e nem todos temos a capacidade para controlar a nossa consciência e as nossas emoções. Parte do problema reside na sociedade, no plural, nos estigmas e nas imposições que nos imputam para que possamos viver de forma tranquila e com sentimento de pertença a uma comunidade. Em pleno século XXI, em pleno período de um avanço tecnológico atroz, estabilizamos no que concerne aos preconceitos existenciais. Há que viver segundo a fórmula com que todos os outros vivem, há que caminhar na mesma estrada que terceiros para que, naquela linha, não nos sujeitemos a comentários impróprios e enxovalhamento público. Ao invés de progredir com lucidez, de utilizar as ferramentas da comunicação digital com inteligência não, a sociedade continua a empregar o seu tempo em demonstrar que a felicidade plena é a trajectória a seguir, é a única estrada possível, ainda que não exista alegria alguma, ainda que a direcção seja invisível. Como se tamanhos sentimentos fossem mensuráveis. A mentira apodera-se dos nossos meios jornalísticos, da televisão, dos computadores, dos telemóveis. E poucos são os que a negam, os que a questionam, ou até os que a ignoram e utilizam a sua energia em prol de algo de útil e palpável que simplifique e favoreça o seu próprio ego. Muitos sim, são aqueles que preferem ir atrás do rebanho, chafurdar na fraude ao ponto desta se tornar a sua segunda pele.
É, conforme o brilhante Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço. É a sociedade básica, a sociedade iluminada e do positivismo extremo que coloca livros de auto-ajuda de cordel nos tops de vendas, uma sociedade que não se reconhece nem aceita a si própria, obcecada, numa corrida sem fim, pelos ideiais das vidas dos outros. Uma sociedade doente, não crente, que não sabe viver somente para si, que só sobrevive com base na exuberância e na manifestação de alucinações. Uma sociedade sem valores, sem filosofia, sem cultura. Uma sociedade que recebe tudo o que lhe dão de mão beijada, uma sociedade sem curiosidade, sem conhecimento, sem vontade de beber a riqueza que tantas mentes brilhantes produziram, e produzem.
Neste panorama, cinzento como a presente estação, há algo crucial: a aceitação. A aceitação do que se é e aceitação do que nos rodeia. Nem sempre tudo é emocionante como os romances da época vitoriana, nem tudo parece tão cor-de-rosa como nos filmes mas, sem ceder à inércia, há que acolher o que se tem como o melhor. Confrontar a nossa vida com a vida alheia só transporta ressentimentos e enfermidades. O trabalho mental de reconhecer que sim, somos os melhores, sim, a nossa vida deve ser valorizada, tal como todas as pessoas com quem a partilhamos, é um trabalho árduo. Por vezes é necessário, até, vislumbrar o nosso lado mais negro para que, ali na escuridão, aos poucos, consigamos abrir os olhos e distinguir as sombras à nossa volta. Não é vergonha alguma admitir isto, vergonha é viver dentro de uma fábula. Ou não viver, sequer.

Há uns anos, recordo-me de uma polémica em torno do actor Keanu Reeves. Tudo porque o mesmo era avistado diversas vezes deslocando-se no metro em Nova Iorque e foi fotografado a comer uma sandwich tranquilamente num banco do parque. A fotografia circulou de forma viral na internet, dando lugar a memes que se intitulavam Sad Keanu. O actor, cujas origens e momentos trágicos já foram espremidos ao máximo pela comunicação social, questionado acerca deste movimento apenas encolheu os ombros e afirmou: You need to be happy to live, I don't.


The simple act of paying attention can take you a long way.