Diário, parte trinta e nove

Rubem Alves, o famoso teólogo, filósofo ou psicanalista, como lhe queiram chamar, escreveu um dia um livro, que não tendo lido na integra, retirei dele algo muito importante: o sofrimento, como a felicidade, é uma condição passageira, não permanente, cabendo-nos a nós, meros seres pensantes, saber relativizar os instantes negros e apreciar com intensidade os períodos luminosos. Encarar com modesta compreensão que a vida é composta por isso, momentos, e somente com um trabalho mental árduo conseguiremos caminhar de cabeça erguida perante as adversidades e os imprevistos, positivos e negativos, que se atravessam perante nós como autênticos pedregulhos. O livro que falo é Ostra Feliz Não Cria Pérolas. E não, não é um mero e estupidificante livro de auto-ajuda repleto de clichés, é sim um desenrolar de pensamentos deveras interessantes acerca da nossa essência enquanto humanos. O brasileiro pega num exemplo simples de um molusco bastante apreciado entre a fina flor para relatar que as ostras são bastante frágeis, tendo evoluído no sentido de "construir" as suas conchas para se protegerem dos predadores. Ainda assim, envoltas numa armadura quase impenetrável que lhes possibilitava viver sem grandes distúrbios, também elas sofriam quando um pequeníssimo grão de areia lhes penetrava na sua humilde casa e lhes lacerava a carne. Mas as ostras não desistiram e aprenderam que os pequenos grãos podiam transformar-se em algo extraordinário e, assim, trabalharam penosamente ao ponto de produzirem pérolas. Conseguiram transformar a dor em beleza. E é por isso que Rubem Alves sublinha que a beleza não elimina a tragédia, porque afinal, hipocrisia aparte, uma tragédia é isso mesmo, mas a beleza, na sua plenitude, tem o poder de converter a dor em algo suportável, em algo menor. Conclui que a felicidade, o bem-estar, é um dom gratificante e quando estes ciclos nos invadem, devemos apreciá-los com sensatez. No entanto, não é a beleza, não são sequer os momentos de luz que produzem pérolas, são sim as etapas cinzentas. São na verdade os sofredores que pintam as nossas vidas com as cores do arco-íris e nos atenuam a angústia. São os que sofrem que produzem a beleza, para deixar de sofrer. Falo daqueles que têm a faculdade e a excelência para criar arte: pintores, escritores, músicos, fotógrafos e tantos outros.

Mark Manson, numa dada altura do seu livro A Arte Subtil de Saber Dizer que se Foda, dita:

Existe uma premissa que subjaz a uma série de princípios e crenças. A premissa é que a felicidade é algorítmica e que se pode trabalhar para ela, conquistá-la e concretizá-la como se estivéssemos a candidatar-nos à faculdade de Direito ou a montar uma construção de Lego particularmente complicada. Se eu conseguir X, então poderei ser feliz. Se tiver a aparência Y, então poderei ser feliz. Se puder ser uma pessoa Z, então poderei ser feliz. A felicidade não é uma equação resolúvel. A insatisfação e o desconforto são partes inerentes da natureza humana e componentes inerentes à criação de felicidade consistente. Buda defendeu esta ideia com argumentos teológicos e filosóficos.

E acrescenta:

O rico sofre por causa das suas riquezas. O pobre sofre por causa da sua pobreza. As pessoas sem família sofrem por não terem família. As pessoas com família sofrem por causa desta. As pessoas que procuram os prazeres terrenos sofrem por causa dos prazeres terrenos. Aqueles que se abstêm dos prazeres terrenos sofrem devido a esta abstenção. Isto não quer dizer que todo o sofrimento seja igual. Há sofrimento mais e menos doloroso. No entanto, todos temos de sofrer. (...) para mim a revelação prática é aceitar a ideia de que teremos sempre de sofrer alguma coisa - façamos o que fizermos, a vida é composta de fracassos, perdas, remorsos e até morte. Porque uma vez que nos sintamos confortáveis com toda a merda que a vida nos atira (e, acredite, será muita), tornamo-nos invencíveis a uma espécie de nível espiritual básico. Afinal, a única maneira de ultrapassar a dor é aprender a suportá-la. 

E por último:

Brincamos online com os «problemas do primeiro mundo», mas a verdade é que nos tornámos vítimas do nosso sucesso. Nos últimos anos dispararam os problemas de saúde relacionados com o stress, as perturbações de ansiedade e os casos de depressão, apesar de toda a gente ter um ecrã plano e receber as compras do supermercado em casa. A nossa crise já não é material; é existencial, é espiritual. Temos tanta tralha e tantas coisas e oportunidades, que já nem sabemos a que dar importância. (...) Postamo-nos diante do espelho afirmando repetidamente que somos belos, porque sentimos que ainda não somos belos. Seguimos conselhos de relacionamento, porque achamos que ainda não merecemos ser amados. Tentamos exercícios patetas de visualização em que somos mais bem-sucedidos, porque sentimos que ainda não temos sucesso suficiente. Ironicamente, esta fixação no positivo - no que é melhor, no que é superior - apenas serve para nos recordar constantemente aquilo que não somos, aquilo que nos falta, aquilo que devíamos ter sido mas não conseguimos ser. Afinal, uma pessoa realmente feliz não sente necessidade de se postar diante de um espelho a entoar que é feliz. Apenas é.


E é por isto que a piedade, tantas e tantas vezes aclamada por Buda, é essencial. Porque esta reflexão advém da minha mania comum da observação de lupa em punho. E sinto verdadeira clemência por aqueles que ainda não atingiram a maturidade suficiente para entender que, porra, a vida é mesmo assim. Há o que vale a pena, há o que não vale. Há o que tem importância, há o que não tem. Há quem tenha relevância, há quem não tenha nenhuma. Há que aceitar o que se tem, mesmo aquilo que por vezes nos parece tão pouco comparativamente com o tesouro escondido do vizinho do lado, e agradecer. Porque, afinal, sabemos tão pouco acerca da nossa vizinhança e talvez não consigamos entender que, até eles, também têm os seus problemas. Viver para nós, para os nossos, e não entrar no circo vergonhoso de prejudicar os outros com a esperança utópica de que a dor e as lágrimas alheias serão capazes de atenuar o desencantamento perante a vida. Não. Há que criar beleza, apenas.