Da literatura, parte quarenta

A ideia de que no campo se vai trabalhar menos do que na cidade é o maior engano desta dicotomia. Aquilo de que o campo nos protege é das pequenas tentações do dia-a-dia, que por outro lado constitui aquilo de que muito citadinos arrependidos mais gostam. Julgar que no campo se vai ter menos trabalho e os menos ensejos lúdicos (só que mais baratos), quando no fundo acontece o contrário, é o que leva mais românticos a fazer as malas de volta.
Uma casa de campo nunca está definitivamente pintada, nem reparada, nem sequer limpa. Mesmo que contratemos ajuda: temos de estar presentes, trocar impressões, fazer psicologia, distribuir cervejas. Depois há o jardim, crescendo tresloucado. O cão, que nos vem pôr brinquedos no colo, em busca de folia. A campainha, tocando como louca.
Carteiros, padeiros, peixeiros. Fiéis em peditório para as festas do Espírito Santo e miúdos a vender rifas para a festa da escola e funcionários da Câmara a avisar que vamos ficar duas horas sem água - a campainha do meu portão parece ser a mulher mais amada de Terra Chã. Ainda por cima é um homem: um sino que se puxa com uma corda, como nas igrejas à hora certa.
Depois chega o fim-de-semana e há motoserras, corta-relvas, berbequins. Quase todos os sábados há ao menos um berbequim, ao longo da manhã - e às vezes até é o meu.
O campo também pode ser uma chinfrineira. E tem invejas. E tem mesquinhezes. E castigações, e ignorâncias atávicas, e convenções tontas. O que quer que haja na cidade, também o há no campo, porque se pode fugir de tudo menos do Homem. Até no alto de uma montanha sozinhos, ou mesmo no fundo do mar - até aí ele continuará dentro de nós.
O campo tem a espécie toda sem deixar de ter natureza, exultante e libertadora. O que poderia haver de mais maravilhoso?


in A Vida no Campo de Joel Neto (Marcador, 2016).