Da literatura, parte trinta e nove

Fotógrafo de génio, Salgado bateu no fundo nos anos 90, depois de visitar o Ruanda. Entre o Ruanda e o Holocausto, a diferença é estética. Veio de lá de rastos. Achava que não merecíamos viver.
Sem saber o que fazer, decidiu voltar à velha fazenda do pai, em Minas Gerais. Encontrou-a abandonada, devastada pela seca. Olhou-a longamente. Meteu mãos à obra, reflorestou tudo e, com isso, reergueu-se a si próprio.
Plantou milhões de árvores. Voltou a fotografar. E provou uma coisa. Duas. A primeira foi que, ao contrário de Steiner, há de facto recomeços. E a segunda que, perante a desumanização, só a terra pode salvar-nos.
Voltar a ela. Levantá-la do chão.
À sua maneira exaltada e compassiva, o meu avô intuiu-o. Por isso me deixou esta mata assim, devastada.
Um dia vou levantá-la. Um dia que caia e precise.


in A Vida no Campo de Joel Neto (Marcador, 2016).