Da literatura, parte trinta e quatro

A Vida no Campo de Joel Neto (Marcador | 2016)


É Verão mas estes anoiteceres assomam abraçados a uma brisa fresca que lembram a chegada do Outono. E o que eu gosto do Outono. Estas palavras que escrevo envolvem a noite enquanto a janela, escancarada, convida o frio a entrar. Aqui ao meu lado encontra-se o livro "A Vida no Campo" do insular Joel Neto e a vontade que tenho em descrever tudo o que li, tudo o que senti ao percorrer as suas páginas é tanta que, nem sei bem porquê, as palavras enrolam-se e tardam em vir. Leio muito, é certo, e como o meu companheiro costuma afirmar, sempre que lhe falo com entusiasmo exacerbado de algum livro que gostei mesmo muito: "todos os livros bons que lês passam a ser os teus favoritos". E não mente. É ali, no momento que, no fim da última página, sinto-me de tal forma arrebatada que só com a leitura de outro livro decente consigo me acalmar. A literatura tem este efeito em mim, nada posso fazer. É que ler, sim, repito, leio muito, mas cada vez são menos os livros que me empolgam. Lembro-me, assim de repente, de um romance do Alain de Botton que, perdoe-me o senhor que até respeito bastante, é tão mau, tão mau nem que nem o consegui terminar. Ainda assim, ou começo a ter um certo requinte na escolha do que leio ou, caraças, tenho uma sorte desgraçada na escolha das obras. E foi o que aconteceu com "A Vida no Campo". Foi através da sua leitura que relembrei, com saudade, a viagem que, em 2016, de mochila às costas e completamente sozinha fiz por cinco ilhas dos Açores. Estava perdida na vida e pensei que lá me reencontraria. Não me enganei, só num pequeno pormenor: deixei um pequeno pedaço de mim no arquipélago. Um desses fragmentos ainda continua na ilha Terceira, cenário do livro do Joel Neto que, após vinte anos a estudar e a trabalhar na capital, decide regressar às suas origens e relatar, em forma de diário, quatro estações passadas na terra da Vitorino Nemésio. E nem foi necessário fechar os olhos para relembrar a minha estadia na Terceira. Comigo levava o "Açores" do João de Melo e foi virada para o Atlântico, com o Monte Brasil nas minhas costas que li as descrições do autor acerca daquela terra. Nesse mesmo dia tinha visitado a Serra do Cume e chovia, chovia imenso em pleno mês de Julho. Refugiei-me no hotel com o livro nas mãos e vislumbrei o mar. Aquele mar azul. Aquele azul que é diferente de qualquer azul que já tenha visto outrora. E o verde, aquele verde. Sim, deixei para trás parte de mim que, um dia, pretendo resgatar, mas, por enquanto vou caminhando nestas ruas de calçada tosca na aldeia onde escolhi viver. É por isto, que me emocionei tanto a ler o livro de Joel Neto, não só porque estive lá, não só porque aquela viagem teve uma importância enorme na minha vida, mas também porque eu decidi ancorar o meu coração no meio rural. Chorei, chorei com um sorriso nos lábios quando o autor descreve, na página 25, as pessoas que dentro dos seus carros, entre as hortênsias, com toda a paciência e respeito do mundo, fazem fila para um pai e os seus dois filhos, com um carro e bois e as suas bezerras, possam passar. Ri, ri imenso na página 50 sobre o homem que no Terreiro vendia um ovo com duas gemas ao preço de dois. Todo o livro é isto, uma comoção tremenda. E se o autor pretendia a mudança da cidade para o campo na ânsia de conseguir escrever um épico talvez, sem o saber, o tenha alcançado. Em tom de brincadeira, mas falando a sério, costumo dizer que desconfio sempre de pessoas que não gostam de ler. Acrescento, desconfio sempre de pessoas que não gostam de ler e de pessoas que até são capazes de ler mas não se comovem.


Do Ti Zé Nogueira não rezará a História. Quem mudou o mundo não foram os camponeses honestos, que pagaram os seus impostos e encheram a igreja da freguesia no dia em que foram a enterrar. Dos aventureiros, dos inventores e dos facínoras - deles, sim, reza a História.
Por isso se inventou a literatura.