Da literatura, parte trinta e seis

Ia começar a melhor parte do seu dia. O instante sublime. A qualidade de vida. Sentara-se num tronco e dispusera sobre um paninho branco uma lata de sardinhas, um pedaço de pão e um tupperware com dois ovos cozidos que a mulher lhe descascara.
Perguntei-lhe o nome. Chamava-se Manuel e referiu-se à mulher como há muito eu não via um homem referir-se.
Torga anda comigo desde o primeiro momento, como um oráculo, e é-me útil. Mas, no dia em que eu deixar de comover-me com um homem que ama a sua mulher e come sardinhas em lata e isso basta-lhe, não terei por onde ir - que venha a negra da gadanha e, por misericórdia, me ponha a salvo da miséria.


in A Vida no Campo de Joel Neto (Marcador, 2016).